Espanha

Quais os desafios de Bartomeu como novo presidente do Barcelona

Josep Maria Bartomeu sobreviveu à eleição do Barcelona, mesmo com todos os problemas que enfrentou no comando do clube desde que Sandro Rosell, de quem era vice, teve que abdicar do cargo pelas denúncias de irregularidades na transferência de Neymar, ainda em investigação pela justiça espanhola. Sua vitória aconteceu, como previsto, e dá tranquilidade e respaldo, mas o presidente terá desafios para lidar, inclusive aqueles levantados pela oposição durante a campanha.

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Dos 109 mil sócios com direito a voto, 47.270 (43,12%) votaram, dando 25.823 votos a Bartomeu (54,63% dos votos), 15.615 a Laporta (33,03%), 3.386 a Agustí Benedito (7,16%) e outros 1.750 votaram em Toni Freixa (3,7%). Uma votação bastante expressiva, considerando que Bartomeu foi muito atacado pelos opositores durante a campanha.

Um dos pontos que Bartomeu se destaca é a sua capacidade de ser menos pavão. Sandro Rosell era um presidente midiático, algo que Joan Laporta também tem como característica. Seu adversário foi quem fez mais barulho na campanha, mas Bartomeu foi quem mais trabalhou para manter a tranquilidade. Apostou no seu estilo mais administrador do que político e contou, evidentemente, com a tríplice coroa que o time teve em campo para ajudar na campanha por ele. O bom relacionamento com Luis Enrique, as contratações que deram certo em campo e o projeto Espai Barça, que pretende fazer o melhor estádio do mundo, além de reformar as imediações do Camp Nou. Também prevê um novo e moderno ginásio para as demais modalidades de quadra, além de reforma no Mini Estadi, o estádio do Barcelona B.

A vitória da Bartomeu implica em uma grande derrota para Laporta. O seu estilo foi recusado, ainda que ele tenha sido o segundo colocado. A diferença de votos foi muito expressiva e isso deixa Laporta em uma situação complicada na política barcelonista. Laporta sequer ficou até o final da eleição. Deixou a votação antes e só parabenizou Bartomeu pela vitória pelos meios de comunicação. Uma atitude que não é bem vista e que mostra pouco respeito ao adversário.

Para Santi Nola, do Mundo Deportivo, jornal catalão, o que ganha a eleição no Barcelona é o sonho, e Bartomeu conseguiu isso. Como Laporta tinha conseguido em 2003, mas não desta vez. Para Nola, a campanha de Bartomeu foi para os sócios, enquanto a de Laporta foi para a mídia. Legitimado pela eleição, Bartomeu terá seis anos pela frente com o raspaldo que lhe faltava quando assumiu após Sandro Rosell deixar o cargo, mas terá desafios muito importantes pela frente.

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Os desafios de Bartomeu na presidência

Com a vitória, Bartomeu precisará lidar com algumas questões que são importantes tanto política, quanto economicamente. Duas delas envolvem patrocinador, o que tem a ver com dinheiro, mas também tem a ver com valores e com a sensação de grandeza do clube. Algo parecido com a infraestrutura, que tem a ver com a parte financeira e com um recado de grandeza do Barça.

A mudança (ou não) de patrocinador

Josep Maria Bartomeu (centro): mais seis anos de Barcelona (AP Photo/Manu Fernandez)
Josep Maria Bartomeu (centro): mais seis anos de Barcelona (AP Photo/Manu Fernandez)

A relação com a Qatar Airways é controversa. O Barcelona de Sandro Rosell e depois Bartomeu articulou para colocar a Qatar Foundation na camisa, para acostumar o torcedor com a marca na camisa, em uma ação social. Depois, colocou a Qatar Airways. Nós já falamos aqui que o Barça precisa rever a sua relação com os catarianos, por tudo que o Catar tem se envolvido, de compra de votos a trabalho escravo no país.

Há muitos pontos nebulosos nas relações entre o Catar e o esporte. E o Barcelona, que adora falar sobre seus valores arraigados, a política catalã e a busca de liberdade em relação ao governo central espanhol. Um caldeirão que se tornou um dos alvos preferidos dos opositores, que prometeram acabar com a ligação com o Catar logo que vencessem. Quem levou foi Bartomeu, mas ainda é possível que o patrocínio acabe.

Bartomeu é defensor da renovação com a Qatar Airways o contrato até 2020, mas também se comprometeu a levar a decisão ao conselho do clube. A decisão é polêmica e deve ter discussões acaloradas. Além da Qatar Airways, quem se especula que pode estampar a camisa do Barcelona é a empresa japonesa Rakuten, uma empresa de comércio eletrônico que tem o maior comércio online do mundo em termos de vendas.

A ideia de Bartomeu é fazer com que o Barcelona tenha o maior patrocínio de camisa do mundo, que atualmente é do Manchester United. Em entrevista à RAC 1, Bartomeu disse que a Rakuten “se aproxima do que queremos, superar as condições que o Manchester United tem com a Chevrolet, que paga € 64 milhões”. A fala deixa claro que além do dinheiro que entraria, que é fundamental para que o Barcelona se mantenha muito forte em campo, tem uma questão de ambição, vaidade e de política de se dizer o maior patrocínio do mundo.

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Espai Barça

O projeto é ambicioso e quer fazer o Camp Nou ser o maior estádio do mundo. O respaldo dos sócios já tinha sido dado em um referendo que aprovou o projeto com larga vantagem, 72,3% dos votos. De 2017 a 2021, a construção deverá ampliar o estádio, modernizar o entorno, melhorar o Mini Estadi, do Barcelona B, e reformar e ampliar o ginásio do clube.

Nós já falamos do projeto do Barcelona em 2014, quando o projeto Espai Barça foi apresentado, e em 2015, quando foi anunciado que o Camp Nou passaria a ter 105 mil lugares – o que implica, evidentemente, em uma renda maior, além de toda a história de grandeza que o clube quer ter.

O contrato com a Nike

Os contratos com as marcas esportivas se tornaram uma grande fonte de lucro para os grandes clubes, não só europeus, mas do mundo. Em um clube como o Barcelona, com exposição mundial, a discussão deste valor é um ponto importante. “Nossa camiseta deve ser a primeira do mundo”, segundo disse Bartomeu à RAC 1.

Atualmente, a Nike, que patrocina o Barcelona desde 1998, paga € 33 milhões por temporada, com bônus que elevam o valor para € 57 milhões. O valor básico fica ao menos em € 40 milhões, segundo informações do Total Sportek, que elaborou a lista com os maiores acordos de fornecimento de material esportivo do mundo:

  1. Manchester United (Adidas): € 108 milhões
  2. Bayern de Munique (Adidas): € 61 milhões
  3. Real Madrid (Adidas): € 49 milhões
  4. Chelsea (Adidas): € 43 milhões
  5. Arsenal (Puma): € 43 milhões
  6. Barcelona (Nike): € 40 milhões
  7. Liverpool (New Balance): € 36 milhões
  8. Juventus (Adidas): € 28 milhões
  9. Manchester City (Nike): € 21 milhões
  10. Milan (Adidas): € 20 milhões
  11. Paris Saint-Germain (Nike): € 20 milhões

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As famosas categorias de base

Uma das críticas mais fortes que Bartomeu teve que enfrentar durante as eleições foi sobre as categorias de base. La Masia é um xodó dos torcedores do Barcelona e formar jogadores é importante para a autoimagem dos torcedores, para se identificar como barcelonistas. Jogadores como Andrés Iniesta e Xai Hernández, além de Lionel Messi, o melhor de todos eles, simbolizam o que o torcedor do Barcelona mais gosta: formar craques em suas canteras.

Nas últimas temporadas, os jogadores da base não floresceram. Há muitos jogadores no elenco formados em casa, mas os protagonistas estão diminuindo. No gol, não há mais um caterano, os dois principais jogadores são contratados, Claudio Bravo e Ter Stegen. Montoya, que era visto como um substituto de Daniel Alves, até melhor que o brasileiro para alguns, não se firmou. Na última temporada, Daniel Alves atropelou e mostrou que está muito à frente do concorrente, que acabou emprestado à Internazionale, com boas chances de ser vendido.

Deulofeu, um dos mais promissores jogadores da base blaugrana, foi vendido ao Everton depois de temporadas consecutivas sem conseguir impressionar. Jogou bem pelo clube inglês há duas temporadas, 2013/14, mas não foi bem no Sevilla, em 2014/15. Voltou ao clube inglês vendido em definitivo. Tello, que surgiu bem na época de Pep Guardiola, acabou vendido ao Porto, depois de também não conseguir impressionar. Isaac Cuenca foi outro que acabou no Deportivo La Coruña pelo mesmo motivo. Falamos sobre esses jogadores da base que decepcionam.

O atual elenco do Barça tem jogadores da base. Sergi Roberto é meio-campista, mas tem pouco espaço no elenco. Era visto como um potencial substituto para Xavi, mas nunca se firmou definitivamente. Rafinha, por sua vez, tem ido bem. O brasileiro, formado no clube, foi emprestado ao Celta, onde trabalhou com Luis Enrique, e ddesde que voltou ao clube tem ganhado chances. Pode se desenvolver e ganhar ainda mais espaço. Mas outros, como Marc Bartra, não conseguiram ir além de serem reservas eventualmente usados.

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Pedro Rodríguez, um dos jogadores da base que deu certo, nos últimos anos, ao menos, pode estar de saída. Com três atacantes do nível de Neymar, Messi e Luis Suárez, é difícil conseguir espaço. Ele é importante como reserva, é verdade, mas Pedro pode querer mais – e o interesse de clubes como Manchester United e Chelsea pode tentá-lo a deixar a equipe. Mas não há perspectiva de mais jogadores subirem imediatamente. Há jogadores promissores, como o atacante Munir El Haddadi e Jean Maria Dongou, além do volante Sergi Samper, visto como alguém com grande potencial. Nenhum deles vingou ainda.

O desafio de Bartomeu será fazer as categorias de base voltarem a ter um papel importante no elenco. Os adversários acusaram a gestão de Bartomeu de estar caminhando na direção da política do rival, Real Madrid, de contratar jogadores galácticos. O Barcelona sempre gastou muito em contratações, mas de fato perdeu jogadores da base no seu elenco. Jogar com 11 jogadores formados em casa, como aconteceu na época de Guardiola, parece impossível atualmente. Esse é um dos desafios técnicos e políticos da gestão que começa agora.

Como se vê, Josep Maria Bartomeu venceu, mas o trabalho só está começando. E nem sempre terá uma tríplice coroa para se apoiar.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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