Espanha

O antepenúltimo passo

Bilboko Athletic Kluba. O Athletic Bilbao poderia perfeitamente ter um nome em basco, e aumentar seu caráter nacionalista. Mas o Athletic tem um pé na Grã-Bretanha. A versão atual surgiu em 1903 da fusão de dois clubes, o Bilbao Football Club, fundado em 1900 por trabalhadores ingleses do porto de Bilbao, e o Athletic Club, criado em 1898 por jovens bascos que voltavam de um período de estudos na Inglaterra.

Nos primeiros anos da história dos leones, sempre havia jogadores ingleses no elenco. Não havia restrição e o time dominava o futebol espanhol. Até que, em 1911, outros clubes bascos protestaram pela presença de estrangeiros no time bilbaíno. A federação espanhola obrigou o Athletic a nacionalizar seu elenco (apenas um inglês foi permitido ficar. No caso, Martyn Veitch). Para mostrar que não precisava dos estrangeiros para superar os rivais locais, o time deixou de usar jogadores nascidos em outras províncias. Na época, não se falava em Franco, no ETA, em limites de estrangeiros por clubes ou em jogadores comunitários. Pareceu birra, mas criou-se uma tradição.

Desde então, o Athletic virou ícone do “orgulho basco”. Um termo que, nas décadas seguintes, também foi usado para justificar manifestações nacionalistas, terrorismo e separatismo. Mas o clube (como a Real Sociedad até os anos 80, diga-se) continuou exclusivo para jogadores bascos, o que motivou reações que vão de acusações de xenofobia ou racismo a elogios por manter sua ideologia, mesmo que prejudicasse os resultados em campo. E é assim até hoje. Quer dizer, mais ou menos.

É fácil se apegar ao estereótipo do “time que só tem jogadores de sua região”, mas a verdade é que o Athletic afrouxou pouco a pouco a limitação autoimposta em 1911. O processo nem é tão recente e tem vários marcos:

– Desde a saída de Veitch, o Athletic passou a usar apenas jogadores nascidos na província de Biscaia, da qual Bilbao é a capital;

– Em 1962, o clube contratou seu primeiro atleta nascido fora de Biscaia: José Luís Iribar, nascido em Guipúzcoa, uma das três províncias que formam o País Basco oficial, ao lado de Biscaia e Álava;

– Em 1978, teve seu primeiro jogador nascido fora do País Basco oficial. Foi Luis de la Fuente, natural de La Rioja. A justificativa é que o País Basco oficial se limita a três províncias, mas a área de influência cultural e étnica basca (Euskal Herria) inclui partes de Navarra e La Rioja;

– Em 1987, estreou o zagueiro Patxi Ferreira, nascido na província de Salamanca. A justificativa é que seus pais eram bascos;

– Em 1996, o clube contratou o francês Bixente Lizarazu, o primeiro estrangeiro do Athletic desde Veitch. O lateral nasceu no departamento de Labort, que, com Baixa Navarra e Soule, também fazem parte da Euskal Herria;

– Em 2005, o clube lançou o Amorebieta, venezuelano filho de bilbaínos. Foi o primeiro estrangeiro nascido fora de Euskal Herria a defender o clube em quase um século;

– Em 2 de março de 2011, o Athletic enfrentou o Zaragoza com Iraizoz (nascido na província de Navarra);  Iraola (Guipúzcoa), San José (Navarra), Balenziaga (Guipúzcoa) e Ekiza (Navarra); Gabilondo (Guipúzcoa), Orbaiz (Navarra), Javi Martínez (Navarra) e Susaeta (Guipúzcoa); Llorente (Navarra) e Toquero (Álava). Foi a primeira vez na história que o Athletic entrou em campo sem nenhum jogador nascido em Biscaia;

– Em 20 de novembro de 2011, estreou o lateral Jonas Ramalho. Ele nasceu em Baracaldo (Biscaia) e tem mãe basca. Não seria nada excepcional, não fosse ele o primeiro negro (seu pai é angolano) a defender o clube.

A ausência de negros nunca foi um questão racial, apenas uma consequência natural da polícia regional adotada pelo Athletic. Com o aumento da imigração na Espanha e a chegada dela a cidades médias, surge uma geração de espanhóis (ou sevilhanos, bilbaínos, corunheses, se preferir) de origem estrangeira. Muitos deles, filhos de africanos, sul-americanos ou asiáticos. Jonas Ramalho foi o primeiro, mas outros devem aparecer em breve.

Em toda essa evolução ou reinterpretação da filosofia do Athletic, quase todos os passos já foram dados. O penúltimo já é aguardado para as próximas temporadas. O clube já aceita como “bascos” jogadores sem ligação sanguínea com a região, mas que foram futebolisticamente formados em algum dos clubes locais. Lezama, a categoria de base dos leones, já tem vários garotos sem ligação familiar com Euskal Herria, como Diego Royo (Aragão), Enric Saborit (Catalunha), Binke Diabate (Máli), Imanol Schiavella (Itália), Frank Ndongo (Camarões), Jhon Alejandro Escobar (Colômbia), Endurance Ojokolo (Nigéria) e Yanis Rahmani (França). É questão de tempo para algum deles vestir a camisa alvirrubra em um jogo oficial.

O último passo seria, definitivamente, encerrar a política, como a Real Sociedad fez nos anos 90 (após um período em que aceitava estrangeiros, mas não espanhóis não-bascos). É duvidoso se o clube ou sua torcida estão dispostos a isso, mas a política basca do Athletic pode ser tudo, menos algo pétreo e imutável.

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Equipe Trivela

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