La Liga

Simeone renova com o Atleti: um dos casamentos mais belos do futebol continua um sucesso

Diego Simeone assinou com o Atlético de Madrid até 2027, o que o levaria a ficar 15 anos seguidos à frente do clube

Diego Simeone construiu uma dinastia no Atlético de Madrid. É o treinador mais importante da história do clube e elevou o patamar dos colchoneros a ambições inéditas. Lá se vão quase 12 anos desde a chegada de Cholo ao Vicente Calderón, inaugurando também uma nova era com a mudança ao Metropolitano. A aura do ídolo nos tempos de jogador se ampliou ainda mais como técnico. E seguirá por mais tempo. Nesta quinta-feira, o Atleti anunciou a renovação de Simeone. Seu novo contrato vai até junho de 2027 – o que significaria pelo menos 15 anos de trabalho, se todo o período se cumprir.

Em certos momentos, o cargo de Simeone no Atlético de Madrid pareceu questionado. Contudo, tais dúvidas se indicavam ser mais externas do que internas. Mesmo em períodos turbulentos, o argentino recebeu respaldo. E, afinal, o patamar dos colchoneros não baixou. O Atleti continua se classificando a cada temporada para a Champions League. Também faz campanhas relevantes nos torneios continentais e, por vezes, sonha com o título de La Liga. É o caso da atual campanha. Desde o início do ano, Cholo permite aos rojiblancos viverem uma das melhores fases desde que chegou ao banco de reservas. É um futebol agressivo, talvez o mais vistoso nesses quase 12 anos de trabalho.

Se não havia razões para mudar de treinador, ainda mais agora, a renovação de Simeone se torna mais do que natural. A sequência de resultados referenda o argentino, mais uma vez. Com um jogo a menos, a equipe segue no páreo no topo da tabela de La Liga, apesar de alguns tropeços pontuais. Já na Champions, a goleada sobre o Celtic animou e o time se aproxima outra vez das oitavas de final. O que se nota em campo permite sonhos altos. Simeone foi muito bem para encaixar novas peças nesta temporada, inclusive jovens e atletas que estavam emprestados. Além disso, alguns dos protagonistas atingem níveis estelares, sobretudo Álvaro Morata e Antoine Griezmann. O Atleti permanece como candidato a novos troféus.

E a conexão parece ainda mais forte nos últimos tempos. Simeone chegou a ser cotado para assumir outros clubes, mas atualmente seu nome é menos especulado. Assim, nem parece fazer muito sentido a sua saída do Metropolitano. É esperado que a parceria se amplie por mais temporadas, até pela maneira como o casamento continua dando certo. Obviamente, um período tão longo gera atritos e desgastes. Todavia, Cholo também tenta se reinventar. Isso é notável para que a confiança se preserve.

Que Simeone não seja o treinador mais arrojado, chamá-lo apenas de defensivista é injusto. O trabalho já teve diferentes faces nos últimos 12 anos, especialmente no ciclo mais recente, que resultou na conquista de La Liga em 2020/21. E, tecnicamente, o que o Atlético de Madrid propõe nas últimas partidas agrada. Não é um time com o orçamento de Real Madrid e Barcelona, nem com a capacidade para atrair jogadores dos dois maiores concorrentes. Mesmo assim, colocar o Atleti nesse patamar por anos a fio é algo muito grande. Nada mais justo que recompensar Simeone com um vínculo mais longo.

Há mesmo um esforço da parte de Simeone. Conforme o jornal El País, o treinador aceitou uma redução salarial para se enquadrar nos parâmetros atuais do clube. Obviamente ele continuará ganhando muito bem, mas reduziu um quarto de seus pagamentos anuais, de €16,5 milhões líquidos para €12 milhões líquidos. Mostra como a relação está acima das cifras, até porque o projeto continua sendo construído.

O que o Atlético de Madrid falou

“Diego Pablo Simeone continuará sendo treinador de nosso clube até 30 de junho de 2027. O técnico argentino assinou seu novo contrato nos escritórios do Civitas Metropolitano, rubricando assim a continuidade do projeto que começou com sua chegada ao banco de reservas rojiblanco em dezembro de 2011”.

“Desde então, nossa instituição atravessa um de seus períodos mais exitosos, ao longo do qual conquistamos oito títulos: duas Ligas (2013/14, 2020/21), uma Copa do Rei (2012/13), duas Ligas Europa (2011/12, 2017/18), duas Supercopas da Europa (2012, 2018) e uma Supercopa da Espanha (2014). A esses títulos se somam duas finais de Champions League, em 2014 e 2016, feitos que nos permitiram alcançar o segundo lugar no Ranking de Clubes da Uefa”.

“Até esta data, já são 642 partidas que ele nos dirigiu, conseguindo 380 triunfos e sofrendo apenas 18{62c8655f4c639e3fda489f5d8fe68d7c075824c49f0ccb35bdb79e0b9bb418db} de derrotas. Desta maneira, Simeone não é apenas o técnico que mais vezes treinou a nossa equipe em partidas oficiais – superando as 612 de Luis Aragonés – como também é o mais vitorioso e que por mais temporadas consecutivas segue dirigindo uma mesma equipe de La Liga atualmente”.

“Da mesma forma, desde a sua primeira temporada no banco rojiblanco, nossa equipe sempre conseguiu a classificação para a fase de grupos da Liga dos Campeões, um feito que nas últimas 11 campanhas só igualam Manchester City, Bayern de Munique, Barcelona, Real Madrid e Paris Saint-Germain”.

O tamanho de Simeone na história

O último técnico do Atlético de Madrid antes de Diego Simeone foi Gregorio Manzano. O veterano tinha um trabalho anterior no Vicente Calderón e até possuía também uma história bonita no Mallorca, mas não ficou mais do que seis meses no cargo. Mostra como, até a vinda de Simeone, a capacidade no comando dos colchoneros era bem inferior. As trocas de treinadores eram uma constante nos colchoneros. Depois de Radomir Antic, que fez história nos anos 1990 tendo o próprio Simeone em campo, apenas dois técnicos superaram as 100 partidas pelo Atleti de 1998 a 2011. Simeone multiplicou esse número por seis.

O único parâmetro a Simeone na história do Atlético de Madrid é mesmo Luis Aragonés. Como jogador, o espanhol foi mais ídolo dos colchoneros e liderou o time à primeira final de Copa dos Campeões da história do clube, em 1973/74. Já como treinador, Aragonés teve sete passagens pelo banco de reservas, mas nunca ficou mais de quatro anos consecutivos no cargo. Teve feitos relevantes, com um troféu de La Liga e três na Copa do Rei, assim como voltou para resgatar o time do coração na segundona em 2001/02. Entretanto, em termos de regularidade e relevância internacional, a imponência de Simeone é maior.

A longevidade de Simeone no Atlético de Madrid é algo raro na própria história do futebol. Na Espanha, apenas Miguel Múñoz teve uma passagem mais longa pelos grandes clubes do país, com 14 anos à frente do Real Madrid. Não parece difícil para Cholo superá-lo, mesmo encarando o imediatismo do futebol contemporâneo e mesmo com menos troféus para sustentá-lo. O parâmetro para Simeone pode ser mesmo o de revolucionários de outros países. O tamanho do que realiza no Atleti é parecido, por exemplo, com o que conseguiu Arsène Wenger no Arsenal. Digno de estátua, o que deve acontecer dentro de algum tempo.

Diante de tudo disso, o Atlético de Madrid faz bem de manter Simeone motivado e com novos objetivos em mente. O desgaste, mesmo que exista, é bastante inferior à capacidade do treinador. É um cara que fez o Atleti peitar Barcelona e Real Madrid, em tempos de abismos financeiros tão grandes, e que na verdade ajudou os colchoneros a alavancarem sua própria condição econômica. Por aquilo que se via na virada da década, o Atlético se encontrava abaixo mesmo de oponentes como Sevilla, Valencia e Deportivo de La Coruña. Simeone encabeçou um processo no qual os rojiblancos deixaram todos esses para trás – e, por vezes também, merengues e blaugranas.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
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