Espanha

Semifinalista, sim senhor

Não foi com futebol brilhante, não foi com gols espetaculares, não foi com superioridade incontestável. Foi sofrido, na disputa de pênaltis, com 0 a 0 no tempo normal e na prorrogação, com preocupante esterilidade ofensiva. De qualquer forma, foi. A Espanha, depois de 24 anos, está nas semifinais de um torneio de primeira grandeza.

Para os espanhóis, a vitória por 4 a 2 nos pênaltis contra a Itália tem efeito psicológico mais radical do que se pode supor. O trauma das quartas-de-final era penoso para a Fúria. Desde que os ibéricos chegaram à final da Eurocopa 1984, a referida fase parecia uma barreira inexpugnável, independentemente de qual fosse o adversário.

Mesmo quando os espanhóis faziam tudo certo, vinha o azar ou o erro de arbitragem para obstruir o caminho. Essa incapacidade de ficar entre os quatro melhores minava a confiança espanhola. Afinal, até seleções menos tradicionais, como Bélgica (1986), Bulgária (1994), Croácia (1998), Portugal (2000, 2004 e 2006), Turquia (2002), Coréia do Sul (2002) e Grécia (2006) conseguiram tal feito desde 1984.

Isso acabou. E com méritos. Ainda que não tenha feito uma partida empolgante, a Espanha foi melhor que a Itália durante quase toda a partida. Por menos perigoso que a dupla de ataque Villa-Fernando Torres tenha se mostrado, há um valor inegável na equipe por ter tomado a iniciativa, acreditando que poderia construir uma vitória sobre a atual campeã mundial ao invés de se retrair por temor do adversário.

Coletivamente, a Espanha fez uma bela partida. Casillas esteve seguro nos dois momentos em que foi exigido. Na disputa de pênaltis, defendeu duas cobranças e foi decisivo para a classificação. O quarteto defensivo esteve em noite inspiradíssima. Sergio Ramos evitou avançar e fechou a lateral direita, por onde tentava cair Cassano. No meio da zaga, Puyol e Marchena se entregaram em campo, correndo e marcando com determinação e concentração absoluta, tirando qualquer possibilidade de Toni construir algo. Capdevila esteve um pouco abaixo dos companheiros de defesa, certamente estranhando um jogo em que teve de conter seus avanços, sua principal virtude.

No meio-campo, Marcos Senna e David Silva foram os principais destaques. O brasileiro naturalizado espanhol foi uma espécie de limpa-trilho para a defesa, bloqueando qualquer tentativa de articulação do meio-campo italiano (que tinha uma formação particularmente pouco criativa) e ainda criando a melhor chance de gol da Fúria, em chute de fora a área que Buffon não agarrou e a bola bateu na trave.

Silva foi inquieto. Caiu mais pela direita, mas é justo dizer que correu por todo o campo, combateu e tentou buscar o jogo sem parar. De seus pés saíram as idéias mais claras de ataque, com aproximação para tabelas e troca de passes em busca de espaços na compacta defesa italiana.

O meia do Valencia acabou sentindo a falta de companhia mais inspirada. Xavi e Iniesta não estiveram mal, mas não apresentaram o mesmo fôlego de Silva para se movimentar incessantemente até abrir um buraco na zaga azzurra. Na frente, Villa e Torres sumiram diante das atuações de Panucci, Grosso e, principalmente Chiellini. Perfeitos no posicionamento, no tempo da marcação e nas antecipações, esse trio aparecia oportunamente sempre na hora do passe decisivo.

Essa dificuldade em finalizar merece atenção. Se Villa e Torres estiverem novamente pouco inspirados, a Espanha terá problemas sérios contra a Rússia. Até porque a equipe eslava está com um setor ofensivo muito mais contundente que a Itália. Não dá para achar que dominar a posse de bola e ficar 120 minutos em busca de espaço na defesa adversária é uma possibilidade. A Espanha precisará construir seu jogo com mais competência.

De qualquer modo, já há um ponto de partida para a Fúria. Com a confiança adquirida após a classificação sobre a Itália, o time pode se soltar e jogar em um nível mais próximo de seu potencial. Claro, a confiança pode virar soberba e se tornar negativa. Ainda assim, os sinais de momento são positivos para a Espanha. Que ela saiba aproveitar essa rara oportunidade.

Sonho e realidade

No dia em que a Espanha venceu a Rússia por 4 a 1, com três gols de Villa, o jornal catalão “Sport” colocou a manchete “Barça quiere a Villa”. No dia seguinte à maiúscula vitória da Rússia por 3 a 1 sobre a Holanda, com grande atuação de Arshavin, o mesmo “Sport” disse que o atacante russo estava na mira do Barcelona. Durante todo esse período, o “Marca” não tirou de seu noticiário novidades sobre a suposta negociação do Real Madrid com Cristiano Ronaldo. Faz sentido toda essa celeuma?

A questão não é o talento de Villa, Arshavin ou Cristiano Ronaldo. É o modo como a imprensa – e a torcida – de Barcelona e Real Madrid encaram esses eventuais reforços. O tratamento é semelhante ao de propaganda de programa de televendas: “seus problemas acabaram!”. Como se Arshavin fosse recolocar o Barça no topo da Europa ou Cristiano Ronaldo fosse resolver toda a crise de identidade do Real Madrid.

Se quiserem voltar a dominar a Europa, os dois gigantes espanhóis precisam se planejar antes de contratar. Até acredito que Cristiano Ronaldo seja um reforço enorme para qualquer time do mundo. No entanto, percebe-se pelo modo como o Real se articula que trazer o português virou obsessão. Ninguém fala de um equilíbrio no elenco ou busca de reforços em outras posições. A questão é apenas ter em Chamartín o melhor jogador do mundo, o que for mais galáctico, o que inflar o ego do madridismo.

O mesmo vale para o Barcelona. Ainda que Arshavin tenha um grande talento, não há histórico suficiente sobre o russo para acreditar que sua chegada terá um impacto tão grande. Muito mais prudente seria contratá-lo como mais um bom reforço da temporada, dando espaço para que ele estoure definitivamente, mas sem criar essa pressão. Para terem um timaço novamente, os blaugranas precisarão de muito mais que o habilidoso atacante do Zenit.

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Equipe Trivela

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