Qualquer jogo do Barcelona é observado com o nível de perfeccionismo de um perito em busca de algum vestígio de DNA que ajude a resolver um crime. Cada traço de mudança no estilo do jogo do time de Tata Martino é rapidamente identificado, e acaba ofuscando um processo semelhante que ocorre no Real Madrid. Desde que Carlo Ancelotti assumiu o clube, há um trabalho para fazer a equipe ser menos vertical que nos tempos de José Mourinho. E a dificuldade de isso acontecer explica como os merengues sofrem nesse início de temporada, como na vitória por 3 a 2 sobre o Levante neste sábado.
O jogo foi mais duro do que sugere o placar. Os levantistas tiveram o domínio das ações em quase todo o primeiro tempo. No segundo, também pareciam mais confortáveis com a dinâmica da partida. Saíram na frente, tomaram o empate rapidamente, fizeram 2 a 1 a menos de 10 minutos do final, mas tomaram a virada nos acréscimos com um gol de inspiração de Cristiano Ronaldo.
Ancelotti chegou a Madrid com o objetivo de dar uma cara mais “espanhola” ao time. Com José Mourinho, a equipe se notabilizou com um futebol muito agudo, com saída de bola rápida, Xabi Alonso, Khedira ou Özil distribuindo a bola para Di María e Cristiano Ronaldo pelos lados e Benzema na frente como referência. Era apenas uma equipe muito agressiva. Funcionou por algumas temporadas, mas a diretoria queria um pouco mais de toque de bola, de paciência (curiosamente, o Barcelona se notabilizava por isso e agora busca um pouco mais de verticalidade).
O problema é que a equipe nem sempre consegue manter a compactação necessária para tocar a bola. Muitas vezes, a distância entre a linha defensiva e os atacantes é grande na saída de bola, o que exige passes mais longos (uma marca da Era Mourinho). Isco foi contratado para ser o termômetro desse novo estilo, mas ainda oscila muito nessa fase de adaptação. Özil poderia fazer esse papel, mas saiu. Bale chegou, e tem característica oposta a esse jogo mais paciente.
Contra o Levante, a dificuldade de sair jogando era nítida. O Real teve controle da bola por mais tempo, mas custava a realmente ameaçar o gol adversário. O Levante se aproveitava e saía rápido em contra-ataques, construindo assim seus dois gols.
No final, o Real conseguiu vencer sempre que se viu contra a parede e partiu para uma pressão mais intensa, empurrando o adversário para seu campo e botando a bola na área de Navas. Deu certo porque o time merengue é melhor, tem mais talentos, e esses talentos tiveram a inspiração para achar os gols. Há uma semana, contra o Atlético de Madrid, o problema foi parecido, mas o adversário era mais forte e conseguiu segurar a vantagem.
Enquanto seguir nessa transição, o Real Madrid vai sofrer mais que o normal em algumas partidas. Não significa que esteja necessariamente no caminho errado, apenas que o caminho pode ser espinhoso.



