Espanha

O peso de um gigante

Faltava mais de meia hora para terminar Real Madrid x Sevilla, aí considerando os acréscimos. Sérgio Ramos acabara de empatar a partida em 2 a 2 e os madridistas claramente se atirariam ao ataque em busca da vitória – e da liderança do Campeonato Espanhol. Os andaluzes ainda tinham o contra-ataque, e contavam com jogadores que poderiam decidir o jogo dessa forma, mas era evidente a todos que os três pontos ficariam no Santiago Bernabéu. E ficaram, com gol de Van der Vaart.

É possível fazer uma longa análise tática do Real Madrid 3×2 Sevilla deste sábado. De como Cristiano Ronaldo fica como segundo atacante, pela direita, e Marcelo e Kaká formaram a dupla de armação do Real. De como essa formação ainda não flui tão bem, apesar de o melhor do mundo de 2007 já se comunicar com o melhor do mundo de 2008. De como o Sevilla não conseguiu usar a velocidade de Kanouté, Perotti e Jesús Navas para puxar contra-ataques (usando Negredo como referência) no segundo tempo. De como a entrada de Guti e Van der Vaart (e a ida de Marcelo para a lateral, no lugar de Arbeloa) deu mais força ao meio-campo madridista. De como Raúl fez o Real atuar com três atacantes nos minutos finais. De como…

Realmente, tudo isso aconteceu e até dá para usar esses argumentos para explicar a importante virada merengue. Mas o futebol não é apenas esquemas táticos e nem sempre eles são o caminho adequado para retratar o que acontece em campo. Como não foi na partida do Santiago Bernabéu.

Depois de um primeiro tempo morno, em que o Real continuou sem convencer e o Sevilla estava na frente devido a um gol nos minutos iniciais, o duelo foi basicamente psicológico. Os madridistas até tomaram um segundo gol, em raro frango de Casillas, mas agiram como o cachorro grande que ladra mais grosso e faz o menor se esconder atrás do dono. O Real simplesmente mostrou que era maior. A ponto de o oponente se encolher e aceitar a derrota.

Quando Cristiano Ronaldo fez o primeiro gol merengue, aos 14 minutos, o Sevilla se escondeu atrás da perna do dono. O time que, mesmo na casa do adversário, mostrava um certo desprendimento deixou o campo. No lugar ficou uma equipe intimidada, que não confiava mais na possibilidade de usar o contra-ataque, que não sabia como parar o oponente.

O Real Madrid nem precisou de um futebol brilhante para encontrar os dois gols que faltavam. Bastou lutar muito pela bola – e não se pode falar que esse time não tem garra –, empurrar os andaluzes para seu campo e finalizar sempre que possível. Foram dois gols, três bolas na trave, algumas boas defesas de Palop e outras que passaram a centímetros da meta. Um massacre.

Não é a primeira vez que o Real Madrid usa seu peso para vencer nesta temporada. Mas foi a mais importante até agora. Isso não bastará para superar o Barcelona no confronto direto de abril, mas talvez nem seja preciso. Garantindo-se contra os pequenos, os merengues já alcançaram os catalães na liderança.

Sí, se puede

A Espanha é campeã da Eurocopa e só perdeu uma partida – para os Estados Unidos na Copa das Confederações – nos últimos três anos. Ainda assim, há quem desconfie do status de favorito na Copa que a Fúria carrega ao lado do Brasil. Maldade. Ainda mais depois do que os espanhóis fizeram no amistoso contra a França na última quarta, em Saint-Denis.

Diante de uma seleção forte (a França tem problemas coletivos e de comando, mas não dá para desfazer uma equipe que tem Ribéry, Anelka, Henry, Gourcuff e Evra), o time de Vicente del Bosque se impôs de modo quase constrangedor. O esquema vitorioso na Eurocopa, com meias rápidos e de passes precisos construindo o jogo, continua forte. A defesa está ainda mais sólida, com o ascendente Piqué trazendo para a seleção o entrosamento que tem com Puyol no Barcelona.

Mas o melhor sinal que a Espanha deu foi ter opções táticas. Justamente o ponto fraco do Brasil de Dunga, que só se solta quando tem o contra-ataque ou bolas paradas à disposição. Fernando Torres não vive grande momento e poderia ser um ponto fraco na parte ofensiva. Não teve problema. O time deixou o 4-1-3-2 para se organizar no 4-2-3-1, com David Silva, Fàbregas e Iniesta formando um trio de mais que podiam avançar para fazer companhia a Villa no ataque. Importante lembrar que o time também já jogou bastante no 4-1-4-1.

Outro problema do Brasil: falta de reservas em posições-chave. Dá para confiar em Adriano se Luís Fabiano tiver algum problema? E Júlio Baptista como reserva imediato de Kaká? Quem entra se Julio César não puder jogar?

Nisso os espanhóis já vão se cobrindo. Não há um reserva para a dupla Villa e Torres, mas o time já aprendeu a prescindir de um deles. No meio-campo, Fàbregas teoricamente é reserva de Xavi. Jesús Navas ganha espaço como substituto de Iniesta ou David Silva. Busquets, Xabi Alonso e Marcos Senna ficam como opções para duas vagas de volantes. Ainda faltam reservas nas laterais e na zaga, mas o esquema tático não precisa mudar por um ou outro desfalque, o que não ocorre no time de Dunga.

Isso significa que a Espanha é melhor que o Brasil? Não, porque o Brasil tem a seu lado a confiança de quem já foi campeão do mundo. Além disso, a Espanha tem grandes jogadores, mas não tem ninguém no nível de Kaká, por exemplo. De qualquer modo, é mais que legítimo colocar a Espanha entre os favoritos. É um time competitivo, que já provou ser vencedor, e que tem estrutura.

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Equipe Trivela

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