A novela pela contratação de Fernando Llorente, enfim, acabou. Depois de muita especulação e da recusa do centroavante em renovar seu contrato com o Athletic Bilbao, a Juventus oficializou o acerto. No entanto, o espanhol só chegará a Turim na próxima temporada – a despeito da vontade dos bianconeri e muito por conta da intransigência dos leones.
Famoso pela rigidez no cumprimento de suas tradições, o Athletic a manteve também nas negociações por Llorente. Mesmo sabendo que o atacante estaria livre dentro de um ano, a Juve ofereceu € 21 milhões no início da temporada. Nada feito. Os italianos renovaram a proposta nas últimas semanas, desta vez oferecendo € 6 milhões. Outro valor negado. Para o presidente Josu Urrutia, apenas os € 36 milhões previstos na cláusula de rescisão do contrato seriam aceitos. No fim das contas, não receberá nada.
Aviso contra a debandada
Mais que uma teimosia, a postura do Athletic manda uma mensagem. Embora seja um dos clubes em melhor situação financeira da Espanha, os milhões oferecidos pela Juventus não seriam tão dispensáveis assim dentro da crise econômica vivida no país. Acima deste dinheiro, contudo, está a intenção de manter um elenco forte para Marcelo Bielsa.
O problema de Llorente não eram os salários oferecidos pelo Athletic, mas sim a projeção que poderia ter em outro clube. Os leones teriam oferecido € 4,5 milhões anuais ao atacante, um valor dentro do padrão que os clubes italianos pagam às maiores estrelas – Edinson Cavani e Diego Milito, entre os cinco mais bem pagos da Serie A, ganham isso. Além disso, os 23% taxados de imposto na Espanha são bem mais atrativos que os 48% italianos.
No início da temporada, o exemplo já tinha sido dado por Javi Martínez. Da mesma forma o Athletic tentou segurar o meio-campista, em transferência que se tornou inevitável depois que o Bayern Munique pagou os € 40 milhões da cláusula de rescisão. Llorente poderia ser o segundo da lista e influenciar outros jogadores assediados do elenco, como Fernando Amorebieta (com contrato até a próxima temporada) ou Iker Muniain (vinculado até 2014/15).
Pra que dinheiro?
As vendas de promessas poderiam render milhões ao Athletic, mas não teriam grande utilidade prática no fortalecimento do time. Do que adiantaria ter dinheiro em caixa se os leones não encontrassem jogadores bascos de mesma qualidade para repor? Por conta da tradição de contar apenas com bascos ou descendentes, os investimentos maiores da diretoria são em categorias de base, não no mercado de transferências.
Dos 25 jogadores que atualmente compõem o elenco de Bielsa, apenas seis não iniciaram a carreira nas canteras de Bilbao. Nas últimas oito temporadas, o Athletic gastou € 39,67 milhões em reforços, um valor bancado apenas com a saída de Javi Martínez – sem contar que, deste montante, € 13 milhões foram empregados no retorno de jogadores que já tinham passado pelo clube.
Se Llorente saísse de imediato, seriam pouquíssimas as opções no mercado para ocupar seu espaço no time – Aduriz, preterido pelo próprio Llorente em outros tempos, já tinha acertado seu retorno a San Mamés quando as negociações pela renovação foram encerradas. Nesta edição de La Liga, o centroavante basco com mais gols e que não atua no Athletic é Kike Sola, de 26 anos, que balançou as redes cinco vezes pelo Osasuna. Mais atrás, Bielsa ainda quebra a cabeça para sanar a falta de Martínez.
Forçar não foi a solução
Somando tantos fatores, o Athletic optou por segurar Llorente. E as atitudes do atacante ao forçar sua venda acabaram pesando para que ele deixe San Mamés com uma imagem bem mais desgastada do que aquela que sustentava há seis meses – o que faz pensar que outros jogadores que almejarem se transferir não serão queimados pelos leones apenas por conta de seus planos.
Para trás, o “Rey León” deixa a posição de ídolo formado nas canteras. Lançado no time principal em 2004/05, Llorente marcou ao menos dez gols nas últimas cinco edições de La Liga. Foram 17 em 2011/12, além de outros cinco na Copa do Rei e sete na Liga Europa, competições nas quais o Athletic foi vice-campeão. Não à toa, foi campeão do mundo e da Euro com a seleção espanhola.
Vaiado pela torcida em San Mamés após o imbróglio, o centroavante figurou entre os titulares em apenas cinco partidas e marcou míseros dois gols pelo Athletic. Agora, Llorente precisará provar na Juventus que é o mesmo jogador do passado, já que deve permanecer os próximos seis meses ainda relegado ao banco por Bielsa.



