Operação limpeza

A imagem correu o mundo. No Barcelona x Milan que valeu pelo Troféu Joan Gamper (amistoso que marca a apresentação do Barça diante de sua torcida toda temporada), Ronaldinho foi aplaudido por toda a torcida catalã quando entrou em campo. E, no final, recebeu de presente a taça, conquistada pelos blaugranas. Bonita homenagem a um dos melhores jogadores da história culé, apesar de sua saída melancólica. Mas não devemos perder os fatos de perspectiva: foi mais uma ação em que Sandro Rosell coloca sua marca na presidência barcelonista.
Na vida política dos clubes espanhóis, uma troca de presidente normalmente é marcada por mudanças significativas no sistema de trabalho. Por exemplo, a promessa de contratação do craque X, do técnico Y e do diretor esportivo Z. Geralmente, esses nomes pautam um novo projeto, com nova filosofia. Mas como fazer isso se o mandachuva anterior conquistou tudo o que era possível? Simples, atacar pelas beiradas.
Rosell, ex-vice e atual desafeto de Laporta, sabia que não podia mexer em Guardiola e no trabalho com jovens das categorias de base blaugranas. Então, buscou os pontos fracos ou que, pelo menos, não iam mudar sua popularidade diante dos torcedores. Apoiar Ronaldinho foi a ação mais pública desse processo.
Em 2003, o brasileiro já não tinha muito clima no Paris Saint-Germain. Real Madrid e Barcelona o disputavam. Os catalães levaram a melhor. Primeiro, porque a proposta financeira não era ruim. Segundo, porque Rosell estava na diretoria barcelonista. O cartola havia sido diretor da Nike para a América Latina e tinha grande amizade com o meia-atacante.
O desgaste de Ronaldinho com a cúpula blaugrana, não por coincidência, começou quando Rosell rompeu definitivamente com Laporta. O processo foi lento, até porque o jogador era ídolo da torcida e se desfazer dele não seria fácil. Briga pública com Eto’o, falta de vontade de jogar, contusões misteriosas e tudo estava pronto para a venda do gaúcho.
O tratamento que o brasileiro recebeu no retorno ao Camp Nou teve muito de agradecimento sincero da torcida, mas também foi uma oportunidade de o atual presidente barcelonista deixar claro que quer apagar o que considera errado da gestão anterior. Foi um recado.
Claro que não foi a única atitude de Rosell. O dirigente já cutucou Laporta em diversas oportunidades. A primeira foi demitir Txiqui Beguiristain do cargo de diretor esportivo, colocando o ex-goleiro Andoni Zubizarreta. Depois, retirou o título de presidente de honra de Johan Cruyff (grande amigo e conselheiro pessoal de Laporta). Por maior que seja a adoração e o respeito do torcedor pelo holandês, é verdade que muita gente já estava de saco cheio do excesso de comentários polêmicos do ex-craque e a medida da direção não foi vista como sacrilégio.
A tendência é que, aos poucos, o novo presidente passe a tomar atitudes mais claras. Uma delas, aliás, já ocorreu. A contratação de Javier Mascherano não faz sentido em muitos aspectos. Primeiro, não há uma necessidade do Barcelona por um volante como ele (ninguém imagina que Busquets se torne reserva). Segundo, não serve como notícia midiática para responder a alguma contratação do Real Madrid (Mascherano não tem tanta popularidade assim e a maior contratação do futebol espanhol nas férias já era do Barcelona). E terceiro, o próprio Rosell já havia dito que não pôde contratar Fàbregas – esse sim, um golpe de marketing – porque Laporta deixara uma dívida de € 152 milhões.
A falta de explicação clara para a compra do argentino acaba levando muita gente a pensar em explicações não-tão-claras. Rosell é um sujeito cheio de conexões com personagens poderosos do esporte mundial, incluindo Fifa, COI, Uefa e até IAAF. A torcida do Barcelona espera que o novo presidente imponha sua gestão por atitudes mais simples, como a homenagem a Ronaldinho. Se for por atitudes “não-tão-claras”…



