Eliminatórias da CopaEspanha

Uma repescagem não faria mal à Espanha

Não importa se você acha o futebol da seleção espanhola chato de ver. Não importa se você acha o Puyol perna de pau. Não importa se você não gosta dessa história de time sem centroavante. A Espanha é a seleção que ficará marcada neste começo de século por conquistar uma Copa do Mundo e duas Eurocopas em sequência, estabelecendo um estilo de jogo próprio que a colocou como um time de ponta.

Agora, tudo isso não significa que a Espanha tenha se tornado a potência infalível do futebol mundial, e que todo o futuro do esporte necessariamente passe pelo que os espanhóis criaram. Parece lógico, mas os espanhóis muitas vezes agem como se acreditassem nisso. E o custo disso pode ser jogar a repescagem para ter o direito de defender seu título mundial em 2014.

Obs.: antes que você já fique dizendo que o estilo de posse de bola veio do Barcelona e a seleção espanhola apenas o absorveu, pense de novo. A Espanha tem esse estilo desde as Eliminatórias da Eurocopa de 2008. Guardiola só assumiu o Barcelona em julho daquele ano. Com Rijkaard, o Barça tinha um jogo mais veloz, com mais dribles e lançamentos longos e menos troca de passes. No fundo, as duas equipes desenvolveram esse estilo em paralelo, até porque alguns dos jogadores-chave são os mesmos. O Barcelona chegou ao estado-da-arte desse sistema, mas não dá para dizer que a seleção espanhola seja apenas cópia.

A seleção espanhola cai constantemente no pecado da soberba. E aí vai uma diferença grande com o Barcelona. Não é apenas o fato de um time ter Messi e o outro, não. O Barça joga sempre com sede de golear, enquanto que a Furia parece se contentar com vitórias magras. Contra Alemanha ou Holanda, 1 a 0 é goleada. Mas, contra Finlândia e Geórgia, dá para vencer com alguma folga.

Jogando sem se preocupar com o placar, se colocando perto do limite por acreditar que o oponente não será capaz de agredi-la, a Espanha ganhou críticos (aquele papo de ser um estilo de jogo feio e chato). Mas o problema não é a beleza do futebol, é a arrogância. E o risco. Contra a Finlândia, perto do fim da partida, os espanhóis acabaram tomando o gol que acharam que jamais tomariam. Ficaram em um empate em casa e agora enfrentam a França em Saint-Denis com a obrigação de vencer para não depender de outros resultados para evitar a repescagem.

Não dá para colocar esse empate como acidente. Menos mal para os espanhóis que não é fase de mata-mata. O erro contra a Finlândia pode ser corrigido ainda. A atual campeã mundial pode ganhar dos franceses em Saint-Denis, do mesmo jeito que, na Eurocopa 2012, respondeu ao susto contra Portugal na semifinal com um sonoro 4 a 0 na Itália na final.

A Espanha precisa se acostumar mais com essa ideia de ser candidata a potência mundial. É preciso se impor quando é possível, e não dar margem para se colocar em enrascadas quando sua equipe é claramente superior. Nesse aspecto, tomar o susto de jogar a repescagem teria um aspecto educativo. Ajudaria os espanhóis a entenderem que, se o time é realmente forte, precisa mostrar isso nos jogos grandes e pequenos. E não se contentar com pouco.

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Ubiratan Leal

Ubiratan Leal formou-se em jornalismo na PUC-SP. Está na Trivela desde 2005, passando por reportagem e edição em site e revista, pelas colunas de América Latina, Espanha, Brasil e Inglaterra. Atualmente, comenta futebol e beisebol na ESPN e é comandante-em-chefe do site Balipodo.com.br. Cria teorias complexas para tudo (até como ajeitar a feijoada no prato) é mais que lazer, é quase obsessão. Azar dos outros, que precisam aguentar e, agora, dos leitores da Trivela, que terão de lê-las.

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