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O adeus a Michael Robinson, o campeão europeu que levou o lado mais apaixonante do futebol à TV

Você pode recontar a história de Michael Robinson a partir do que ele construiu em campo. De fato, o centroavante nascido em Leicester teve uma carreira respeitável durante os anos 1980. Finalista da Copa da Inglaterra com o Brighton e vencedor da Champions com o Liverpool de seu coração, também disputou 24 partidas com a seleção da Irlanda e conquistou a adoração no Osasuna. No entanto, fazer o recorte ao redor do que aconteceu nos gramados é perder um grande personagem. Como tanta gente, Robinson era um daqueles caras apaixonados pelo futebol além do jogo. E, como raríssimos, ele soube transmitir isso a milhares de aficionados. O comentarista revolucionou o jornalismo esportivo na Espanha e deixou uma grande contribuição à própria maneira de ver o futebol, que influenciou também outros lugares.

Michael Robinson era um tipo de pessoa que o mundo precisa: um idealista. Tinha um humor leve e irônico, relatado por seus amigos e também perceptível na televisão. Mais importante, ele conseguia pensar além. Robinson conseguiu sair da maçante (e, muitas vezes, tóxica) maneira de recontar a rodada do futebol através de infindáveis discussões sobre arbitragem ou polêmicas vazias. Apenas comentarista de início, seria também um dos idealizadores do programa ‘El Día Después’, que traz histórias profundas sobre o futebol – não apenas da superfície que mais dará audiência. Dentro da cobertura espanhola, conseguiu ser um Dom Quixote a lutar contra esses grandes moinhos de vento, e a vencê-los. A literatura nesta abordagem adotada pelo irlandês, de um verdadeiro apaixonado pela bola, se espalharia além.

Como jogador de futebol, Robinson teve uma carreira relativamente curta, encerrada aos 30 anos por conta de uma lesão no joelho. Começou logo depois a trabalhar na televisão, como comentarista na Copa de 1990, e seria convidado para iniciar sua revolução na Espanha. Nesta terça-feira, lutando contra um melanoma, o irlandês não resistiu e faleceu aos 61 anos. Fica a impressão de que suas três décadas na mídia também não foram suficientes ao seu talento. O tempo foi curto a quem tinha tantas histórias a contar e a apresentar, levando o futebol como mote comum para aproximar as pessoas.

Nascido em Leicester, em 12 de julho de 1958, Robinson se mudou a Blackpool quando tinha quatro anos. A família abriu uma pensão na cidade costeira e certamente o contato com gente de diferentes cantos influenciou o gosto do menino por conhecer novas histórias. Foi também em casa que o futebol entrou em sua vida, aliás. Seu pai, Arthur, atuou em clubes profissionais. Chegou a defender o Brighton, enquanto também integrava o exército britânico durante a Segunda Guerra Mundial.

Dentro de campo, Robinson começou a se destacar nas competições escolares de Blackpool. Recebeu um convite do Chelsea para se mudar a Londres, mas seu pai achou que era melhor ao adolescente seguir em casa. Assim, acabou se juntando às categorias de base do vizinho Preston North End. Estreou pela equipe principal em 1975, quando tinha 17 anos, e faria parte do elenco que conquistou o acesso à segunda divisão em 1978. A partir de então, o centroavante desabrocharia e seria um dos principais nomes na campanha que rendeu o sétimo lugar na segundona aos Lilywhites. Eleito o melhor jogador do clube em 1978/79, Robinson atrairia as atenções de Malcolm Allison no Manchester City, contratado por £750 mil.

A primeira oportunidade de disputar a elite não seria positiva a Robinson. Com o rótulo de “jogador sub-21 mais caro da história do futebol inglês”, o atacante não emplacou como o esperado no Manchester City. Anotou oito gols em 30 partidas, sem se firmar como titular e sem impulsionar os celestes na tabela do Campeonato Inglês. Desta maneira, saiu logo na temporada seguinte. O Brighton precisou desembolsar apenas £400 mil para levar o jovem e conseguiu recuperar seu melhor futebol. Vestindo a camisa 9, Robbo era um jogador inteligente que abria espaços aos companheiros e também marcava gols. Não dava jogada por perdida e era reconhecido por seu máximo empenho, exemplar, sobretudo nos treinamentos.

No Brighton onde também atuara seu pai e que acabara de chegar à elite, Robinson seria um nome vital. Após a estreia das Gaivotas no Campeonato Inglês em 1979/80, o centroavante integrou as campanhas do time em três temporadas consecutivas na primeira divisão. Seu melhor desempenho aconteceu em 1980/81, quando anotou 19 gols e ficou a um tento de se tornar artilheiro da liga. Sua ótima fase, de qualquer forma, seria ainda mais importante para evitar o rebaixamento – o Brighton se safou com uma sequência de quatro vitórias nos últimos quatro jogos, ficando dois pontos acima do Z-3. Já os gols mais lembrados aconteceram em 1982/83, levando o time pela primeira vez a Wembley.

O Brighton não fugiria do descenso naquela temporada, mas compensou com uma histórica campanha na Copa da Inglaterra. As Gaivotas eliminaram Newcastle, Manchester City, Liverpool, Norwich e Sheffield Wednesday, até encararem o Manchester United na decisão. Robinson anotou o gol mais importante de sua carreira na semifinal, quando selou a viagem a Wembley. No primeiro jogo da final, Gary Stevens empatou aos azarões em 2 a 2 quando o relógio marcava 42 do segundo tempo. Depois disso, Gordon Smith ainda desperdiçou uma ótima chance de virar o placar após receber de Robbo. Sem pênaltis na época, os times voltariam a se encarar em Wembley cinco dias depois. Porém, no segundo embate, os Red Devils levaram a taça com a goleada por 4 a 0.

O bom futebol de Robinson, combinado com a queda do Brighton, o transformou em ótima aposta no mercado de transferências. Quem o levou foi o Liverpool, time mais poderoso da época, que procurava uma alternativa a Ian Rush e Kenny Dalglish em sua linha de frente. O novato não atuaria com tanta frequência em Anfield, diante da concorrência. Em compensação, teve o gosto de vestir a camisa de seu time de infância e de participar de outra temporada vitoriosa aos Reds. A equipe faturaria o Campeonato Inglês, a Copa da Liga e a Champions.

Robinson disputou 24 partidas pela Football League, com seis gols marcados, um deles no clássico contra o Everton. E as melhores memórias se concentravam nas aparições pela Champions, titular durante as fases iniciais. Contribuiu com dois gols na classificação sobre o Odense na primeira fase, além de enfrentar o Athletic Bilbao nas oitavas e também o Benfica nas quartas. Por fim, na decisão contra a Roma no Estádio Olímpico, Robbo teve a honra de substituir Dalglish durante a prorrogação. Foi o momento mais reluzente de sua trajetória, especialmente após a conquista selada nos pênaltis. Na volta para casa, o atacante ainda viveria uma história anedótica, ao esquecer o troféu no free shop do aeroporto por alguns minutos.

Aquela seria a única temporada completa de Robinson em Anfield. Foi tempo suficiente, também, para construir uma grande amizade com o capitão Graeme Souness, com quem seguiu em contato até o fim da vida. E também para deixar impressionados mesmo seus companheiros mais badalados. O atacante tinha uma especial facilidade para colocá-los em ótimas condições de balançar as redes. Não demorou a se integrar no ambiente de um elenco bastante competitivo, mas com a leveza de quem gostava de jogar no gol durante os treinos e costumava ler os programas de jogo a Dalglish nos vestiários.

Em busca de mais minutos em campo, Robinson se transferiu ao Queens Park Rangers na temporada 1984/85. Passou dois anos no clube londrino, figurando na primeira divisão, além de chegar a mais uma decisão na Copa da Liga. Naquela campanha, deixou marcado na memória da torcida um golaço contra o Chelsea, que eliminou os rivais nas quartas de final. Neste momento, também completava seis anos de seleção irlandesa, sua escolha no nível internacional por causa dos laços maternos. O atacante completou 24 partidas pela equipe nacional, mas se despediria pouco antes da classificação inédita à Euro 1988. Todavia, o camisa 9 acumulava lesões nos joelhos e sua carreira parecia fadada a um melancólico final em meados de 1986.

A nova vida de Robinson se iniciou em 1987, quando recebeu uma proposta para se juntar ao Osasuna. O centroavante sequer falava espanhol e precisaria se adaptar a um clube então desconhecido a ele, que costumava ocupar posições intermediárias na tabela de La Liga. A aclimatação foi imediata, marcada não apenas pela boa relação com os companheiros, como também pela rapidez com que passou a dominar o idioma. Robbo se sentiu em casa e isso se refletiu em campo. O estilo de jogo mais aguerrido praticado pela nova equipe (mais “à inglesa”) contribuiu ao camisa 9, assim como sua mentalidade competitiva impulsionou os colegas.

Os números de Robinson no Osasuna não impressionam tanto. Anotou sete gols na primeira temporada, quando a equipe se safou do descenso. Já em 1987/88, balançou as redes apenas duas vezes, mas foi importante na criação para levar os Rojillos a um histórico quinto lugar no Campeonato Espanhol. Encerraria sua carreira precocemente em janeiro de 1989, durante uma partida contra o Betis, ao absorver o impacto de uma queda no joelho fragilizado. Tinha 30 anos. Os amigos permaneciam, assim como o gosto pelo futebol. E a vida na Espanha não se limitaria àqueles dois anos e meio em Pamplona.

O convite para Robinson ingressar na televisão veio ainda em 1989, contratado como comentarista do Campeonato Inglês. Depois, também trabalharia na cobertura da TVE durante a Copa de 1990. O Mundial da Itália seria importante para que o ex-jogador sentisse o ambiente que circunda o futebol de maneira mais viva e que levasse os torcedores à tela. Também para apresentar sua visão diferenciada do esporte.

“Robinson não prendeu seu talento para a comunicação naquilo que viveu dentro de campo. Há milhões de futebolistas que comentam como podem, sem alcançar esse nível, mesmo aqueles que se aproximam. Para começar, foi o comentarista esportivo que paradoxalmente melhor falava espanhol. Sabia racionar seus julgamentos e evitava verborragia inútil. A mais de um, ele deu um sábio conselho: ‘Não nos dão o microfone para que falemos, mas que para possamos falar’. Num mundo onde impera como lei o lugar-comum, seu sotaque fugia dessa norma com brilhantes jogos de palavras e um vocabulário tão rico e certeiro que o elevava, quase sem querer, à magnitude do hilário e do poético”, descreveu El País, no obituário de Robinson.

Meses depois do Mundial de 1990, Robinson receberia o convite para se juntar à equipe do Canal+. A princípio, seria comentarista de La Liga. Até que o programa El Día Después aparecesse em seu caminho e marcasse sua história. Criado em outubro de 1990 para ser uma atração futebolística pós-rodada nas noites de segunda-feira, ‘El Día Después’ começou com Jorge Valdano em sua mesa de comentários. O argentino deixou o posto ao assumir o comando técnico do Tenerife e Michael Robinson o substituiu como analista tático, mas não só isso. Também fazia parte da produção e da redação. E era um comentarista da emoção nos estádios.

Não dá para limitar o programa como uma mera ‘mesa redonda’. Além dos lances dos jogos, ele seria repleto de histórias e imagens que passam despercebidas durante as transmissões – não só dentro de campo, como também nas arquibancadas. Com um estilo despojado e didático, Robin se transformou em um dos personagens mais queridos do jornalismo esportivo espanhol.

“Robinson descrevia o programa como um raio-x da sociedade. ‘É sobre um sentimento em comum, um programa de futebol livre dos impedimentos. El Día Después é para todo mundo: 30 milhões de espanhóis, não cinco pessoas que pensam que são donas do jogo. Erros de arbitragem são rugas no rosto de Paul Newman, pequenas imperfeições: não mudam a beleza’, ele dizia. A atração era divertida e falava sobre torcedores, não apenas sobre os jogadores. E isso era enorme. […] Não era apenas um programa, era quase um conceito, uma filosofia de vida e de futebol. Nem sempre foi fácil explicar o que ele estava tentando fazer, mas a forma era muito simples: era sobre diversão. Era otimista, positivo, animado, sem cinismo e recusando-se a zombar. Significava algo”, descreve o obituário do jornal The Guardian.

“Michael Robinson tinha um grande coração e amava contar histórias. Ele contava na televisão, no rádio e toda vez que você estava com ele. Histórias calorosas, engraçadas, humanas, Infinitamente. Ele podia falar e falar, embora também escutasse. Você não conseguia encontrá-lo para almoçar e voltar antes do jantar. Ele amava futebol, mas, acima de tudo, amava as pessoas, boas pessoas. O jogo, que ele entendeu e comunicou melhor do que qualquer um, foi a desculpa para tudo mais, ele dizia”, complementa o jornalista Syd Lowe. “Ele assistia, ouvia e lia sem parar. Respondia quando era tocado pelas histórias que outros contavam. Invariavelmente, foram quadros sobre a beleza, o sentimento ou a emoção que o levaram a pegar o telefone e compartilhar as histórias com os outros. Peças sobre pessoas, retratos que iam além do jogo. Ele era um mentor sem nunca querer ser ou ainda menos presumir esse posto”.

El Día Después sairia do ar em 2005, antes de retornar à grade em 2009. Neste intervalo, Michael Robinson passou a ter seu próprio programa, o ‘Informe Robinson’, com grandes reportagens em que o esporte em geral era o fio condutor de temas mais amplos sobre a vida e a sociedade – uma versão espanhola do antigo ‘Histórias do Esporte’, da ESPN. Além do mais, permanecia firme como comentarista na televisão espanhola. Cobriu grandes competições e teve um prazer especial durante a campanha do Liverpool na Champions em 2005. Após a vitória nas semifinais contra o Chelsea, que colocou os Reds na decisão continental após 21 anos, Robin sequer conseguiu comentar porque estava às lágrimas.

Robinson sentia-se um bocado espanhol e abraçou o modo de vida no novo país, mas o Liverpool permanecia como uma raiz forte na Inglaterra. Em dezembro de 2018, o comentarista anunciou que lutava contra um melanoma com metástase avançada. E quis a vida que seu último jogo de futebol dentro do estádio fosse exatamente em Anfield, ainda que não com o final mais feliz, na classificação do Atlético de Madrid às quartas de final da Champions League. O torcedor dos Reds, apesar disso, sabia também apreciar a beleza de uma vitória heroica.

“Era o que eu temia: pegamos o time mais masoquista da Europa, o que melhor sabe desfrutar sofrendo”, brincou o comentarista a Jesús Ruiz Mantilla, jornalista do El País, por telefone logo depois da derrota. No dia seguinte, Robinson sofreu um sinal preocupante da metástase no cérebro. Teria mais um mês e meio de vida. Segundo Souness, o amigo era bastante emotivo e nos últimos dias deixou de atender seus telefonemas. Até que a pior notícia viesse nesta terça.

Diante do falecimento, a comoção na Espanha e na Inglaterra são amplas. Diversos clubes se manifestaram em tributo, não apenas aqueles em que o ex-atacante jogou, mas também aqueles que comentou na TV. Além do mais, diversos esportistas anunciaram o luto, muitos deles personagens de El Día Después e do Informe Robinson. A sensibilidade da homenagem prestada por Rafael Nadal ou Andrés Iniesta mostra como os grandes nomes também eram fãs de seu trabalho. E era realmente muito fácil absorver a emoção transmitida por Robin.

Como conclui o obituário do jornal El País: “Será difícil aumentar o volume na televisão quando assistirmos a uma partida de agora em diante. A menos que a inteligência artificial desenvolva um clone que se assemelhe a ele e nos consolemos com esta ilusão de vez em quando, será triste e frustrante. Longe das cópias, o que Robinson leva consigo é a virtude a que tantos aspiram, mas permanece apenas a poucos eleitos: o dom do verdadeiro carisma e da mais poderosa autenticidade”.

Vale conferir também o post do amigo Emmanuel do Valle nas redes sociais do It’s A Goal

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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