Espanha

Tempo ao tempo

Está na cartilha de ensinamentos básicos de gerenciamento esportivo: contrate um técnico em quem você confie e dê tempo a ele, sem se deixar levar pelo impulso após um mau resultado. Tudo bem, todo clube deveria fazer isso dentro de certos parâmetros. Mas, para o Athletic Bilbao, isso é particularmente importante. É o único jeito de o clube ser forte, mesmo com sua ideologia.

A limitação do time bilbaíno é conhecida e não vale grandes explicações. Seria falar mais do mesmo. Para os desavisados, um resumo: o clube só contrata jogadores nascidos no País Basco (em uma visão que ainda considera Navarra e parte de La Rioja) ou, nos últimos tempos, de ascendência basca. Quem tiver pretensões de ser bem sucedido em San Mamés tem obrigação de saber como trabalhar nessas condições. O que exige experiência e conhecimento de tudo o que gira em torno do clube.

É o que ocorre com Joaquín Caparrós neste momento. O andaluz foi contratado em 2007 por montar bons times com orçamento limitado. Foi ele quem iniciou o projeto vitorioso do Sevilla, reestruturando as categorias de base para levar o time da segunda divisão em 2000 à Copa Uefa em 2005. Exatamente o que o Athletic mais precisava.

Saudar o trabalho da “cantera” do clube basco pode parecer bobagem quando o time mais espetacular do mundo tem sua base formada em casa. Mas o Barcelona não se autoimpõe uma limitação étnico-geográfica. Os blaugranas incorporaram vários jogadores não-catalães para suas categorias de base – Iniesta, Messi, Pedro, Thiago Alcântara e Jeffrén – e contrataram outros de fora, como Daniel Alves e David Villa. Se o Barça jogasse somente com nativos, poderia ser mais ou menos assim: Valdés; Bruno, Puyol, Piqué e Capdevila; Sergio Busquets, Xavi e Fàbregas; Bojan, Serrano e Corominas (Jonathan Soriano). Nada impressionante, convenhamos.

O time do Athletic – Iraizoz; Iraola, San José, Amorebieta e Koikili; Javi Martínez, Susaeta, Gurpegi e Muniain; Toquero e Llorente – é uma versão basca desse Barça. Por mais que se explore, a limitação geográfica é evidente. E, para conhecer cada partícula de talento made in Basque Country, o técnico precisa de continuidade para explorar todas as possibilidades e desenvolver os jovens temporada após temporada. É o que Caparrós tem podido fazer.

Se continuar no cargo até junho (e tudo indica que continuará), o treinador completará quatro temporadas em San Mamés. Um fato raro. Em um clube com tanta tradição e um nível de exigência alto, a rotatividade é grande. Iñaki Sáez, Jupp Heynckes, Txetxu Rojo, José Ángel Iribar, Ernesto Valverde, Félix Sarriugarte… Os nomes se sucedem, sem que nenhum se estabeleça. Nos últimos 30 anos, apenas dois técnicos conseguiram repetir o feito de Caparrós: Javier Clemente entre 1981 e 86 e Luis Fernandez de 1996 a 2000. Não é coincidência que, nessas duas passagens, o Athletic fez duas melhores campanhas nas últimas décadas: campeão em 1983 e 84 e vice em 98.

Neste momento, os Leones seguem caminho parecido. Na primeira temporada com o atual comandante, o time basco foi 11º colocado no Campeonato Espanhol. Na temporada seguinte, caiu para 13º, mas chegou à final da Copa do Rei após 24 anos de ausência. Em 2009/10, foi oitavo. Hoje, ocupa a quinta posição, venceu as últimas quatro partidas, não perde há 11 jogos – a) a série inclui dois empates com o Barcelona, pela Copa do Rei; b) curiosamente, a última derrota foi no dérbi basco com a Real Sociedad – e Muniain, 18 anos, surge como um dos melhores nomes de sua geração.

Pela falta de igualdade na distribuição de recursos e a liberdade de mercado, provavelmente o Athletic nunca voltará a se equiparar a Barcelona e Real Madrid. Mas, com continuidade no trabalho, pode ser um time relevante e um digno representante de sua ideologia. A torcida já estaria satisfeita com isso.

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Equipe Trivela

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