Espanha

Nada do que foi será

Campo Nou, 9 de março de 2008. O Barcelona enfrenta o Villarreal no duelo do segundo com o terceiro colocado do Campeonato Espanhol. Os blaugranas precisam da vitória para manter em 5 pontos a distância para o líder Real Madrid. No entanto, fazem uma apresentação terrível. Nada dá certo e até um atacante esforçado (e só isso) como Gille Franco é capaz de fazer a diferença. O mexicano sofreu o pênalti convertido por Marcos Senna. As incursões dos catalães eram estéreis, até porque Gonzalo Rodríguez e Godín anulavam o trio Ronaldinho-Eto’o-Henry (Messi estava contundido).

No segundo tempo. Iniesta, um dos poucos jogadores capaz de dar um fiapo de criatividade aos catalães em uma noite particularmente infeliz, avançou pela esquerda e cruzou para Xavi empatar a partida. No entanto, nada melhorou para o time de casa. A nove minutos do final, Tomasson aproveitou um contra-ataque e confirmou a vitória dos castellonenses. Melancolia em Les Corts, pois, novamente, o time mostrara impotência diante de seus problemas e via o rival Real Madrid se distanciar na classificação.

Ainda não é oficial, mas deve ser assim que ficará registrada a última partida de Ronaldinho com a camisa do Barcelona. Depois desse jogo, o meia-atacante foi excluído de algumas partidas do Barça por estar fora de forma ou por opção do técnico não justificada. Quando estava previsto seu retorno, o brasileiro sofreu uma suspeitíssima contusão muscular que – segundo o clube – o tirou do resto da temporada. A não ser que o diagnóstico mude repentinamente, Ronaldinho não volta a jogar tão cedo.

Não é de hoje que se sabe que não havia clima para Ronaldinho no Camp Nou. Foi um processo que se iniciou em 2005, quando os atritos políticos entre o presidente Joan Laporta e seu ex-vice Sandro Rosell respingaram no elenco. Publicamente, essa divisão interna do elenco blaugrana já era sabida desde a temporada passada, quando Eto’o estourou em uma entrevista coletiva e disse tudo o que podia e o que não podia sobre os conflitos no clube.

A falta de pulso do técnico Rijkaard só piorou o problema. Assim, o que se viu nesta temporada foi apenas um reflexo do que restou de Ronaldinho nesta briga. Sem prestígio com a diretoria, o meia-atacante simplesmente se negou a jogar. Ainda que não tenha feito isso declaramente, o fez psicologicamente. Fisicamente, ele foi titular em 13 partidas e entrou em outras quatro nas 31 rodadas do Campeonato Espanhol. Além disso, foi titular em quase todos os jogos da Liga dos Campeões. Mentalmente, Ronaldinho fez meia dúzia de jogos. No resto, sua cabeça já estava longe.

Um sinal de que o problema é mais psicológico do que de lesão – versão oficial do Barcelona – é como já pululam clubes interessados nos serviços do brasileiro. Se Ronaldinho realmente tivesse passado tanto tempo no departamento médico, ele estaria com problemas físicos crônicos e qualquer eventual comprador teria um pé atrás antes de colocá-lo na lista de compras do verão. Mas não é isso o que ocorre. Motivado para jogar, o gaúcho tem totais condições de recuperar o título de melhor do mundo. A Europa inteira sabe disso.

Na Itália, há uma informação de que já estaria tudo certo entre Barcelona, Ronaldinho e Milan. Na Espanha, ainda se fala em Manchester City e Chelsea. Não estranhe se o nome de outros clubes milionários aparecerem nas próximas semanas. Pode haver exageros, mas tudo indica que algumas dessas negociações sejam reais. Ainda que a imprensa espanhola goste de especulações, há uma constatação interessante: é um caso raro de informação que jornais de Madri e Barcelona caminham na mesma direção. No caso, todos dizem que Ronaldinho está fora dos planos blaugranas.

Juntando os pontos, há fortes indícios de que a tal “contusão muscular” de Ronaldinho foi só um pretexto para afastá-lo definitivamente do elenco. Talvez clube e jogador tenham concluído que era melhor romper logo do que arrastar uma relação artificial por mais um tempo. Ou seja, a anônima, melancólica e triste partida contra o Villarreal foi a última de um jogador que ficará marcado como um dos maiores da história do Barcelona. Se os torcedores soubessem disse de antemão, teriam, ao menos, visto esse encontro de outra maneira. Algo para registrar melhor a despedida de Ronaldinho.

Xô, pressão

No pálido empate do Barça em casa contra o Getafe, a torcida blaugrana fez a primeira pañolada (agitar panos como sinal de protesto, um gesto inspirado nas touradas) da gestão de Joan Laporta. Um fato bastante significativo em um país que leva a série tais manifestações e em um clube que vive de seus sócios – a maioria deles entre os torcedores que agitavam lenços.

Pensou-se até se Laporta pediria renúncia, mas (óbvio) isso não ocorreu. Primeiro, o presidente culé tirou o poder das penyas (espécie de fãs-clubes mais ou menos oficiais) barcelonistas e não faria sentido tomar uma atitude radical por causa de uma manifestação dos torcedores. Além disso, ele tem mais dois anos de mandato e planeja cumpri-los. Tanto que já articula as mudanças para a próxima temporada.

A saída de Ronaldinho é a medida mais clara. Mas outras já se ensaiam. A principal é a sucessão de Rijkaard. Na reunião mundial de penyas barcelonistas, na última semana, Laporta disse que José Mourinho e Rafa Benítez não têm perfil de técnicos para o Barcelona. Oficialmente, ele diz preferir alguém que monte times mais ofensivos.

No entanto, as atitudes do dirigente indicam que, na verdade, ele tem apreço maior por treinadores discretos, que não tragam consigo a obrigação de conquistar títulos imediatamente. Ver um técnico de peso no banco de reservas logo dá à torcida a esperança de ter um esquadrão em campo. Um tipo de cobrança que, diante da experiência recente, Laporta prefere evitar. Com um nome desconhecido, o time teria tempo para se montar aos poucos e uma eventual derrota seria atenuada pela falta de pretensão e expectativa no início da temporada.

Assim, quem ganha espaço é Josep Guardiola, ex-meia do Barcelona e atual técnico do Barcelona B. O nome seria um consenso pela personalidade discreta e pela relação íntima com o Barça. Além disso, a torcida teria mais paciência com ele do que com qualquer outro. De qualquer modo, não é o único nome especulado. Michael Laudrup, comandante da grande temporada do Getafe, e Mourinho, que tem simpatizantes na diretoria, ainda têm força.

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Equipe Trivela

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