Espanha

Real Madrid, o médico e o monstro

“The Strange Case of Dr. Jeckyll & Mr. Hyde” é um dos mais famosos romances do escocês Robert Louis Stevenson. Nele, um distinto médico se transforma em um ser agressivo e perigoso ao tomar uma poção. Virou um símbolo de como uma mesma entidade pode ter duas personalidades completamente diferentes. Mais ou menos como o o Real Madrid 2007/8. Os merengues variaram momentos de grande euforia com tropeços injustificáveis. Ainda assim, na média, os momentos de Jeckyll foram mais decisivos que os de Hyde. O título acabou premiando isso.

O título foi conquistado de modo dramático. Contra um desesperado Osasuna em Pamplona, o Real viu um jogador – Cannavaro – ser expulso e ainda saiu atrás no marcador com um gol aos 37 minutos do segundo tempo. Em dez minutos, a tragédia se transformara em glória com gols de Robben e Higuaín. E essa capacidade de reagir diz muito a respeito do Real Madrid de Bernd Schuster.

Durante a campanha, o time branco colecionou alguns resultados bastante fracos. Basta relembrar as derrotas para Getafe (0x1 em casa), Valencia (2×3 em casa), Almería (0x2 fora) e Deportivo de La Coruña (0x1 fora), os empates com Murcia (1×1 fora) e Mallorca (1×1 fora, mas com grande ajuda do árbitro) e as vitórias contra Murcia (só 1×0 em casa) e Recreativo de Huelva (3×2 fora, com grande ajuda do árbitro). Sinal de título injusto? Não, apenas alguns momentos de Mr. Hyde.

Quando a vitória foi realmente necessária, o Real se sobressaiu diante dos adversários. Contra o rivalíssimo Barcelona foi uma vitória fora de casa (1×0). Diante do vice-líder Villarreal foram duas vitórias (5×1 fora e 3×2 em Madri). Nos clássicos madrilenos com o Atlético, mais duas vitórias (2×1 e 2×0). O quinto colocado Racing de Santander também caiu duas vezes (3×1 e 2×0). O Valencia, quando era ameaça no começo do campeonato, foi goleado em casa (5×1). Ou seja, nos momentos mais agudos, o Real Madrid foi Dr. Jekyll, fazendo valer um mínimo de consistência em relação aos principais concorrentes.

Boa parte dos maus momentos foram sintomas da dificuldade de Schuster encontrar uma formação ideal para os merengues. Na defesa, Sergio Ramos, Pepe, Cannavaro e Heinze terminaram a temporada com o status de “quarteto ideal”, mas demorou até chegarem a essa condição. Pepe ficou no departamento médico por muito tempo, Heinze teve de concorrer com Metzelder no começo da temporada e o técnico alemão tentou Marcelo e Drenthe na lateral. No meio-campo, Guti, Diarra, Gago e Júlio Baptista se revezaram como volantes. Robinho e Sneijder foram os principais armadores, mas, em alguns momentos, perderam espaço para Robben e Higuaín. No ataque, Raúl e Van Nistelrooy eram titulares absolutos, mas o holandês se machucou tanto que o espanhol chegou a jogar como único dianteiro do time.

Essa inexistência de uma base sólida tirou a estabilidade da equipe em longo prazo e foi crucial em uma competição de altíssimo grau de exigência como a Liga dos Campeões. No entanto, também teve seu lado positivo. Para um Campeonato Espanhol fraco, Schuster tinha em mãos um elenco com várias opções, em que a saída de um ou outro jogador nem sempre era sentida. Um exemplo disso é que os gols que deram o título ao Real foram de Robben, visto como decepção pelo preço pago ao Chelsea, e de Higuaín, tido como peso morto no elenco durante a primeira metade da temporada.

Nos momentos em que nem os titulares nem as opções funcionavam, o Real Madrid pôde contar com duas referências: Casillas e Raúl. Amada pela torcida blanca, a dupla tem crédito para absorver críticas e ainda se levantar para decidir quando necessário. E foi o que ocorreu. O goleiro colecionou defesas milagrosas e mostrou porque merece estar na lista de melhores do mundo em sua posição. O atacante teve sua melhor temporada nos últimos anos e marcou gols decisivos.

Somando erros e acertos, virtudes e defeitos, o Real Madrid sobrou do resto. Teve mais elenco que o esforçado Villarreal, mais confiança que o traumatizado Atlético de Madrid e, principalmente, mais vontade e união interna que o esquizofrênico Barcelona. A antecedência da conquista evidencia isso.

Guardiola, uma aposta

Sobre a saída do técnico Rijkaard já se fala há meses em Barcelona. Que seu substituto poderia ser Josep “Pep” Guardiola, ex-volante blaugrana e treinador do Barça B, cogita-se desde a semana passada. Pois cada vez mais parece que esse será realmente o destino do comando do time catalão.

As especulações ganharam vulto na última quinta, quando um assessor pessoal de Rijkaard escreveu em seu site pessoal que perderá o emprego porque o técnico deixará Barcelona. Ninguém conseguiu negar a verdade que está por trás desse deslize. Em seguida, dirigentes barcelonistas vazaram para a imprensa que o nome de Guardiola está cada vez mais forte.

A escolha do ex-volante deixaria o Barcelona como incógnita para a próxima temporada. Pelo que se viu em seu trabalho no Barcelona B, Guardiola é um técnico metódico, que estuda muito o adversário, não poupa o time de treinos táticos, gosta de jogadas ensaiadas, exige que os atacantes também ajudem na marcação e cobra muito – inclusive a si mesmo – se os resultados são ruins. Além disso, é um símbolo do barcelonismo e tem crédito com torcida, diretoria e imprensa para se impor diante de jogadores rebeldes.

Em teoria, parece bom para uma equipe que pecou pela desunião e dispersão psicológica no último ano. No entanto, a experiência de Pep como técnico é próxima a zero. O Barcelona B (líder do Grupo V da quarta divisão) não serve de parâmetro, pois o objetivo do time é dar atividade a atletas sem espaço no time principal e permitir a observação de novatos. A cobrança por resultados é infinitamente menor e a forma de conduzir o grupo é muito diferente.

Pode ser uma cartada genial de Laporta, mas o risco é alto. Ainda mais com eleições presidenciais se aproximando. Pelo visto, a próxima temporada será de fortes emoções aos torcedores culés.
 

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Equipe Trivela

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