Estados Unidos

A mensagem de Chadwick Boseman ecoou forte no esporte e seu Pantera Negra também inspirou o futebol

A notícia da morte de Chadwick Boseman é daquelas que impactam. Aos 43 anos, o ator americano ainda tinha uma infinidade de papéis a viver no cinema, de histórias a contar, de personagens a marcar. Também pesa o fato de que, não faz muito tempo, a gente via o super-herói em plena forma nas telonas para, pouco tempo depois, descobrir sua luta contra o câncer. E a perda de Boseman se torna ainda mais sentida porque, afinal, parecia fácil criar vínculo com seu carisma nos filmes. O Pantera Negra marcou o auge de sua popularidade e de uma representatividade que, entre seus muitos caminhos, repercutiu também no futebol.

Quando o filme da Marvel estourou nos cinemas, as menções ao Pantera Negra nos gramados surgiram aqui e acolá. Vários jogadores negros se identificaram e quiseram ser também um pouco o super-herói depois de um gol. A comemoração mais lembrada talvez tenha sido a de Pierre-Emerick Aubameyang, que até mesmo tirou uma máscara de T’Challa no Arsenal x Rennes pela Liga Europa em 2019. “Eu precisava de uma máscara que me representasse. É o Pantera Negra e a seleção do Gabão tem o apelido de Pantera, então isso me representa”, declarou o artilheiro, que já tinha se fantasiado de Homem-Aranha e Batman. Mas, antes de Auba, o gesto de ‘Wakanda Forever’ havia se repetido diversas vezes nas principais competições pelo mundo – de Paul Pogba e Jesse Lingard em Old Trafford ao colorado Patrick no Beira-Rio.

O Pantera Negra é o primeiro super-herói negro dos quadrinhos. A criação de Stan Lee e Jack Kirby fez sua primeira aparição na Marvel Comics em julho de 1966 – curiosamente, no mesmíssimo mês em que o ‘Pantera Negra’ Eusébio se tornava artilheiro da Copa do Mundo. O personagem fictício se insere em um contexto de luta pelos direitos civis nos Estados Unidos, e é até mesmo anterior ao surgimento do movimento dos Panteras Negras. Sua mensagem continuou atravessando mais de cinco décadas e não é à toa que essa representatividade ecoou de tantas formas, inclusive entre atletas negros dentro do futebol. O Pantera Negra de Chadwick Boseman foi o herói de cinema que pôde dizer tanto a jovens negros, mas que contagiou e ganhou apreço muito além da cor da pele de quem via o filme.

Aubameyang usa a máscara do Pantera Negra contra o Rennes (Matthew Impey / Imago/ One Football)

Boseman, aliás, teve sua mensagem repassada não apenas no futebol. O ator chegou a ‘conceder os poderes do Pantera Negra’ a Victor Oladipo durante o torneio de enterradas do All-Star Game 2018 e por vezes apareceu na beira da quadra durante os jogos da NBA. Não à toa, sua morte foi bastante repercutida entre os astros da liga americana de basquete. Na NFL, Michael Bennett chegou a gritar um ‘Wakanda Forever’ durante a apresentação dos jogadores do New England Patriots num Sunday Night. E na MLB, mais do que o herói dos quadrinhos, Chadwick Boseman ainda encarnou aquele que é o maior herói negro da modalidade: Jackie Robinson, o pioneiro no bastão que rompeu a segregação entre ligas no beisebol. A camisa 42 é aposentada em todas as franquias para celebrar Robinson. Também se chama ’42’ o filme em que Boseman interpreta o craque, e que foi importante para impulsionar sua carreira em 2013.

Coincidentemente, o adeus de Chadwick Boseman aconteceu no mesmo dia em que a MLB celebrou o ‘Jackie Robinson Day’ em 2020 – uma data em que todos os atletas na liga usam o uniforme 42. A comemoração geralmente ocorre em 15 de abril, quando se deu a rodada inaugural do campeonato em 1947, a primeira temporada de Robinson no Brooklyn Dodgers. Por conta da pandemia, a celebração precisou ser adiada neste ano. Quis o destino que acabasse atribuída neste 28 de agosto, lembrado ainda de outra maneira.

Chadwick Boseman teve a primazia de interpretar não só T’Challa ou Robinson, mas também outros papéis de grande significado ao movimento negro – como o cantor James Brown ou o juiz Thurgood Marshall, o primeiro afro-americano a compor a Suprema Corte dos Estados Unidos e de enorme importância à luta pelos direitos civis. Que a carreira tenha sido relativamente curta, assim como sua vida, Boseman deu uma contribuição imensa por aproximar milhões de pessoas de figuras tão icônicas ao movimento negro – e que transmitem tanta força, também por meio de seu talento à atuação. O ator se vai em um momento igualmente massivo para se dizer que ‘vidas negras importam’ nos Estados Unidos e em outros cantos do mundo, e com sua parte feita neste empoderamento.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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