Espanha

Sobre filhos e enteados

Muitos homens, ao se casar com uma mulher que já tem filhos, conseguem ser segundos pais para os enteados. Alguns até podem tratar com igualdade os guris do primeiro casamento da esposa e seus próprios filhos. Mas nem todos conseguem separar as coisas. Alguns não escondem a preferência e, pior, acabam até sendo injustos. Uma metáfora que é válida para analisar a briga por uma posição no ataque do Real Madrid.

Manuel Pellegrini já tem ideia de como encaixar Kaká e Cristiano Ronaldo, mas ainda tateia quando busca seu atacante no 4-2-3-1 que tem usado. Em teoria, Benzema foi contratado para assumir essa posição. Raúl ficaria na espera, porque já não tem físico para suportar a temporada inteira. Mas, se estivesse em boa fase (técnica e física), assume o posto pela identificação que a torcida tem com ele. No entanto, nenhum dos dois tem brilhado. O melhor atacante do Real no momento é Gonzalo Higuaín, um fato que nem todo mundo em Madri está preparado para aceitar.

É gritante a superioridade do argentino sobre os companheiros de posição. Em 14 partidas (11 como titular) no Campeonato Espanhol, o ex-riverplatense marcou 11 gols. Benzema fez 16 partidas (também 11 como titular) e foi às redes em apenas cinco oportunidades. Raúl (16 jogos, seis como titular) fez três tentos. Na Liga dos Campeões, os números também favorecem Higuaín: dois gols em cinco jogos (média 2,5 partidas a cada gol), contra dois gols em seis jogos do espanhol (média de 3) e um em quatro jogos do francês (média de 4).

Não dá para dizer que é uma total surpresa. Higuaín não é um virtuoso com a bola nos pés, mas se mostrou um atacante oportunista. Chegou a Madri com apenas 19 anos e demonstrava inexperiência, mas evoluiu. Sabe se posicionar na área e usa sua força física para vencer os marcadores. Para um time leve e rápido no meio-campo, ter um homem mais fixo na frente tem sido produtivo.

Benzema, que foi contratado nesta temporada para ser o grande atacante do time, decepciona por enquanto. O francês tem alimentado os que sempre o viram como “promessa ainda não confirmada”. Tem talento, mas falta-lhe poder de decisão. Além disso, é prejudicado por sempre ter sido, no Lyon, um jogador mais móvel, que vez ou outra volta ao meio-campo para buscar a bola.

Se isso tudo é claro e pode ser traduzido até estatisticamente, qual a dificuldade em estabelecer Higuaín como titular? Simples, o argentino foi contratado por Ramón Calderón. E assumir que o homem-gol do time veio pelas mãos de outro presidente é algo que incomoda Florentino Pérez. E, se incomoda Florentino, incomoda a boa parte da imprensa madrilena.

Há campanha aberta para Benzema se transformar em titular, sobretudo no Marca (que chegou a publicar um editorial sobre o assunto). Os argumentos estão longe de ser puramente técnicos. Quando Pellegrini afirmou que não usaria quatro atacantes (aí entram na conta os meias ofensivos), o jornal colocou, em sua capa, “assim Benzema – € 35 milhões – será o eterno reserva”. Como se o fato de o jogador ter saído do Lyon por um valor exorbitante significasse que ele é melhor ou pior.

Josep Pedrerol, comentarista do canal de notícias Intereconomía, falou em sorte. “Higuaín teve sorte. Os atacantes produzem em boa fase, e ele está em boa fase. Ainda não tivemos chance de ver Benzema”. Sobre uma jogada, em que o argentino passou para Cristiano Ronaldo ao invés do francês, o jornalista emendou: “é lógico que Higuaín tenha ciúmes de Benzema. Como Figo teve de Zidane”.

Difícil justificar tamanha campanha por Benzema, até porque ele não era nenhuma sumidade quando defendia o Lyon. Mas dá para entender o motivo, que o aposto na manchete do Marca de dois parágrafos acima escancara: o francês é uma aposta de Florentino Pérez, chegou com status de galático e usá-lo é um modo de reforçar a ideologia do atual presidente madridista. É a diferença do filho da diretoria e do enteado.

Pellegrini fica em situação constrangedora, pois é obrigado a definir entre o preferido dos dirigentes e o que realmente tem produzido algo. Se ele estabelecesse que, no momento, Higuaín é o titular, o atacante e ele próprio teriam mais paz para trabalhar. Seria bom até para Raúl e Benzema, que teriam um parâmetro melhor do que é preciso fazer para ser titular.

Por enquanto, o técnico chileno precisa tourear esses interesses. Tem conseguido, até porque os holofotes ficam em Cristiano Ronaldo e Kaká na maior parte do tempo. Mas não custa nada resolver o problema lá na frente. Antes que ele cresça demais.

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Equipe Trivela

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