Espanha

No olho do furacão

Não, esse texto não trará mais uma teoria da conspiração. Não há nada pessoal contra Ronaldinho, ninguém no Barcelona tem algo contra brasileiros ou sul-americanos e não há uma conjunção astral para pôr um fim na gloriosa passagem do meia-atacante gaúcho no Camp Nou. O que ocorre é que o jogador acabou sendo a vítima de uma série de fatores já esperados no complexo cenário que envolve o Barça.

Vamos aos fatos: apesar do bom desempenho na seleção brasileira, Ronaldinho não teve um grande início de temporada no Barcelona. Não se pode, porém, dizer que ele decepciona. Seu futebol é regular o suficiente para ajudar um time que ainda está engrenando com novos jogadores (sobretudo Henry e Yayá Touré) e vive na instabilidade comum de um início de temporada. De qualquer modo, a torcida está algo insatisfeita com o brasileiro, até porque todo esse time carrega a responsabilidade de ter perdido o Campeonato Espanhol 2006/7 que estava praticamente ganho.

A situação do gaúcho ficou particularmente ruim depois que ele voltou com uma contusão muscular dos amistosos que o Brasil fez contra Estados Unidos e México em Chicago e Boston. Ronaldinho ainda entrou em campo contra Osasuna e Lyon, dois jogos em que – de novo – teve atuações medianas (mas aceitáveis), mas começou-se a pôr em dúvida o comprometimento do jogador com seu clube.

Aí teve início a saraivada de acusações, que cresceram em um ritmo impressionantemente rápido. Um dia após a vitória do Barça sobre o Lyon pela Liga dos Campeões, o jornal La Vanguardia (um dos mais importantes e respeitados da Catalunha) informou que o brasileiro foi para a balada menos de 48 horas – prazo estipulado no regulamento interno do Barcelona – antes do jogo contra o Osasuna. A torcida não agüentou e passou a pedir uma atitude rígida da direção do clube.

Joan Laporta não tomou partido. Diz que Ronaldinho precisa de apoio, mas faz uma média com os torcedores ao comentar que o brasileiro não está em grande fase. O fato de o meia-atacante ter ficado de fora dos jogos contra Sevilla (último sábado) e Zaragoza (nesta quarta) por uma contusão na panturrilha. Para usar um bom carioquês, a torcida blaugrana tem a sensação de que seu principal astro é “chinelinho”.

Há grandes exageros. Ronaldinho não está jogando tão mal e o Barcelona não está em situação tão desesperadora. Quem conhece o jogador sabe que ele sempre foi adepto de noitadas, mas é inteligente e bem assessorado o suficiente para manter discrição sobre essa parte de sua vida e não permitir que ela prejudique seu futebol. Em resumo, não há grandes novidades e o que surpreende é como o caso ganhou corpo rapidamente.

Rijkaard afirmou que Ronaldinho precisa ser tratado com cuidado. Os companheiros de clube são mais enfáticos ao apoiá-lo. Argumentam que a vida pessoal dele não é da conta dos outros e, no caso de Messi (atual xodó de torcida e imprensa e grande amigo do ex-gremista), houve até homenagem o brasileiro na comemoração de seus gols contra o Sevilla.

Óbvio que o apoio dos colegas não é suficiente para interromper esse processo. Laporta segue tergiversando, anunciando apoio ao jogador de modo menos contundente do que seria desejável. A imprensa aproveita, sobretudo a madrilena (pode-se ler madridista), que adora alimentar qualquer faísca de crise em Les Corts. O Marca, por exemplo, deu a manchete “Mima a Dinho” (um trocadalho bem sacado, mas razoavelmente sacana) ao se referir ao modo como Rijkaard aceitou as explicações do brasileiro.

Além disso, cresceram de modo exponencial a quantidade de boatos dando conta que o jogador seria contratado pelo Chelsea. É uma reação quase instintiva da imprensa espanhola, que acha que qualquer atleta pode ser vendido a qualquer momento, sem ao menos refletir sobre a viabilidade do negócio. Nesse caso, que sentido teria o Chelsea ignorar sua crise interna para gastar milhões de libras em um jogador que só chegaria em dezembro e não poderia atuar na Liga dos Campeões?

Assis, irmão e empresário de Ronaldinho, insinuou que o caso só ganhou tal dimensão por interesse de pessoas ligadas ao clube em minar a força política de Sandro Rosell, ex-vice-presidente blaugrana que está brigado com Laporta, mas é o responsável pela ida do meia-atacante para o Barcelona e especula-se que pode liderar um grupo de oposição no clube.

É uma teoria viável, mas também devem ser considerados outros fatores. O primeiro é que Laporta cada vez mais dá sinais de que a vida política lhe atrai. Desse modo, suas atitudes e declarações se tornam gradualmente mais populistas, pensando demais no que o torcedor (e eleitor?) barcelonista pensa. Além disso, a imprensa precisa de fatos quentes para saciar a vontade do torcedor – blaugrana e não-blaugrana – de ver uma crise no Camp Nou.

No final das contas, o que fica evidente é que o Barcelona tem problemas. Desde o final da temporada passada já se sabia que o ambiente interno não era dos melhores e que a saída seria uma reformulação no elenco. A diretoria preferiu fechar os olhos, contratou Henry (mais um jogador para brigar por posição no ataque, setor de onde vem parte dos atritos) e quis convencer o torcedor de que tudo ficou bem. Não ficou.

Ronaldinho deve ficar no Barcelona. No entanto, o clube precisa reconhecer que há problemas internos e tomar atitudes para resolvê-los. Antes que o processo de degradação do ambiente atinja mais gente importante sem necessidade.

CURTAS

– A Câmara dos Deputados espanhola determinou que a RFEF (federação espanhola) deve reconhecer o título do Levante na Copa da Espanha Livre de 1937 como se fosse a Copa da Espanha. Entenda mais clicando aqui.

– O lateral-direito Miguel, do Valencia, disse que fuma desde os 13 anos e vai a noitadas todas as quintas.

– Discute-se no Real Madrid a eventual ida de Diarra para o banco. O motivo é religioso: como estamos no Ramadã, o volante não pode comer e beber durante o dia. Assim, fica debilitado fisicamente.

– Schuster disse que Diarra continua como titular, só que sua carga de treinos será aliviada.

– Veja a seleção Trivela da 4ª rodada do Campeonato Espanhol: Aouate (Deportivo de La Coruña); Pedro López (Valladolid), García Calvo (Valladolid) e Sergio Fernández (Zaragoza); Raúl García (Atlético de Madrid), Sisi (Valladolid), Agüero (Atlético de Madrid) e Matuzalém (Zaragoza); Messi (Barcelona), Rossi (Villarreal) e Javi Guerrero (Recreativo).

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Equipe Trivela

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