Espanha

Todo mundo em pânico

De um lado, um clube cosmopolita, que apresenta ao mundo uma imagem de seleção internacional acima de qualquer coisa. Do outro, uma equipe que adota uma filosofia oposta, colocando-se como símbolo de uma região para ter espaço no exterior. Não importa a filosofia empregada, Real Madrid e Barcelona não escondem que se consideram – ou, pelo menos, almejam ser – os maiores clubes do mundo.

Desse modo, o cenário que se apresenta para o final de temporada não poderia ser mais melancólico para ambos. Uma sensação ganhou força na última semana devido aos resultados da Liga dos Campeões e do Campeonato Espanhol. Ninguém parece que chegará perto de seu objetivo e o gosto de fracasso pode ficar na boca durante o verão.

O caso mais evidente é o do Real Madrid. Depois de conquistar três Ligas dos Campeões em cinco anos (entre 1998 e 2002), o clube tinha certeza que voltara a ser a potência mundial que fora na década de 1950. A era dos galácticos não deu muito certo, mas, depois do título espanhol da temporada passada, os merengues tiraram um peso das costas. A partir daí, seria questão de tempo para reencontrar a rota das glórias internacionais, unindo troféus continentais e futebol bonito.

A campanha no Campeonato Espanhol serviu para arrefecer os ânimos. O time de Schuster joga bonito em alguns momentos, mas tem oscilações de desempenho mais constantes que o desejável, tirando um pouco aquela sensação de onipotência. Vá lá, porque a liderança na liga nacional era folgada e o time ainda estava na Liga dos Campeões, ainda que tropeçando para passar por Olympiacos, Werder Bremen e Lazio.

A forma como o Real foi eliminado pela Roma acabou com a esperança de voltar a ser potência européia nesta temporada. Cair quatro vezes seguidas nas oitavas-de-final da LC é um baque muito forte para uma torcida tão exigente quanto a madridista. Além disso, o adversário nem era um que despertava tanto respeito. Nada contra a Roma, que mereceu vencer as duas partidas por um magnífico jogo coletivo, mas os blancos nem podem se consolar pelo fato de terem perdido para um dos favoritos ao título ou um time com algum grande craque que desequilibrou.

O fato de ter sido uma derrota contundente, mas sem glamour algum, até aumenta a sensação de fraqueza do time. Ainda que, dependendo do sorteio, os blancos pudessem ter se classificado para as quartas, seria algo ocasional. O time não tem futebol para ir mais longe que isso. No momento, dá para dizer que Manchester United, Chelsea, Arsenal, Liverpool, Roma (pelo que se viu no confronto direto), Bayern de Munique e Internazionale (mesmo com o trauma de LC) são melhores que o Real. Outro grupo considerável de equipes estaria no mesmo nível.

Essa realidade assusta a diretoria madridista, pois é um sinal de que o Real talvez leve mais tempo para voltar a ser o maioral da Europa. O título do Campeonato Espanhol parece certo, mas imprensa e torcida imaginavam uma temporada mais gloriosa.

O título da LC nem era obrigação, mas a campanha deveria, no mínimo, ser empolgante e parar apenas em outro grande esquadrão repleto de estrelas internacionais. Algo que deixasse evidente que os merengues estão no primeiro escalão do futebol europeu. Isso não aconteceu, o que configura um insucesso do atual projeto.

Perda de confiança
Se serve de consolo para o Real, o fim de temporada do Barcelona não dá pinta de que será muito mais alegre. Curiosamente, os catalães têm o que os merengues tanto lamentam ter perdido: uma vaga nas quartas-de-final da Liga dos Campeões. Analisando superficialmente, parece que o Barça não tem muito do que reclamar, pois ainda podem chegar às férias comemorando uma conquista continental.

No entanto, os acontecimentos recentes do Campeonato Espanhol tiram o ânimo dos blaugranas. Depois de reduzir a distância em relação ao Real para dois pontos, o Barcelona perdeu duas partidas seguidas e viu a diferença voltar a oito unidades, um índice difícil de tirar novamente. Por mais que algumas apresentações empolguem, a inconstância do time é crônica e Rijkaard parece passivo a ela.

Pior, a derrota em casa para o Villarreal fez alguns fantasmas reaparecerem, como a desunião do elenco e a falta de compromisso de algumas estrelas com o time. Agora, a mira está em Henry e Eto’o. O cenário fica ainda mais nebuloso quando se vê que Messi – único dos craques culés que joga um futebol compatível com seu talento – está contundido e deve desfalcar o Barcelona nas quartas-de-final da LC.

A soma de todos esses reveses mina a confiança em Les Corts. Já não é segredo que pouca gente no clube realmente acredita que o Barcelona possa conquistar o título europeu em junho. Tanto que há várias vozes falando sobre os planos da próxima temporada, como se a atual já fosse caso perdido.

Ao contrário do Real, que não se contenta com o Campeonato Espanhol, a conquista da liga já seria de bom tamanho para o Barça. Pelo menos, os catalães estariam recuperando o domínio do país, perdido na temporada passada. Mas nem isso parece que virá, pois a distância aberta pelos merengues é grande o bastante para tirar o otimismo dos blaugranas.

Se o time, de repente, reencontrar paz de espírito e o futebol perdido em algum canto no Camp Nou, o Barça até pode salvar a temporada com a conquista da Liga dos Campeões. Mas isso soa tão improvável no momento que a sensação de fracasso também cresce no torcedor barcelonista.

Considerando as crises de identidade de Real Madrid e Barcelona, há uma perspectiva razoável que o final de temporada será desanimado e as férias de verão serão usadas para mudar alguns conceitos nos dois clubes. Independentemente de qual deles fique com o título do Campeonato Espanhol.

Silêncio barulhento
Na última sexta, o deputado Isaías Carrasco, do PSOE (Partido Socialista Obrero de España, o mesmo do primeiro-ministro José Luis Zapatero) foi assassinado em uma tentado do grupo terrorista basco ETA. Claro, uma tentativa de desestabilizar o processo eleitoral que ocorreu dois dias depois. O fato lamentável motivou a LFP (liga de clubes) a determinar que todos os jogos do fim-de-semana pelas primeira e segunda divisões respeitassem um minuto de silêncio.

Parece uma ordem trivial, mas não é tão simples. No País Basco, torcidas organizadas se transformaram em rincões para demonstração de intolerância e apoio ao ETA. O Athletic Bilbao, por exemplo, tem por regra só fazer minuto de silêncio no San Mamés em memória a alguma personalidade ligada ao clube. Um modo de, discretamente, evitar a politização das homenagens.

Dessa vez, o clube bilbaíno abriu uma exceção e atendeu ao pedido da LFP no jogo contra o Valladolid. Foi a deixa para o Herri Norte, grupo de torcedores do Athletic, vaiar a homenagem. A maior parte do estádio reprovou a manifestação desse grupo, mas foi um sinal de que o apoio de parte dos bascos (para deixar claro, uma minoria) ao terrorismo não é tão velado. Para não criar um constrangimento maior, o árbitro Ángel Ayza Gámez deu início ao jogo apenas oito segundos após iniciar o “minuto” de silêncio.

Ciente dessa realidade, o Osasuna foi o único clube das duas primeiras divisões da Espanha a realizar uma partida sem o minuto de silêncio a Carrasco. O clube de Navarra (vizinho à região administrativa do País Basco e, para alguns, integrante do que seria o “País Basco de verdade”) anunciou por alto falante que se unia às homenagens ao deputado. Além disso, combinou com o Almería que todos os jogadores teriam uma tarja preta, sinal de luto, no braço. Modos de evitar o minuto de silêncio e potenciais vaias dos Indar Gorri, torcida organizada do rojillos que defendem a causa basca.
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Equipe Trivela

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