La Liga

Torcida do Sevilla realiza grande protesto contra a venda do clube, que põe em risco seu estádio

No domingo, o Sevilla derrotou o Girona por 2 a 0 e reafirmou sua posição na vice-liderança do Campeonato Espanhol. A noite no Estádio Ramón Sánchez-Pizjuán, entretanto, teve uma importância bem maior do que o mero resultado. Ao longo das últimas semanas, os protestos são comuns entre os torcedores rojiblancos. Eles se opõem à chegada de uma companhia estrangeira, de origens pouco claras e que botaria em risco a permanência no estádio. Assim, o compromisso no final de semana marcou a mais contundente das manifestações realizadas até o momento. Os andaluzes levaram faixas e cartazes, além de organizarem uma passeata para escancarar sua insatisfação.

Desde 1992, o Sevilla (como os demais clubes espanhóis) funciona como uma sociedade anônima desportiva. Atualmente, o clube está dividido entre diversos acionistas. A maior fatia está entre os acionistas minoritários, detentores de 39% do total da agremiação. Os outros 61% das ações se dividem entre empresários e famílias influentes nos bastidores. Nos últimos meses, entretanto, surgiu um novo protagonista no cenário: o grupo chamado “Sevillistas Unidos 2020”, uma sociedade offshore com sede em Delaware (estado considerado um paraíso fiscal dentro dos Estados Unidos) e representada por um advogado madrileno.

A Sevillistas Unidos 2020 participou da reunião mais recente da Junta Diretiva, realizada na última semana. E parte dos demais proprietários sinalizaram sua abertura ao novo grupo. A obscura companhia americana possui o apoio do próprio presidente José Castro. E a cisão com os acionistas minoritários ficou clara quando, durante a reunião, os proprietários se negaram a modificar o artigo 18 dos estatutos do clube. Segundo este, apenas 50,01% do acionariado precisa entrar em consenso para a venda do patrimônio do clube, não os 75% solicitados por grupos de minoritários.

Ao longo dos últimos meses, a Sevillistas Unidos 2020 comprou 6% das ações de minoritários e investe para aumentar sua participação. Segundo os relatos, os potenciais vendedores recebiam uma ligação em nome do presidente José Castro, declarando que a venda das ações contribuiria para a estabilidade do Sevilla. Em contrapartida, o documento de venda vinha com o nome de Andrés Blázquez Ceballos, até então um desconhecido dos andaluzes. Blázquez Ceballos é justamente o advogado madrileno que representa a sociedade offshore. Muitos acionistas minoritários se sentiram enganados com a manobra.

Os acionistas minoritários acusam Castro e outros proprietários majoritários de se aproveitarem da situação para especularem com o Sevilla. O próprio Castro cooperaria por baixo dos panos com o Sevillistas Unidos 2020, mesmo que seu nome não apareça oficialmente entre os membros do grupo. Conforme as denúncias, a sociedade offshore estaria comprando as ações minoritárias a um preço menor do que o real. Os demais proprietários entrariam depois no processo de venda, com alguns já cogitando aceitar a oferta dos americanos.

Ainda não há muita clareza sobre os compradores estrangeiros ou mesmo sobre qual será a postura em relação ao patrimônio dos andaluzes. O Estádio Ramón Sánchez-Pizjuán entra na berlinda. Quando a sociedade anônima desportiva ao redor do Sevilla foi criada, a intenção dos acionistas minoritários ao se juntar era justamente a de garantir a permanência do clube na sua casa histórica, diante dos riscos com a especulação imobiliária. Ante as transformações na direção, os novos donos poderiam colocar esta segurança em risco.

Os protestos do Sevilla são organizados pelo grupo Acionistas Unidos, que reúne parte dos acionistas minoritários e diferentes grupos de torcidas. A Biris Norte, principal grupo de ultras dos rojiblancos, também se envolve no movimento. Foram estas as organizações responsáveis pelas manifestações recentes no Estádio Ramón Sánchez-Pizjuán, que ganharam novas proporções no duelo contra o Krasnodar pela rodada final da fase de grupos da Liga Europa e (principalmente) no encontro com o Girona pelo Campeonato Espanhol. Os dois jogos surgiram como as primeiras oportunidades de se opor às decisões tomadas na reunião da Junta Diretiva.

“De um sevillismo de base muito mobilizado, ainda há expectativas de que os sete proprietários majoritários do capital social do Sevilla ‘preservem o bem comum’, como mencionou Castro em seu discurso na Junta de dezembro de 2017. O presidente também disse que a ‘estabilidade é chave’, mas agora o que os sete conseguiram é uma ruptura total, entre a nova Junta Diretiva muito unida e o sevillismo de base. O caminho mais curto para fechar o rombo entre majoritários e o resto do sevillismo é blindar o Ramón Sánchez-Pizjuán e o centro de treinamentos. O sevillismo se expressou e demanda ações, mais do que palavras. A bola está no telhado dos majoritários”, escreveu o Acionistas Unidos, pressionando a Junta Diretiva por não proteger o patrimônio.

O imbróglio deverá se desenrolar por meses. Em tempos nos quais vários empresários estrangeiros desembarcam no futebol espanhol (o que, por si, não é necessariamente ruim), as chances de uma participação crescente do Sevillistas Unidos 2020 parece inescapável. Resta esclarecer quem é o grupo e quais as suas reais ideias na direção dos andaluzes. Diante da incerteza e dos riscos que surgem, os torcedores rojiblancos preferem não ficar parados e defender os seus interesses. Sobretudo, defender o estádio onde sustentam a sua história.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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