Perigo! Perigo!

Lutas emocionantes em todas as partes da tabela: título, Liga dos Campeões, Liga Europa e rebaixamento. Esse é o motor para sustentar o interesse do público, mesmo em clubes que não têm esperança de título. Se depender apenas disso, o Campeonato Espanhol 2009/10 pode estar lascado. Ao final da última rodada, a 15ª de trás para frente, as brigas parecem relativamente resolvidas. Menos mal que a mais indefinida é a mais importante: a do primeiro lugar.
Tudo bem, ver Real Madrid e Barcelona se engalfinharem na ponta, brigando ponto a ponto (e com um confronto direto no Santiago Bernabéu ainda pela frente) é empolgante. Mas não basta. Primeiro, porque isso sugere vários jogos modorrentos, mesmo os envolvendo os dois grandes. Segundo, porque o futebol espanhol não se limita aos dois grandes e o Campeonato Espanhol só foi considerado o melhor do mundo quando clubes como Valencia, Sevilla, Atlético de Madrid e até Alavés deram trabalho, inclusive em competições europeias.
Na briga pelo título, o Barcelona tem 61 pontos, dois a mais que o Real Madrid. Sim, aí tem disputa. Nas duas vagas restantes para a Liga dos Campeões, o Valencia vem com 46 (totalmente sem chances de pensar na ponta) e o Sevilla está com 43. O Mallorca, teoricamente, está na órbita, com 40 pontos. Mas a trajetória dos baleares é de estagnação, enquanto que os sevillistas crescem. A perspectiva é que a diferença aumente aos poucos.
Pelas duas vagas na Liga Europa até há algum suspense. Mallorca tem 40 pontos, Deportivo de La Coruña vem com 38 e Athletic Bilbao está com 37. O Villarreal conta com apenas 32, mas está em ligeira ascensão e pode até entrar no bolo. Mas, convenhamos, ninguém dá tanta bola assim na disputa pela Liga Europa. No rebaixamento, que é uma disputa mais interessante, a situação começa a ficar desoladora. O Zaragoza deu uma pequena reagida e, com 24 pontos, já deixou os três últimos razoavelmente para trás: Valladolid (20), Tenerife (20) e Xerez (12).
Óbvio que isso tudo não é definitivo. Alguns clubes podem arrancar, outros podem entrar em crise. A existência de uma Copa do Mundo no final da temporada aperta o calendário e cria desgaste acima da média para alguns jogadores, enquanto outros podem se preocupar com a África do Sul e perder o foco nas ligas nacionais. De qualquer modo, o Campeonato Espanhol 2009/10 entrou em um perigoso cenário de castas, e seria bom para todos que ele não se confirmasse. Salvo Atlético de Madrid e Villarreal, que tiveram graves crises no início da temporada e não se recuperaram totalmente delas, os times ocuparam seus lugares na tabela e isso tem muito a ver com o tamanho de cada um, sem grandes surpresas.
Se a classificação seguir nessa linha, chega-se a algumas conclusões preocupantes. A primeira é que as duas superpotências – por mistura de organização, poderio de mercado, história e mãozinha do poder público – são quase inatingíveis. É possível um time incomodá-los em uma ou outra temporada, mas não em longo prazo. Afinal (segunda conclusão), é inviável para os times médios tentarem se agigantar. O Atlético tem pretensões nesse sentido, mas a regra é que os médios servem como mercado secundário. A terceira tese é que a segunda divisão não está preparando (administrativa e tecnicamente) seus promovidos a se integrarem à elite (dois dos três rebaixados são caçulas, sendo que o terceiro novato é o último não-rebaixado).
Esse tipo de coisa é preocupante em um momento em que a economia mundial, incluindo o futebol, vive em crise. Nem a Inglaterra, liga mais rica do mundo, consegue sustentar seus clubes adequadamente. Na Espanha, essa sensação de imobilidade social tende a desmobilizar torcedores e potenciais investidores/patrocinadores. É fundamental pensar em modo de tornar as equipes médias mais competitivas, em desconcentrar a renda e em tornar a segundona mais forte. Mas, claro, pouca gente liga para isso se Barcelona e Real Madrid continuarem fortes.



