Espanha

O espírito do Calderón: não morreu um estádio, nasceu uma lenda

O último domingo foi um dia especial para os torcedores do Atlético de Madrid. De melancolia, de tristeza e de esperança. Um amistoso entre lendas do clube e estrelas do futebol mundial, com Ronaldinho, Zico e Higuita, que até marcou de pênalti, foi o último jogo de futebol no histórico Vicente Calderón, antes da mudança para o novo Metropolitano – a última partida oficial foi a final da Copa do Rei, no sábado, e o último duelo oficial do Atlético foi contra o Athletic, no fim de semana passado.

Os colchoneros deixam para trás o local onde aprenderam a perder, a se levantar, a tentar de novo e a vencer. É essa a alma do Atleti e ninguém melhor para nos descrever como ela se relaciona com o Calderón do que um torcedor que acompanha os rojiblancos de perto há quase 15 anos.

Por Pedro Pedroso*           

Despedir-se de um estádio com mais de 50 anos de vida seria uma experiência emocionante para qualquer torcedor, mas e quando ele é parte vital da identidade da equipe? Inaugurado em 2 de outubro de 1966, com um empate por 1 a 1 contra o Valencia, com o primeiro gol de Luis Aragonés, o Vicente Calderón ficará marcado na história do futebol europeu como um dos templos de uma época que já não existe mais.

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A necessidade de modernização aliada ao crescimento do Atleti nas últimas temporadas fazem com que a mudança para o novo Metropolitano seja de alguma forma necessária. Porém, o colchonero tem uma visão da vida um pouco diferente. Acostumado a ser o pupas (espécie de café com leite, fase proferida pelo próprio Vicente Calderón), o clube viveu ali os maiores momentos de sua história. Entre eles certamente a Taça Intercontinental de 1975, vencida diante do Independiente.

E essa fama de pupas é justamente parte do que nos leva a entender a relação da torcida com seu templo. O estádio de futebol representa para o torcedor o seu lugar no mundo. E especialmente neste, todo e qualquer torcedor aprendeu exatamente quais são os valores deste clube. O Vicente Calderón viu o Atleti na segunda divisão, por duas temporadas seguidas, recebendo 55 mil pessoas em seu primeiro jogo no inferno. Luis Aragonés resgatou o clube de volta à elite, com uma equipe que contava com um garoto muito especial: Fernando Torres certamente fez com que muitas crianças entrassem no Calderón pela primeira vez.

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É um clube que conhece o sofrimento, como perder seus dois jogos mais importantes para o maior rival. O Atlético aprendeu a apreciar estes momentos, se fazer mais forte a cada queda. Mas abandonar uma parte do hino é algo diferente. Não há como mudar isso: “ Yo me voy al Manzanares, al estadio Vicente Calderón”. Não existe translado pro sentimento pelo estádio. Claro que o Atleti continuará sendo loucamente amado, mas agora por 67 mil pessoas por jogo, em seu novo lugar no mundo.

Nos últimos meses falou-se muito que os sentimentos não devem interferir no progresso do clube. Mas quando se tem a personificação da alma colchonera construída a base de cimento e tijolos a coisa fica mais difícil. A diretoria realmente tem buscado o possível pra garantir a manutenção dessa identidade com o estádio, assegurando que o Calderón, mesmo sem existir fisicamente, tenha importância no futuro do Atleti. Mas o medo é que algo mude. Muitos torcedores sentem como se tivessem vendido parte de sua alma.

Simeone tem razão quando vislumbra a mesma paixão e a mesma festa dos colchoneros em seu novo estádio. Mas talvez nem outros 50 anos sejam capazes de superar o amor pelo antigo. Como Gabi deixou bem claro: “não morreu um estádio, nasceu uma lenda”. E assim como os cantos de Luis Aragonés a cada momento complicado em campo, tenho certeza que teremos a mente no Calderón sempre que passarmos por dificuldades, pois foi ali que enfrentamos todas e superamos todas. ”Ganar, ganar, ganar, y volver a ganar”.  Esse é o espírito do Calderón. Essa é a alma do Atlético de Madrid.

*Pedro Pedroso Faria Pereira de Lima tem 26 anos, é estudante e acompanha o Atlético de Madrid desde 2003, mas sempre teve uma queda pelo clube. Tem a teoria de que todo mundo torce pelo Atleti, mas alguns passam a vida inteira sem saber. Para ele, é a perfeita síntese da vida: diversas decepções que fazem as conquistas serem muito mais fortes. Além da relação com a classe obreira, a raça, o histórico com sul-americanos e a torcida.

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