Tito Vilanova e o mito que Guardiola era desnecessário
Enquanto coçava a careca e pensava no que fazer durante o seu ano sabático, Guardiola talvez já tivesse uma boa ideia da encrenca que o Barcelona teria pela frente na temporada 2012-2013. Não que ele tenha uma bola de cristal, ou seja arrogante a ponto de achar que a equipe não saberia se virar sem ele (ao menos, se pensa dessa forma, nunca deixou escapar tal sentimento). Em seu último ano como treinador do clube, Pep já vinha rebolando para criar alternativas que tornassem o tiki-taka catalão menos previsível diante de adversários que dividiam seu tempo entre admirar, detestar e dissecar um time que já havia deixado sua marca na história.
Ao Barcelona não havia a cômoda opção de tirar um ano de folga, no entanto. Por isso mesmo, a opção pela continuidade, personificada pelo até então auxiliar Tito Vilanova, fazia todo sentido. Afinal, o problema não estava no estilo de jogo adotado (e ainda não está, que fique bem claro), mas sim na dificuldade em lidar com os antídotos que vinham sendo desenvolvidos, lentamente, pelos adversários. Trazer um figurão sem identidade com o clube implicaria em uma sensível mudança de modus operandi, por menor que fosse. E o fracasso de Luís Enrique (antigo técnico do Barcelona B) na Roma reduzia as opções àqueles que já figuravam no quadro de funcionários do clube.
Dos pequenos sustos ao último espasmo
Do ponto de vista dos resultados, o início do trabalho de Tito foi bastante promissor. O Barcelona rapidamente disparou na Liga Espanhola, a qual viria a conquistar com inimaginável tranquilidade. Tanto que muitos nem perceberam que a predominância dos blaugranes se dava de forma bem menos confortável do que de costume. A equipe dependia bem mais de Messi e Iniesta, questão que naturalmente se escondia por trás dos justos aplausos ao mais prolífico ano da vida do craque argentino. Ao mesmo tempo, sofria muito mais gols. E não era só uma questão de sorte, o time andava mesmo se enrolando além do aconselhável nas duas frentes.
Coube então à Liga dos Campeões a tarefa de fazer com que os constantes sustos sofridos pela equipe tivessem as suas consequências. De início, irrisórias. Na primeira fase, os barcelonistas fizeram apenas o suficiente para garantir o seu lugar na próxima fase. A derrota para o Celtic veio em um jogo onde a defesa nem sofreu tanto, mas o ataque mostrou vasta inoperância diante de uma defesa muito bem postada. Pior mesmo seria a derrota por 2 a 0 contra o Milan, nas oitavas. Um placar que obrigava o Barcelona a reencontrar os seus melhores dias na partida de volta. Ameaça recebida e impiedosamente respondida.
Complicado medir o quanto a lesão de Messi influenciou no que viria a seguir. Evidente que a ausência de La Pulga foi um golpe forte, mas o resto da equipe jamais voltou a apresentar o mesmo futebol do jogo contra o Milan (e é assustador lembrar que o Barça passou alguns anos mostrando aquela desenvoltura, duas vezes por semana, quase que religiosamente). Como resultado, uma dificuldade inesperada para suplantar o PSG e duas surras categóricas aplicadas pelos inspirados pés do Bayern. A falta de soluções para os problemas apresentados desde o início da temporada enfim cobrou o seu preço. Mas até que ponto a culpa pode ser repassada a Tito Vilanova?
“Vâmo mexê o bolo, que a fila tá andando!”
É impossível responder a pergunta sem levar em consideração o grave problema de saúde que o técnico do Barcelona vem enfrentando. O retorno de um insistente câncer na glândula parótida obrigou Tito a se ausentar de suas funções por alguns meses, período em que o auxiliar Jordi Roura, que não é um treinador de campo, segurou as pontas. A notícia do afastamento forçado seguramente caiu como uma bomba em um elenco que ainda se ambientava à troca de comando, por mais que já conhecesse o novo chefe de longa data. A ruptura do processo, em uma fase ainda incipiente, colocou em risco qualquer tentativa de avaliação mais elaborada sobre a sua eficácia.
Na defesa, outros frutos das canteras também poderiam ter sido melhor aproveitados. No fim de 2012, Montoya vinha atuando melhor que Daniel Alves, mas na segunda etapa da temporada quase desapareceu. Faltou também confiança em Bartra, que poderia ter ganho mais rodagem em jogos fáceis. Uma experiência que faltou na hora em que foi acionado em jogos decisivos pela Liga dos Campeões. E o mau aproveitamento do elenco se estende também aos que vieram de fora. Song, mesmo podendo aumentar a estatura do time em momentos de apuros, pairou como assombração pelo banco da equipe, só sendo lembrado em momentos de puro tédio. Adriano, fundamental na zaga e nas laterais durante um surto de desfalques, também perdeu espaço subitamente.
O recomeço
Demitir um profissional identificado com o clube, querido pelos jogadores, que passa por sérios problemas de saúde e acabou de ser campeão nacional obviamente não é uma opção, mesmo que a satisfação com seu trabalho não seja total. Tito terá uma nova chance para mostrar do que é capaz, agora lidando com um tipo de cobrança diferente: a missão não é mais a de manter sua equipe no topo, mas de reconduzi-la até lá, a partir de uma reavaliação do estágio em que se encontra. O que caiu por terra foi o mito de que Guardiola nem era tão importante assim e que sua tarefa era meramente reunir um grupo de notáveis, que jogariam por mágica.
Se o seu câncer continuar dando uma trégua (ou melhor ainda, sumir do mapa), poderemos enfim avaliar a capacidade de Tito Vilanova para levar adiante um dos maiores clubes do mundo. Ao que tudo indica, o técnico contará com reforços importantes em quase todos os setores, o que facilitará a sua vida, mas também aumentará a sua responsabilidade. Enquanto a sombra de Guardiola se afasta lentamente, o bem sucedido escudeiro terá de mostrar que também pode liderar. A seu favor, uma filosofia de jogo entranhada no clube e uma base de craques com muita lenha ainda para queimar. Contra ele, todo o peso da história recente do Barcelona.