Espanha

O passo final

O Real Madrid ficou 18 anos sem vencer o Deportivo de La Coruña na Galícia. O fez há uma semana, em um convincente 3 a 1. Ótimo resultado, mas deu início a um pequeno atrito na cúpula madridista. O diretor-geral Jorge Valdano reclamou publicamente de Manuel Pellegrini após a partida, por não colocar em campo nenhum dos quatro garotos da base que estavam no banco de reservas. O técnico rebateu, alegando que precisa pensar na vitória, ainda que acompanhe os jogadores do Real Madrid Castilla (o time B). Estava exposto um problema que começa a incomodar o clube que realizou as contratações mais caras da história do futebol: a necessidade latente em começar a usar pratas-da-casa.

Como definir que clube faz um melhor trabalho nas categorias de base? Um bom parâmetro é ver os resultados nas competições sub-qualquer-coisa, que colocam frente a frente equipes de jovens. Outra possibilidade é avaliar a infraestrutura e o gasto em treinos e busca de talentos, porque mostra a disposição de se investir. O faturamento com a negociação das revelações também pode ser considerado, pois ajuda a bancar o clube. Mas tudo isso é balela se o time não fizer uma coisa básica: usar os jogadores. Afinal, esse é, em teoria, a finalidade de se investir na garotada.

É esse o dilema do Real Madrid. Poucos clubes da Europa têm um trabalho tão cuidadoso com os jovens. A infraestrutura é excelente, o clube vence competições de base e há talentos aparecendo em Valdebebas. Mas que jogadores foram úteis ao time nesta década? Casillas e Raúl, certamente. Guti, em menor grau. Sobra quem? Raúl Bravo, Fernando Sanz e Pavón viraram símbolos de falta de técnica. Hierro foi revelado pelo Valladolid. Pela produtividade, dá para dizer que o trabalho dos merengues é ruim. E não deixa de ser verdade.

O Real é o melhor exemplo de que o desenvolvimento de um garoto de talento não termina na virada dos 19 para os 20 anos, quando supostamente se torna profissional. É preciso saber fazer a transição das categorias de base para o time principal, dando suporte técnico e psicológico para que o talento se concretize onde realmente importa.

Imprensa e torcida não são condescendentes e pacientes com os jogadores madridistas. Todos devem estar entre os melhores do mundo em suas posições. Qualquer coisa menor que isso é motivo para a diretoria buscar mais um reforço milionário. Isso transformou o clube em uma máquina de moer jogadores jovens. Alguns somem depois de fracassar com a camisa branca. Outros vão para equipes menores para ter alguma chance.

De fato, longe de Chamartín pode-se ver que há jogadores de talentos que passaram pelas categorias de base do Real ou pelo Castilla. Diego López é um dos melhores goleiros da Espanha na defendendo a meta do Villarreal. Cambiasso é um dos pilares da Internazionale há anos. Eto’o fez gols em duas finais de Liga dos Campeões pelo Barcelona. Filipe Luís chegou à Seleção Brasileira. Mata, do Valencia, é cotado para ir ao Mundial da África do Sul pela Espanha. O sevillista Negredo também vestiu a camisa da Fúria nos últimos meses. Soldado é um centroavante consistente no Getafe. E Borja Valero é o grande nome do surpreendente Mallorca. Salvo os dois últimos, os demais teriam espaço no Real Madrid, nem que fossem como reservas de luxo.

A falha da política do Real Madrid com suas pratas-da-casa foi escancarada nas duas últimas temporadas, com as contratações de De la Red, Granero e Arbeloa. O primeiro teve problemas cardíacos e talvez seja obrigado a encerrar a carreira. Os dois últimos ganham espaço no time de Pellegrini e inspiram confiança da torcida. Os três foram formados nos merengues, mas só se destacaram fora e acabaram voltando, ao custo de alguns milhões de euros.

A chiadeira de Valdano deixa claro que a diretoria madridista não quer, daqui alguns anos, gastar mais dinheiro para trazer de volta um jogador que poderia simplesmente não ter saído. Primeiro, porque é uma evidência de falta de organização. Segundo, porque é uma derrota para o Barcelona, que foi campeão mundial com um grupo repleto de pratas-da-casa (Valdés, Puyol, Xavi, Iniesta, Sergi Busquets, Messi, Bojan, Pedro…). Terceiro, porque não é sempre que o clube conseguirá alavancar uma quantidade irreal de dinheiro para contratar os maiores jogadores do mundo.

Se os madridistas convencerem os torcedores e a imprensa que é momento de dar chance aos garotos, podem, finalmente, dar o passo final em seu trabalho na base. E, se der certo, é capaz de recriar o único time histórico do Real que não foi feito em cima de contratações bombásticas: a equipe pentacampeã espanhola na década de 1980, com Butragueño, Sanchis, Míchel e Martín Vázquez, todos crias merengues.

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Equipe Trivela

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