Espanha

Mercado em baixa

Milhares de torcedores se deslocam para o estádio. Não é dia de clássico ou de partida importante. Aliás, nem dia de partida é. Mas a multidão sente uma necessidade visceral de dar um caloroso “olá, seja bem vindo” ao novo craque. A Espanha viu muito essa cena no último verão. Os casos mais famosos foram os de Real Madrid (Cristiano Ronaldo, Kaká e Benzema) e Barcelona (Ibrahimovic), mas até o Espanyol, com Nakamura, se deu o direito de fazer sua festa.

Cinco meses depois, parece pouco provável que o fenômeno se repita. O mercado de inverno do futebol espanhol não dá sinais de que será agitado. Dirigentes não apresentam muito apetite e a sensação é que os torcedores verão, no segundo turno, equipes parecidas com as que disputaram o primeiro. Pelo menos no papel.

Boa parte disso se deve a Real Madrid e Barcelona, equipes que realmente poderiam fazer uma contratação bombástica. Os presidentes Florentino Pérez e Joan Laporta declararam que estão satisfeitos com seus elencos. O madridista defende que gastar muito dinheiro nessa época do ano é reconhecer fraquezas da equipe. O barcelonista diz preferir dar espaço para os jovens que saem de La Masía, CT das categorias de base blaugranas.

Ambos têm razão. Pérez gosta de gastar mais dinheiro do que as pessoas acham que o Real Madrid tem, mas daria argumentos aos opositores se, depois de realizar duas das três maiores contratações da história em duas semanas, investisse muito mais em reforços. Até porque foi essa a política de seu antecessor, Ramón Calderón. Há um ano, o ex-presidente tirou quase € 50 milhões dos cofres merengues para levar Huntelaar (fracasso) e Lassana Diarra (que está bem, mas chegou a preço acima de mercado).

Mais que as questões políticas, porém, o mais importante em Chamartín é que não há muitos motivos para desconfiar da atual equipe. O Real oscilou nessa primeira metade de temporada e Manuel Pellegrini quase caiu, mas o clube tem três argumentos fortes para manter a confiança: a) Cristiano Ronaldo e Kaká se contundiram muito e, por isso, tiveram menos oportunidades para afinar o entrosamento; b) no clássico contra o Barcelona, fora de casa, o time se comportou bem e mostrou ser competitivo; c) parte dos problemas está ligada à falta de um artilheiro, e pode ser resolvida se Raúl voltar à boa fase (ou se Benzema se encontrar).

Sinal da tranquilidade madridista está no noticiário de Marca e As, jornais pró-Real que nunca tiveram pudor de publicar especulações – muitas estapafúrdias e exageradas. Somando o que ambos noticiam, estariam na mira dos blancos apenas David Luiz (Benfica), André Santos (Fenerbahçe) e Ivanovic (Chelsea). Ou seja, jogadores para compor o elenco. O único nome realmente bombástico seria Fàbregas (veja nota na coluna ao lado).

No Barcelona, há menos motivo ainda para desespero. O clube manteve a base campeã europeia e investiu no banco de reservas ainda no verão, contratando Chygrynskyi e Maxwell e dando oportunidades a garotos como Jonathan e Jeffren. Como a equipe lidera o Campeonato Espanhol, foi campeã do mundo e está nas oitavas de final da Liga dos Campeões, precisa ser mantido.

Os “mortais”

O fato de Real Madrid e Barcelona não gastarem acaba influenciando as demais equipes (clique aqui para entender), até porque a crise econômica mundial ainda não deixou a Europa (deve ser o último continente a se livrar dela) e os médios e pequenos acabam sentindo mais a retração do consumo. Além disso, questões pontuais de alguns clubes ajudam a completar o cenário pouco agitado do mercado de inverno.

O Zaragoza pinta como único time a fazer alterações significativas no elenco. Pela força da equipe maña no papel, um rebaixamento seria inconcebível – e grave para as finanças do clube. Assim, a diretoria sinaliza com investimento acima da média, o que deve ser encarado como “mal menor”. O chileno Humberto Suazo já foi contratado e a lista de compras ainda inclui nomes como Macheda e Keirrison.

As demais equipes ameaçadas de rebaixamento estão menos ousadas. Málaga, Xerez, Tenerife, Valladolid e Almería (e alguns outros que ainda podem entrar nessa briga) parecem conformados com suas situações. Como o nível técnico nessa parte da tabela está bastante baixo, é possível que os atuais elencos dêem conta, desde que os times se organizem. Além disso, é palpável o temor de se gastar muito para fugir da queda e ela acabar ocorrendo do mesmo jeito. Uma situação que sempre destrói as finanças de clubes já fragilizados.

Nem entre os que sonham com a Liga dos Campeões o mercado de inverno foi muito aguardado. O Sevilla não deve mudar sua política de priorizar o planejamento. No máximo, procurará um substituto para Sérgio Sánchez, afastado por problema cardíaco. O Atlético de Madrid, sempre sedento, pretende investir um pouco (já contratou Tiago, por exemplo), mas a recuperação no Campeonato Espanhol pode esfriar os ânimos no Vicente Calderón. Deportivo de La Coruña, Villarreal e Mallorca não têm muito mais o que gastar. E o Valencia está rezando para a temporada chegar logo e a Espanha fazer uma grande Copa para o valor de mercado dos Davids (Silva e Villa) irem à termosfera. Os Ches precisam equacionar seus problemas financeiros.

Se a tendência de pouca movimentação de mercado se confirmar, o futebol espanhol tira o foco dos dirigentes. Sem mudanças radicais nos elencos, jogadores e comissões técnicas é que se responsabilizarão por evolução ou involução dos times. Na verdade, é quase sempre assim. Mas, em um país que valoriza tanto o trabalho da cartolagem, é uma mudança de enfoque.

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Equipe Trivela

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