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Líder do Espanhol, o Eibar ganha prêmio por ser modelo em meio a tantos clubes quebrados

O Campeonato Espanhol encerra a sua primeira rodada sem Barcelona e Real Madrid na liderança. Ou mesmo outros graúdos, como Atlético de Madrid, Valencia, Sevilla e Athletic Bilbao. A honra de terminar a semana inicial na ponta é do pequeno Éibar. O clube que terminou 2014/15 rebaixado, mas voltou após os problemas financeiros do Elche e estreou vencendo o Granada por 3 a 1 fora de casa. A cidade basca de 27 mil habitantes se torna a menor a liderar o Campeonato Espanhol desde 1929, ano de sua primeira edição, quando o Arenas (de Getxo, na época com 16 mil moradores) chegou a ficar no primeiro posto. Não representa nada de mais para a sequência de La Liga. Mas vale bastante para o Éibar, diante do exemplo que o clube dá.

Vale ponderar que a primeira rodada do Campeonato Espanhol esteve muito abaixo das expectativas. Foram apenas 12 gols em 10 jogos, uma média baixíssima, e ainda salva pelos últimos duelos – já que, nas sete primeiras partidas realizadas, foram somente três tentos. Os goleiros se destacaram, é verdade, mas os ataques também ficaram devendo bastante. No fim das contas, acabou pesando os dois gols de diferença do Eibar, em uma vitória importante, mas não tão surpreendente assim. Pelo desleixo dos outros, os nanicos assumem a ponta.

VEJA TAMBÉM: Punir o sustentável Eibar só mostra como a estrutura do futebol espanhol está podre

Mas não dá para dizer que o Eibar não tem os seus méritos. Eles estão especialmente na presença do clube na primeira divisão e na maneira como gere as suas contas. Em 2013/14, quando conquistaram o inédito acesso à elite (o segundo consecutivo, após já terem vindo da terceira em 2012/13), os bascos correram o risco de perder a vaga. E não era exatamente por problemas financeiros, mas porque o capital não atingia o mínimo exigido pela liga. Questão contornada pelos próprios torcedores, através da venda de ações, sem que a diretoria precisasse colocar o clube à venda para algum magnata. A despeito da concorrência muito mais endinheirada, o Eibar nunca deu um passo maior do que as pernas no Espanhol.

Em um país no qual os clubes, principalmente os médios e pequenos, acumulam dívidas públicas enormes por conta da complacência do poder, o Eibar se diferencia. Não recorreu a empréstimos exagerados e nem deu o calote em seus jogadores para montar um elenco à primeira divisão. Ateve-se à própria realidade, mesmo dono de um estádio para apenas 5,2 mil espectadores – que, mesmo assim, manteve a maior ocupação média do campeonato, batendo os 91%. E até fez um início de campanha muito digno, chegando a ocupar a oitava colocação ao final do primeiro turno. Contudo, as 15 derrotas no segundo turno fizeram a equipe despencar. Nem a vitória por 3 a 0 sobre o Córdoba na rodada final foi o suficiente para a salvação, em uma situação dramática em que dependia de um gol do Barcelona ou do Deportivo de La Coruña no mesmo jogo.

No fim das contas, a queda do Elche acabou como um prêmio por vias tortas. Em campo, o Eibar não merecia a permanência na primeira divisão. Mas não precisou estourar suas contas, como os adversários fizeram. Voltaram, e de cabeça erguida. Para ter o gostinho da liderança a partir desta segunda. Independente da tabela atual, os bascos têm uma briga ferrenha contra o rebaixamento, com um elenco que tem o segundo valor de mercado mais baixo da competição. Ainda assim, possuem todo o direito de aproveitar o momento. Em um campeonato que sofre com a disparidade financeira, especialmente diante da distribuição do dinheiro de TV e do privilégio dos grandes junto aos governos, sobreviver sem depender de dinheiro público ou de calotes já é uma grande vitória em si. Ainda mais no topo da tabela.

Vale conferir esta reportagem produzida pelo excelente canal Copa90, que explica melhor a estrutura do Eibar:

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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