Espanha

Onde nascem os monstros

Figueres, pequena cidade no interior da Catalunha, é mais conhecida por ser berço de Salvador Dalí. Mas, no verão europeu de 2007, seu nome apareceu bastante no noticiário do Fútbol Club Barcelona. O time local, em dificuldades financeiras, pretendia vender sua vaga na terceira divisão. Para os blaugranas, era a brecha para evitar o rebaixamento de duas equipes suas ao mesmo tempo. O Barcelona Atlètic, o time B, havia caído da terceira para a quarta. Com isso, empurrou o Barça C da quarta para a extinção, pois a diretoria não achava interessante bancar uma equipe no semiprofissionalismo dos torneios regionais.

O plano não deu certo. O Figueres vendeu sua vaga para o Castelldelfells, o Barcelona B caiu e o C foi fechado. Não deixava de ser um vexame para o clube que, apenas um ano antes, conquistara a Liga dos Campeões. Mas também era algo natural, considerando a gradual deterioração dos times B no futebol espanhol.

Três anos e meio depois, o cenário é bem diferente. O Barcelona entendia que sua equipe 2 realmente era importante para alimentar a principal. E sabia como esse processo ocorreria. Houve reestruturação do Atlètic, a começar pela designação de uma figura identificada com a instituição para comandar o projeto. Guardiola assumiu, foi terceiro colocado na Tercera División (a quarta), conseguiu a promoção da equipe e acabou confirmado para treinar o time principal na temporada seguinte.

Guardiola tem sido vitorioso, como todo mundo deve saber. Mas o Barcelona Atlètic (em 2010 voltou a ser apenas “Barcelona B”) também vai bem, obrigado. O time já retornou à Segundona (onde não aparecia desde 1998-99) e briga pela ponta desde as primeiras rodadas. O único jogo que o líder disparado Betis não venceu em casa até agora foi justamente contra os blaugranas.

A equipe chegou a ocupar a terceira posição, mas vem com uma série de resultados que parecem do Botafogo: seis empates seguidos, contra Recreativo de Huelva (1×1), Valladolid (0x0), Betis (2×2), Albacete (2×2), Ponferradina (1×1) e Las Palmas (2×2). Mesmo assim, o Barcelona B ainda é quinto colocado e, se o regulamento permitisse sua promoção, ele disputaria os playoffs se o campeonato terminasse hoje.

É um fato cada vez mais raro. No entanto, a última vez que um time B ficou em posição de promoção foi em 1998-99 (curiosamente, a última temporada em que o Barça Atlètic havia disputado a Segundona), com o vice-campeonato do Atlético de Madrid B. Veja como foi a campanha do melhor time B na segunda divisão nos últimos 12 anos.

1998/99 – Atlético de Madrid B (2º)
1999/00 – Atlético de Madrid B (17º)
2000/01 – nenhum time B disputou a Segunda Divisão
2001/02 – nenhum time B disputou a Segunda Divisão
2002/03 – nenhum time B disputou a Segunda Divisão
2003/04 – Málaga B (15º)
2004/05 – Málaga B (17º)
2005/06 – Real Madrid Castilla (11º)
2006/07 – Real Madrid Castilla (19º)
2007/08 – Sevilla Atlético (8º)
2008/09 – Sevilla Atlético (22º)
2009/10 – Villarreal B (7º)

Não é à toa que os espanhóis se desiludiam com a ideia de manter um time B. Os resultados em campo vinham sendo sofríveis, com no máximo um ano decente. Disputando geralmente a terceira divisão, essa equipe enfrenta adversários de nível técnico fraco e acabam ajudando pouco no desenvolvimento dos jovens. Muitos preferem se transferir, preferindo defender a formação A de outros clubes à B de um grande.

O principal exemplo disso é o Real Madrid Castilla de 2005/06, que fez boa campanha na Segundona. Aquela equipe tinha o goleiro Cobeño (hoje goleiro menos vazado da segunda divisão, com a camisa do Rayo Vallecano), os laterais Arbeloa e Filipe Luís, os meio-campistas Borja Valero, De la Red, Javi García e Granero e os atacantes Soldado e Negredo. Nenhum teve oportunidade efetiva no Real, mas todos conseguiram algum destaque depois de deixarem Valdebebas. Dois deles (Arbeloa e De la Red) até foram recontratados pelos madridistas anos depois. E pensar que, na temporada 1979/80, o Castilla chegou à final da Copa do Rei (clique aqui para mais detalhes).

O Barça B tenta inverter o processo. Depois de muito tempo, um time B consegue mostrar como ele pode ser importante para o irmão rico. Os jogadores não apenas têm uma boa formação técnica na cantera (como tinha o Castilla de 2005/06), mas podem também visualizar como o caminho ao topo está desobstruído. É só olhar para Xavi, Iniesta, Messi, Sergio, Valdés, Pedro, Puyol e Bojan para perceber que haverá oportunidades para os melhores. É só olhar para o modo como Thiago Alcântara (filho de Mazinho) já vem aparecendo nos jogos do Barcelona A.

No momento, o técnico Luís Enrique (sim, o ex-meia-atacante do clube) tem usado uma base com Miño (Oier); Montoya, Bartra, Fontàs e Muniesa; Oriol, Carmona, Sergi Roberto e Jonathan dos Santos; Nolito e Soriano. Desses, Fontàs, Sergi Gómez, Oriol, Nolito, Victor Vázquez e Bartra já defenderam o time principal nesta temporada, por Liga dos Campeões, Campeonato Espanhol, Copa do Rei ou Supercopa da Espanha. Mas o nome de mais destaque (talvez o único) é do mexicano Jonathan, irmão de Giovanni dos Santos.

Com um comando uniforme, real intenção de desenvolver os jovens e espaço para colocá-los no time principal, as equipes B podem ser relevantes novamente. Para o Barcelona, ela virou fundamental.

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Equipe Trivela

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