Espanha

‘Terreno fértil para grupos de extrema-direita’: Espanha x Egito é marcado pelo racismo

Amistoso foi palco de gritos xenofóbicos e levantou debate sobre proliferação de discursos de ódio no futebol

O amistoso entre Espanha e Egito, na última segunda-feira (31), passaria despercebido com a bola rolando, já que teve poucas emoções e terminou em um empate empate sem gols. Entretanto, um cântico racista entoado pelas arquibancadas ganhou repercussão internacional.

— Quem não pular é muçulmano — gritou parte da torcida no RCDE Stadium, do Espanyol, em Barcelona.

Lamine Yamal abalado com xenofobia em Espanha x Egito

O retorno da seleção espanhola à Catalunha após 18 anos ficou marcado pelo slogan xenofóbico, que começou aos 10 minutos do 1º tempo. Pouco tempo depois, o cântico ganhou força entre os torcedores e foi entoado mais uma vez.

Durante o intervalo, o telão do estádio transmitiu a seguinte mensagem: “É importante lembrar que a legislação para a prevenção da violência no esporte proíbe e pune a participação ativa em atos violentos, xenófobos, homofóbicos ou racistas“.

Mesmo assim, o grito racista se repetiu nos primeiros minutos do 2º tempo. Contudo, desta vez, grande parte da torcida respondeu com vaias à provocação preconceituosa, e o sistema de som do RCDE Stadium verbalizou o comunicado transmitido anteriormente.

Lamine Yamal, que é muçulmano, ficou visivelmente abalado com o episódio. O craque do Barcelona começou como titular, mas foi substituído por Luis de la Fuente antes mesmo da etapa final. Após o fim do amistoso, a joia espanhola foi para o vestiário desolado. Ele se manifestou em suas redes sociais engrandecendo sua fé:

Eu sou muçulmano, louvado seja Alá. Ontem (31) no estádio se escutou o cântico de “quem não pula é muçulmano”. Sei que era contra a equipe rival (Egito) e não era algo pessoal contra mim, mas, como pessoa muçulmana, não deixa de ser uma falta de respeito e algo intolerável.

Entendo que não é toda a torcida que é assim, mas para os que cantam essas coisas: usar uma religão como piada em um campo os faz parecer pessoas ignorantes e racistas. O futebol é lugar para desfrutar e ser feliz, não para falta de respeito ao outro por ser quem é ou por algo em que acredita.

Dito isso, obrigado aos que foram torcer por nós, nos vemos no Mundial”, escreveu o atacante do Barça em seu Instagram.

A Real Federação Espanhola de Futebol (RFEF) publicou uma mensagem em seu perfil online condenando o “racismo e qualquer ato de violência nos estádios”. Entretanto, a cidade, a seleção e todo a nação tiveram sua imagem manchada por mais outro caso de racismo. Em 2030, o país será uma das sedes da Copa do Mundo, juntamente com Portugal e Marrocos, no qual a religião islâmica é a predominante.

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Ministro associa crescimento de discursos de ódio à ascensão da extrema-direita

Berni Álvarez, Ministro do Esporte da Catalunha (Foto: Imago/ZUMA Press Wire)
Berni Álvarez, Ministro do Esporte da Catalunha (Foto: Imago/ZUMA Press Wire)

Já nesta quarta-feira (1), o Ministro do Esporte da Catalunha, Berni Álvarez, expressou sua “profunda indignação” com o ocorrido no jogo contra os egípcios. Ele também argumentou que a demora na ativação de protocolos contribuiu para a insistência no cântico preconceituoso.

— (As ações) deveriam ter sido tomadas antes. Se a situação tivesse continuado, a partida deveria ter sido interrompida. Devemos ser firmes com esse tipo de comportamento — começou Álvarez.

Além de defender uma resposta logo após o primeiro grito racista, o ministro também associou o crescimento de discursos de ódio no futebol à ascensão da extrema-direita. Ele garante que trabalha em parceria com a RFEF e LaLiga para coibir o preconceito no esporte.

— O mundo do futebol, infelizmente, está se tornando um terreno fértil para grupos de extrema-direita e um veículo para discursos de ódio, algo que devemos impedir — concluiu Berni Álvarez.

Investigação em andamento

Torcedores espanhóis durante amistoso contra seleção egípcia (Foto: Imago/AgenciaLOF)
Torcedores espanhóis durante amistoso contra seleção egípcia (Foto: Imago/AgenciaLOF)

Os Mossos d’Esquadra, força policial catalã autônoma, abriram investigações após os cânticos islamofóbicos e xenófobos. O Código Disciplinar da Fifa estipula que tanto federações, quanto clubes podem ser sancionados, mesmo que consigam provar que não houve culpa ou negligência de sua parte.

Essa regra se aplica quando um ou mais torcedores “se envolvem em condutas que violam a dignidade ou a integridade de um país, pessoa ou grupo, seja por meio de expressões ou atos ofensivos, discriminatórios ou humilhantes, baseados em fatores como raça, cor da pele, origem, gênero ou religião, entre outros”.

Entre as possíveis punições, o regulamento prevê que uma primeira infração pode acarretar em uma partida realizada com capacidade reduzida e uma multa mínima de 20.000 francos suíços (cerca de R$ 130 mil). As consequências são mais severas para reincidentes ou situação consideradas graves.

Nesses cenários, a Fifa pode implementar programas preventivos; aplicar novas sanções financeiras; deduzir pontos (no caso de clubes) ou obrigar a realização de jogos com portões fechados. No caso da seleção da Espanha, a súmula da arbitragem será analisada para determinar a sanção.

Foto de Matheus Cristianini

Matheus CristianiniRedator

Jornalista formado pela Unesp, com passagens por Antenados no Futebol, Bolavip Brasil, Minha Torcida e Esportelândia. Na Trivela, é redator de futebol nacional e internacional.

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