Espanha

Trofeo de Pelotitas?

O que é a Espanha? Óbvio, dá para dizer que é um país da Península Ibérica que tem como idioma oficial o espanhol e é o atual campeão mundial de futebol. Mas vamos buscar a essência disso. O que representa a Espanha? Que pedaço de terra podemos considerar como sendo a Espanha? Ou, para ser mais específico, quanto do atual território espanhol precisa estar junto para podemos considerar que representa a Espanha como um todo? E quem precisa chancelar esse processo para se dizer que representa a Espanha como um todo?

Tudo bem, parece filosófico demais, mas é o que está por trás da versão espanhola da polêmica da Taça de Bolinhas, ou da unificação dos antigos Brasileirões. Até hoje, dois clubes azul-grenás defendem uma revisão na história do Campeonato Espanhol e da Copa do Rei. Defendem que dois torneios disputados na década de 1930 sejam reconhecidos como oficiais. Mas cada vez isso parece menos provável.

Em 1936, o general Francisco Franco tomou o poder no país em um golpe de Estado. Republicanos não aceitaram a ditadura de inspiração fascista e teve início uma guerra civil. À medida que os combates seguiam, o país era dividido entre os territórios dominados por cada partes. Era inviável realizar competições de futebol que abrangessem todo o país.

No entanto, a bola não parou no lado republicano, a costa sul do país. Na temporada 1936/37 foi realizada a Liga do Mediterrâneo, torneio que seria o campeonato nacional do que era a Espanha republicana. Fizeram parte Athletic Castellón, Barcelona, Español (atual Espanyol), Gimnástico (Valencia), Girona, Granollers, Levante FC e Valencia. (Obs.: em 1939, Levante FC e Gimnástico se fundiram, dando origem ao Levante Unión Deportiva, o atual Levante)

O torneio foi mais equilibrado do que o poderio atual dessas equipes sugere. O Barcelona, já naquela época o maior time da região, ficou com o título. Perdeu apenas uma partida, para o Girona, mas empatou seis vezes. Desse modo, ficou apenas um ponto à frente do rival Español. Aliás, apenas quatro pontos separaram o campeão do Levante, o quinto colocado (lembrando: a vitória valia apenas dois pontos).

Os quatro primeiros colocados disputariam a Copa da Espanha Livre, também chamada de Troféu Presidente da República e Copa da República. Seria a versão republicana da Copa da Espanha (que, até a Guerra Civil, se chamava Copa do Presidente. Após a vitória franquista, se tornou a Copa do Generalíssimo. Copa do Rei só foi adotado entre 1903 e 32 e a partir de 1976). Fariam parte os quatro primeiros colocados da Liga Mediterrânea: Barcelona, Espanyol, Girona e Valencia. No entanto, o Barça preferiu excursionar pela América do Norte para arrecadar dinheiro para as tropas republicanas. Os levantistas ficaram com a vaga.

O torneio foi disputado em quadrangular, com jogos de ida e volta. Os dois primeiros disputavam a final. O Levante justificou sua vaga surpresa e ficou em primeiro lugar na fase de classificação, com três vitórias, dois empates e uma derrota (na rodada final, quando já estava classificado). No caminho, os granotas conquistaram duas vitórias contundentes nos dérbis valencianos: 4 a 0 e 5 a 2 no Valencia. A decisão foi novamente contra os ches: 1 a 0 para o Levante em jogo único em Barcelona.

As duas competições não tiveram sequência. Os republicanos perderam terreno e acabaram derrotados definitivamente em 1939. O governo franquista não reconheceu a validade da Liga Mediterrânea e da Copa da Espanha Livre. No entanto, o Troféu do Generalíssimo de 1939, vencido pelo Sevilla, foi aceito como a primeira edição da Copa da Espanha pós-guerra, mesmo só tendo sido disputada por equipes de Andaluzia, Galícia, Aragão, Ilhas Baleares, Cantábria, Navarra, País Basco e Norte da África (sim, Catalunha e Madri ficaram de fora).

A partir da morte de Franco, em 1975, a Espanha passou por uma reinterpretação de sua história e maior aceitação das culturas regionais. O movimento republicano da década de 1930 teve aceitação. Foi a senha para Barcelona e Levante pedirem ao oficialização de suas conquistas na Espanha republicana. Em 2009, a RFEF lavou as mãos, dizendo que não reconhece as competições por que não foi ela que as organizou. Mas ainda há barcelonistas e levantistas que protestam.

No final das contas, como no Brasil, o debate se torna muito mais político do que esportivo. De qualquer modo, ninguém na federação espanhola considera a hipótese de usar a oficialização dos títulos para acirrar a disputa entre dirigentes ou mudar a relação de forças para a renegociação dos direitos de televisão.

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Equipe Trivela

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