Entre aura, glamour e resultados: Por que o Real Madrid procura um técnico que talvez não exista mais
Com medalhões fora do mercado e apostas ainda em construção, clube merengue se vê preso entre o imaginário histórico e a realidade do futebol moderno
A saída de Xabi Alonso expõe um dilema que o Real Madrid conhece bem, mas raramente admite: em um futebol cada vez mais técnico e menos simbólico, ainda existem treinadores com o “glamour” que o clube merengue historicamente exige? A pergunta ganha peso justamente porque, no cenário atual, as respostas são escassas — e nenhuma delas é simples.
O Madrid sempre buscou algo além da prancheta. Desde Miguel Muñoz até Ancelotti, passando por Zidane, o clube costuma se sentir confortável com técnicos que compreendem o ecossistema político e emocional do Bernabéu. Não é coincidência que seus maiores ciclos recentes tenham sido liderados por figuras com passado no clube ou prestígio internacional consolidado.
Esse perfil, no entanto, tornou-se cada vez mais raro no futebol contemporâneo. A profissionalização extrema do jogo, a fragmentação dos projetos e a lógica de curto prazo reduziram o espaço para treinadores que concentrem poder técnico, político e simbólico ao mesmo tempo.
No Real Madrid, essa equação é ainda mais complexa: não basta apresentar ideias modernas ou um currículo promissor — é preciso impor respeito imediato, administrar estrelas globais e sobreviver a derrotas que, em outros clubes, seriam apenas tropeços.
Comunicado Oficial: Xabi Alonso.
— Real Madrid C.F. (@realmadrid) January 12, 2026
Mercado restrito: porque os “medalhões” não são opção para o Real Madrid

Carlo Ancelotti, o nome que naturalmente surgiria como porto seguro, está fora do tabuleiro. Recém-empossado como técnico da seleção brasileira, o italiano não apenas iniciou um novo ciclo como assumiu um projeto de médio prazo, incompatível com qualquer movimentação imediata. Sua saída do radar madrilenho é definitiva, ao menos no curto prazo.
Pep Guardiola, por sua vez, segue como o maior técnico da era contemporânea, mas também como uma hipótese meramente teórica. Com contrato vigente no Manchester City e total respaldo institucional, sua eventual chegada ao Real Madrid esbarra tanto em questões contratuais quanto identitárias. O peso de sua trajetória ligada ao Barcelona torna o cenário ainda mais improvável.
Jürgen Klopp tampouco representa uma opção concreta. Após encerrar sua passagem pelo Liverpool, o alemão deixou claro que, por ora, não pretende retomar a rotina de treinador. Atualmente, ocupa o cargo de Chefe de Futebol Global do Grupo Red Bull, função estratégica e distante da pressão diária de um vestiário como o do Bernabéu.
Zidane e Arne Slot

Entre os nomes disponíveis, Zinédine Zidane surge como referência imediata. Não somente pelo currículo, mas pela relação quase orgânica com o clube. Zidane nunca precisou “explicar” o Real Madrid: ele sempre o personificou. Seu ponto frágil é justamente o contexto atual, com um elenco em transição e menos pronto do que aquele que herdou em sua primeira passagem. Ainda assim, em termos de aura, poucos chegam perto.
Outro nome que aparece no radar é o de Arne Slot. O holandês causou impacto imediato em sua primeira temporada no Liverpool, coroada com o título da Premier League, ao implementar rapidamente suas ideias e dar nova dinâmica à equipe. O problema é a sequência. Na temporada atual, o desempenho caiu de forma sensível, com derrotas frequentes, atuações amplamente contestadas e um nível de pressão crescente sobre seu trabalho.
Slot simboliza um treinador moderno, já testado em alto nível, mas que ainda enfrenta o peso da expectativa constante.
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Arteta, Maresca, De Zerbi e a nova geração

Representantes de uma nova geração de treinadores, Mikel Arteta, Roberto De Zerbi e Enzo Maresca simbolizam a evolução tática do futebol europeu, mas ainda enfrentam uma barreira difícil de transpor quando o assunto é Real Madrid. São técnicos formados em ambientes de construção, com tempo para errar, ajustar e amadurecer ideias — um luxo que raramente existe no Bernabéu.
Mikel Arteta é talvez o nome mais consolidado desse grupo. Seu trabalho no Arsenal é amplamente elogiado pela organização, pela identidade clara e pela competitividade constante na Premier League, onde bateu na trave em mais de uma temporada. Ainda assim, a ausência de um grande título pesa quando o recorte é o Real Madrid, um clube onde a cobrança por conquistas imediatas costuma ser implacável, sobretudo para quem ainda constrói seu lugar na elite europeia.
Roberto De Zerbi e Enzo Maresca seguem trilhas semelhantes, mas com ainda menos lastro institucional. De Zerbi se notabilizou pelo apuro tático e pelo futebol propositivo, passando por clubes italianos, pelo Shakhtar Donetsk e pelo Brighton antes de assumir o Olympique de Marselha, mas jamais enfrentou um ambiente de exigência comparável ao do Madrid.
Já Maresca carrega a formação ao lado de Guardiola, levou o Leicester de volta à Premier League e viveu um trabalho irregular no Chelsea — onde, apesar dos títulos da Copa do Mundo de Clubes e da Conference League, acabou demitido no início de 2026 após oscilações e divergências internas.
Ou seja: talentos evidentes, mas ainda sem o estofo político e simbólico que o cargo merengue exige.
Por ora, Real Madrid aposta em solução caseira: Álvaro Arbeloa

A opção do Real Madrid, ao menos neste momento, foi olhar para dentro. A escolha por Álvaro Arbeloa segue uma lógica histórica do clube: recorrer a alguém que conheça profundamente sua cultura, seus códigos internos e a exigência cotidiana do cargo.
Ex-jogador de um dos períodos mais vitoriosos da era recente e treinador formado integralmente nas categorias de base merengue, Arbeloa chega com legitimidade simbólica e respaldo interno — elementos que pesam tanto quanto ideias táticas no Bernabéu.
A princípio, a aposta não é provisória. Arbeloa será mantido no comando enquanto os resultados sustentarem o projeto, mesmo que sem brilho imediato. O risco, naturalmente, existe. Apesar do currículo vitorioso na base, ele ainda não foi testado no futebol de elite nem na gestão diária de estrelas globais.
Sua permanência dependerá menos de processos e mais daquilo que o Real Madrid historicamente cobra de seus treinadores: competitividade constante e capacidade de sobreviver aos momentos de turbulência.



