Espanha

Federação espanhola anuncia projeto para ter um estádio próprio – o que soa totalmente desnecessário

O novo estádio teria capacidade de 30 mil a 40 mil espectadores, o que sequer serviria para a candidatura à Copa de 2030

A Espanha está muito bem servida de estádios. Há uma boa quantidade de novas arenas construídas ao longo da última década, enquanto as duas principais praças esportivas do país, Santiago Bernabéu e Camp Nou, passam por amplas reformas. Não à toa, os espanhóis estão entre os principais candidatos a sediar a Copa do Mundo de 2030. Porém, nesta semana, o presidente da federação espanhola lançou uma ideia que soa exagerada: Luis Rubiales anunciou, durante a Assembleia Geral da RFEF, que planeja a construção de um novo estádio nacional para ser utilizado exclusivamente pela seleção da Espanha.

Rubiales não deu muitos detalhes do projeto. Não há indicação do local onde seria construído o estádio e nem de prazos para a conclusão. Entretanto, o presidente da federação pediu apoio ao seu plano dentro da federação. A meta de Rubiales é apresentar o projeto durante a próxima Assembleia Geral da RFEF, em dezembro.

“Merecemos um estádio nacional com terreno próprio da federação e que seja sede da entidade. Apresentaremos o projeto em dezembro, para a compra de alguns terrenos onde se possa construir um novo estádio nacional. Merecemos ter um patrimônio e queremos que a Assembleia nos respalde na ideia de construir um estádio nacional. Queremos fazer, queremos um estádio entre 30 mil e 40 mil espectadores que tenha seus escritórios, que tenha não só o esportivo, mas também o administrativo”, declarou Rubiales.

Os pontos positivos e os muitos negativos

A tendência é de que o estádio possa receber as partidas da seleção da Espanha e também de outras equipes nacionais. Decisões de clubes poderão acontecer no local, como finais de playoffs de acesso e da Copa do Rei. Além disso, um novo estádio serviria como uma ferramenta comercial da própria federação para fazer dinheiro através de shows e de outros eventos. É o que existe na Inglaterra com Wembley e na França com o Stade de France.

No entanto, as chances de transformar o novo estádio num elefante branco desde já precisam ser contempladas. As principais cidades espanholas possuem pelo menos dois estádios aptos a grandes eventos – como o Bernabéu e o Metropolitano em Madri. Pelas dimensões estipuladas, a nova casa da federação não será grande o suficiente para partidas de maior porte – como a própria final da Copa do Rei. Acaba se sugerindo um gasto desnecessário e um caminho até para superfaturamento. Não parece aceitável nem mesmo com a possível Copa do Mundo no horizonte.

A federação espanhola teria outras questões mais necessárias a resolver, como priorizar o desenvolvimento dos jogadores e garantir um ambiente mais saudável nas arquibancadas – o que não se nota com os recorrentes episódios de racismo. Até pelas críticas costumeiras à gestão de Rubiales, a construção de um novo estádio soa bem mais como uma cortina de fumaça em relação aos inúmeros entraves e disputas internas. Mesmo que possa servir como um incremento das receitas, nem assim parece razoável, levando em conta o dinheiro que tende a ser gasto numa obra do tipo.

Outras opções para a seleção

Durante os últimos anos, a decisão da Copa do Rei aconteceu no Estádio Olímpico de La Cartuja, uma praça esportiva para 57 mil torcedores que pertence ao poder público e não costuma ter muita utilidade ao longo do ano. As partidas da Euro 2020 realizadas na Espanha foram sediadas no estádio andaluz, após a desistência de San Mamés. Já a seleção espanhola variou bastante de casa ao longo dos últimos anos – mandou partidas desde 2020 em Madri, Sevilha, Granada, Badajoz, A Coruña, Málaga e Zaragoza.

A construção de um novo estádio poderia garantir até uma sede fixa. Mas que, desde o princípio, surge como um projeto problemático. Melhorar as estruturas de La Cartuja seria um caminho mais viável, até por desonerar o poder público. Além disso, há quem defenda uma seleção itinerante que contemple vários cantos do país em seus compromissos. É a tradição mais comum da Espanha, que Rubiales pretende romper.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
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