Espanha

O problema estava na cabeça

Ninguém ama tanto Karim Benzema quanto a imprensa de Madri. Talvez seus pais, mas ainda assim é discutível. Os jornais de Madri, sempre alinhados a Florentino Pérez, não se cansam de bancar o atacante. Compreensível, já que o francês foi o grande nome do dirigente para o ataque da equipe. Defender Benzema é como defender Florentino, e – aparentemente – defender Florentino é cláusula pétrea no projeto editorial desses veículos.

O atacante ficou uma temporada e meia sem justificar o investimento. Perdeu posição para Higuaín (patinho feio da história por ter sido contratado por Ramón Calderón) e já era visto como mico. Quando o argentino se contundiu, José Mourinho não fez questão de esconder sua falta de confiança no gaulês. Experimentou Cristiano Ronaldo no ataque – opção que não progrediu porque dependeria muito de um ainda titubeante Kaká no meio-campo – e fez bico para a contratação de outro centroavante. E Florentino contratou Adebayor.

Tudo desenhado para a perda total de espaço de Benzema. Mas o lionês resolveu ressurgir. Contra o Lyon, seu ex-clube, o francês entrou no segundo tempo e fez o único gol madridista no empate por 1 a 1. Desde então, desandou a fazer gols.

25ª rodada, Deportivo de La Coruña 0x0 Real Madrid
Única partida em que Benzema não foi às redes nesse período. O Real jogou no 4-2-3-1, com o francês ficando como único atacante. Atrás dele, o trio Cristiano Ronaldo, Kaká e Özil. O Real não teve uma jornada inspirada, sobretudo no primeiro tempo, e acabou parando na atuação inspirada de Aranzubia.

26ª rodada, Real Madrid 7×0 Málaga
Partida fácil contra uma equipe entregue em campo. Mourinho manteve o time com um atacante (Benzema) e três armadores. Mas Kaká perdeu lugar para Di María, que teve atuação destacada e deu mais velocidade e fluidez ao ataque. Benzema marcou dois gols, o primeiro e o quinto da goleada.

27ª rodada, Racing de Santander 1×3 Real Madrid
Com Cristiano Ronaldo contundido (a lesão ocorreu contra o Málaga), Mourinho experimentou a equipe no 4-1-3-2, com Xabi Alonso de volante, o trio Özil, Granero e Di María na armação e a dupla Benzema e Adebayor na frente. Foi uma das melhores partidas do Real no ano, ainda mais pela boa atuação do aguerrido Racing. Özil foi o melhor em campo, mas Benzema marcou dois gols e Adebayor, um.

28ª rodada, Real Madrid 2×0 Hércules
O Real Madrid repetiu a formação da partida anterior no meio-campo e no ataque. O jogo fio tranquilo. Os madridistas fizeram o suficiente para vencer sem se desgastar, já pensando em enfrentar o Lyon pela Liga dos Campeões. E, novamente, Benzema ofuscou seu companheiro de ataque. O francês marcou dois gols em jogadas de oportunismo, confirmando a posto de novo homem-gol da equipe.

Pelas características de cada partida, percebe-se que Mourinho e a melhoria de Benzema não esteve ligada a uma grande mudança tática no time. Em duas partidas, o francês entrou como jogador de referência no ataque, posição em que perdeu a posição para Higuaín. Nas duas últimas, jogou com um companheiro de ataque, como havia ocorrido assim que chegou a Chamartín, no início da temporada passada (seu colega foi Raúl). Também não dá para creditar a evolução à forma física, pois o atacante nunca aparentou problemas de condicionamento.

Por isso, tudo leva a crer que a questão é psicológica. Benzema chegou a Madri com a obrigação de ser o grande atacante do time, o jogador que transformaria em gol as espetaculares jogadas de Cristiano Ronaldo e Kaká (outros recém-chegados). Quando a concorrência com Higuaín ficou mais evidente, o francês murchou.

Agora, o argentino está fora de ação. E o jogador que precisa atender às expectativas da torcida e da imprensa é Adebayor, contratado a pedido de Mourinho. Sem tanto peso nas costas, Benzema pôde atuar de modo mais solto, mais natural. E voltou a apresentar o bom futebol da época de Lyon.

Claro que o nível técnico discutível dos últimos adversários do Real contribuem para a chuva de gols do francês. Mas é perceptível como, de repente, seu futebol parece mais compatível com o do resto do time. A ponto de alguns analistas espanhóis pensarem que Mourinho teria pedido Adebayor apenas como modo de dar um impulso psicológico ao francês. O retorno a Lyon, com direito a ovação da torcida de seu ex-time, também pode ter dado um novo ânimo ao atacante.

Pode ser tudo isso junto, ou um pouco de cada coisa. O importante é que o Real Madrid encontrou um atacante para substituir Higuaín. E nem precisava gastar dinheiro para isso.

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Equipe Trivela

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