Espanha

De garoto-problema a veterano abnegado, Roberto Soldado deu alegria a várias torcidas

Soldado admitiu que não estava preparado quando surgiu no Real Madrid e não entregou o que se esperava no Tottenham, mas ainda teve uma carreira longa e bem sucedida

Roberto Soldado deu entrevista ao Guardian no fim de 2019. O interesse de um jornal inglês por um atacante do Granada tinha a ver com o que ele havia sido ao Tottenham: uma grande decepção. Não foi o único arrependimento da sua carreira, embora o contexto não tenha ajudado. Também disse que demorou um pouco para entender a postura que deveria ter como profissional quando começou a aparecer em um Real Madrid super-estrelado. O que torna notável a carreira tão longa que teve, durante a qual, mesmo sem atingir o que parecia que seria em certo momento, ainda conseguiu dar alegrias a várias torcidas – principalmente da Espanha.

O último clube de Soldado foi o Levante, na segunda divisão espanhola. O sétimo que ele defendeu em seu país, além de Real Madrid, Osasuna, Getafe, Valencia, Villarreal e Granada. No exterior, também passou alguns anos na Turquia com a camisa do Fenerbahçe. Ele contabiliza 21 anos como profissional, desde os tempos de Castilla, o time B dos merengues, embora tenha estreado no time principal em uma partida de Copa do Rei contra o Tenerife em 2004. Seu primeiro jogo por La Liga foi no ano seguinte. Entrou no segundo tempo no lugar de Zinedine Zidane.

– Tenho que dizer uma coisa: hoje coloco ponto final em 21 anos de carreira e, com isso, encerro um sonho que nunca pensei que seria realidade e muito menos que duraria tanto. Obrigado aos companheiros, amigos, família, treinadores e torcedores que me acompanharam nesta viagem – disse o agora ex-atacante de 38 anos em uma mensagem pelo Instagram.

O começo no Real Madrid

Soldado foi integrado ao Real Madrid em 2005/06. Ainda como uma promessa que tentaria morder alguns minutos aqui ou ali de um ataque que tinha Raúl, Ronaldo e Robinho. Saiu para ganhar experiência no Osasuna no momento certo porque conseguiu ganhar experiência em competições europeias. Se foi irregular em La Liga, marcou o gol da vitória por 1 a 0 sobre o Sevilla na semifinal da então Copa da Uefa. O Osasuna perdeu a volta por 2 a 0 e foi eliminado, mas ainda é uma campanha marcante em sua história. E Soldado retornaria mais maduro para o Real Madrid.

Pelo menos essa era a ideia. A prática foi diferente. O ataque merengue não tinha mais Ronaldo, mas agora contava com Ruud Van Nistelrooy, Javier Saviola e um jovem Gonzalo Higuaín. Soldado nem fez muito esforço para jogar mais do que os 205 minutos que teve naquela temporada em que conquistou, entre aspas, o Campeonato Espanhol. O único título da sua carreira.

Na entrevista ao Guardian, disse que poderia ter se inspirado em “super-profissionais” como Figo, Zidane e Raúl, mas “seguia o que não deveria ter seguido” e se sentia maior que o Beckham. E nunca recusava um convite para tomar uma taça de vinho.

– Eu não estava preparado mentalmente. Minha cabeça não estava pronta. É difícil. Alguém deveria ter me dado um tapa. Eu não estava cuidando de mim mesmo, eu comia muito. Eu olho as fotos e penso: como eu jogaria pelos galácticos naquela forma? Se eu tivesse me cuidado melhor, talvez tivesse mais chances. O Real Madrid entrou em contato com meus pais. Meu pai tirou uma licença de dois anos, veio para Madri, impôs limites. Então eu me mudei com um amigo, fiquei mais consciente. E foi quando conheci minha esposa, que tranquilizou tudo. Eu sabia que tinha ido longe demais, exagerei. Eu conheci muitas pessoas saindo em Madri. Eles podiam levar aquela vida porque não eram jogadores profissionais, não tinham que jogar pelo Real. No fim das contas, você entende isso – disse.

A decepção no Tottenham

Soldado saiu do Real Madrid. Quase despachado: custou um valor baixo ao Getafe. Com a cabeça no lugar, porém, foi um dos melhores atacantes de La Liga pelos cinco anos seguintes. Chamou a atenção em 2009/10, com 16 gols em 26 rodadas, quatro deles nas últimas três partidas. Contribuiu para levar o Getafe à sexta posição, com vaga na Liga Europa, e foi contratado pelo Valencia.

E explodiu de vez. Não conseguiu ser artilheiro do Campeonato Espanhol porque competia com Cristiano Ronaldo e Lionel Messi, mas entregou temporadas de 17, 18 e 24 gols. Foi um período de estabilidade do Valencia (talvez o último), com presença constante na Champions League. Retornou à seleção, na qual havia estreado como promessa em 2007, e foi convocado para a Copa das Confederações. Ainda tem ótima média pela Espanha: sete gols em 12 jogos.

Não foi necessariamente um erro de avaliação quando o Tottenham transformou-o na contratação mais cara da sua história em 2013, usando € 30 milhões da venda de Gareth Bale para o Real Madrid. Soldado fez parte de um pacote infame dos Spurs, cujo destaque positivo foi Christian Eriksen, e o negativo, o brasileiro Paulinho. Ele teve dificuldades para se adaptar ao jogo mais físico da Inglaterra e, principalmente, sofreu com a ascensão de Harry Kane.

Também foi um período de transição dos Spurs, entre a demissão de André Vilas-Boas e o começo do ótimo trabalho de Mauricio Pochettino.

– Eu não me arrependo de ter ido ao Tottenham e tinha certeza que jogaria bem. Eu pensei que, com meu estilo, meu momento, eu me adaptaria bem, mas quando fui… bom, foi completamente o oposto. Se há uma coisa com a qual não ficarei totalmente em paz no dia em que aposentar, é com como joguei na Inglaterra – afirmou.

A fase veterana

Os problemas no Tottenham foram um baque na carreira de Soldado. Ele ainda disputou oito temporadas, duas em cada clube, e teve seus momentos. Mas, embora ainda começasse seus 30 anos, nunca voltou a ter a mesma produção. Começou a mostrar uma faceta mais abnegada que artilheira no Villarreal em 2015/16, um dos líderes em assistências de La Liga, com 10, e ajudou o Submarino Amarelo a chegar à semifinal da Liga Europa. Em agosto de 2016, sofreu uma lesão no ligamento cruzado do joelho que praticamente matou a sua temporada.

Teve dois anos razoáveis pelo Fenerbahçe antes de abraçar de vez a fase veterana da sua carreira pelo Granada. E se os números não foram explosivos, chamava a atenção a maneira como se esforçava pelo time, encaixando um ou outro gol importante. Como os dois contra o Valencia que valeram a primeira classificação às semifinais da Copa do Rei depois de 51 anos. O Granada foi sétimo colocado em La Liga e conseguiu uma inédita classificação à Liga Europa. E não fez feio, chegando às quartas de final, com direito a eliminar o Napoli. Soldado marcou 14 gols por todas as competições naquela temporada.

A idade, porém, começava a pesar. Foi para o Levante e conseguiu ficar pouco em campo, sem forças para evitar o rebaixamento. Ainda permaneceu e tentou dar sua contribuição para o acesso. Até marcou nas semifinais dos playoffs contra o Albacete, mas a terceira vaga em La Liga ficou com o Alavés, e Soldado preferiu pendurar as chuteiras.

Os números de Soldado por cada clube

  • Real Madrid (time principal): 27 jogos, quatro gols
  • Osasuna: 43 jogos, 13 gols
  • Getafe: 66 jogos, 33 gols
  • Valencia: 141 jogos, 82 gols
  • Tottenham: 76 jogos, 16 gols
  • Villarreal: 55 jogos, 12 gols
  • Fenerbahçe: 59 jogos, 19 gols
  • Granada: 80 jogos, 25 gols
  • Levante: 51 jogos, 11 gols
  • Espanha: 12 jogos, 7 gols

 

Foto de Bruno Bonsanti

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.
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