La Liga

Simeone e uma longa conversa sobre seus conceitos como treinador: “Não somos pais para os jogadores, mas sim condutores”

Em diálogo com Vicente del Bosque para o jornal El País, Simeone falou sobre suas ideias e sua trajetória

Ver um treinador completar dez anos à frente da mesma equipe é feito raríssimo. Na história do Campeonato Espanhol, então, contam-se nos dedos aqueles que completaram tal cifra. Diego Simeone construiu uma trajetória única no Atlético de Madrid, alicerçada sobre seu passado como jogador, mas edificada por uma revolução vivida pelo clube na última década. O Atleti deu um salto em conquistas e grandeza, com a estabilidade garantida pelo argentino no banco de reservas. As taças voltaram a ser erguidas pelos colchoneros com uma frequência vivida apenas no passado, e com reinvenções dentro do próprio trabalho de Cholo. Sua importância dentro do Metropolitano é tão imensurável quanto sua idolatria.

Caso cumpra seu contrato até o final, renovado recentemente até 2024, Simeone alcançará o lendário Miguel Múñoz (comandante do Real Madrid a partir de 1960) como o mais longevo treinador da história do futebol espanhol, ambos com 14 anos na casamata. O argentino já teve outros momentos mais badalados no mercado, mas, atualmente, parece bem mais concentrado em ampliar seu legado com os rojiblancos. E mais interessante que filosofias de jogo é a gestão realizada por Cholo, capaz de renovar a mentalidade de sua equipe de maneira contínua por tanto tempo.

Nesta semana, Simeone concedeu uma longa entrevista ao jornal El País. A conversa foi conduzida por ninguém menos que Vicente del Bosque, o treinador que ampliou os horizontes da Espanha com o Mundial de 2010 e a Eurocopa de 2012. O mais interessante é entender, numa conversa franca com outro par, a maneira como Cholo conduz seu trabalho depois de tanto tempo no Atlético. Abaixo, traduzimos diversos trechos:

Os treinadores como condutores

“Nós, como treinadores, não somos pais para os jogadores, mas sim condutores. As palavras valem pouco, o vento leva. O que fica são os gestos, os olhares, as formas e, sobretudo, os atos. Não há melhor maneira de mostrar afeto ou insatisfação”.

A importância de ouvir

“Escuto muito meus jogadores. Isso não é debilidade. Eu me abro sempre para escutar suas necessidades, para escutar o que eles veem. Mas, depois, eu decido. Se tem algo que não sou é tonto. Posso ser mau treinador, mas tonto seguramente não sou e busco o caminho que me leva mais rápido. Bielsa, que era muito estruturado, que tinha os movimentos muito mecanizados, comentava que seu máximo orgulho era que o jogador entrasse em campo e fizesse algo que ele mesmo decidiu. A mecanização te gera um estímulo de repetir coisas e é aí que você soma ao que dizem os treinadores”.

Ninguém tem lugar garantido

“Sempre há matizes da minha exigência. A história de que não tenho compromisso com ninguém é real. No momento em que o jogo começa, os treinadores também estão em jogo e o resultado influenciará no técnico mais que em qualquer outro. Por isso precisa ir atrás do que quer. Algum dia doerá mais a um, mais a outro. Não sou tampouco de falar todos os dias com os jogadores para dizer por que jogam ou por que não jogam. É algo muito difícil de explicar. Nós, agora que temos um elenco brilhante… Como faz para explicar a Griezmann, Correa, João, que esse dia não vão jogar? O ideal é buscar o melhor para cada jogo e isso fará que todos sigam acreditando que isso é o melhor”.

A filosofia jogo a jogo

“Quando cheguei ao Atlético, disse que iríamos ‘jogo a jogo’ porque conheço o clube. Entendia que sempre estamos pensando ‘por que não ser’, ‘por que não buscar’, ‘por que não me imagino’… Não imagine nada, vamos ser o que temos hoje e fazer o que pudermos hoje. No treinamento, na partida da copa, no amistoso, em representar o clube da melhor maneira hoje. A partir daí virá todo o resto, como foi chegando. Mas não vamos sair disso, porque no momento em que quisermos ser o que não pudermos ser, vai acabar”.

Os jogadores como cúmplices

“Há situações em que você percebe a confiança dos jogadores em você. Percebe o ambiente. É difícil explicar o que é que se percebe, mas se percebe atenção, concentração, e então flui. Depois vêm os acontecimentos ou não. Uma coisa é acreditar, mas depois não executar. O que buscamos é que eles se sintam cúmplices do que fazemos. Que sintam. Eu digo sempre que o melhor para mim como treinador é poder refletir meus sentimentos dentro de campo, e busco pessoas que reflitam isso. Quando não acreditam em você, logo se vê. As pessoas te rotulam e isso considero falta de respeito, nem sequer olham se você evolui. Olham o que você foi. Creio que influencio o jogador. Talvez, no caminho, tivemos situações com alguns jogadores que não pudemos dar o que queríamos, mas houve um monte de casos em que chegaram de uma maneira e depois mostraram outra coisa”.

Diego Simeone, do Atlético de Madrid (Julian Finney/Getty Images)

A atenção nos detalhes

“Creio que sou intuitivo. Vejo os jogadores chegando e já sei como estão. Sei se dormiram bem, se estão com raiva, se estão contentes. Os corpos falam, você vê e falam. Os gestos, a forma de ficar, a forma de escutar, a forma de acenar quando você fala. Olham para você, não olham. A forma de fazer um passe. Tento ir de acordo para estar mais perto deles”.

As mudanças de sistema

“Sou estruturado dentro do meu pensamento sobre o que quero, mas não sou estruturado naquilo que busco no jogo. Entendo que o mais importante são os jogadores e nós vamos atrás, eles te indicam o que querem com seu jogo, suas associações. Nós temos que ir buscando isso. Na temporada passada, demoramos sete ou oito rodadas para encontrar o sistema de 3-5-2 que acomodava todos para que pudessem render melhor. Falamos com alguns quando estávamos mudando de sistema e me diziam que seria bom porque todos já conheciam como jogávamos. Assim foi como explodiu Marcos Llorente, como Hermoso deu uma saída melhor, como Lemar encontrou seu melhor lugar”.

O drible como diferencial

“Você não sabe quantas pessoas me diziam para não colocar Lemar, que pusesse outro. E eu o via, dizia que tinha que jogar. Ele tem coisas diferentes dos demais. Vai para cima, dribla, tem algo que poucos possuem. Hoje já não se dribla mais, hoje tudo é posicional, faça superioridade numérica por aqui e ali. E o talento? E o individual? E o drible? E se livrar de um marcador que rompe toda a estrutura? Quem tem isso? Lemar, João, Correa, poucos”.

A importância da torcida

“A volta dos torcedores é mais importante para o futebol do que para nós. Há quem não entenda a energia que as pessoas transmitem quando estão bem com o time. Quando está mal é duro. Eu quero trazer a energia das pessoas que estão nas arquibancadas quando a energia dos jogadores começa a se debilitar”

A escolha do capitão

“Em primeiro lugar, o vestiário dá espaço para cada jogador. Sempre gostei de escolher o capitão. Nunca compartilhei a ideia de ser quem é mais antigo no clube. Estar muito tempo não quer dizer que seja líder do grupo nem que o defenda sempre. O grupo tem que ser representado por alguém que tenha um sentimento de pertencimento com a equipe. A partir disso, vamos chegando aos que são mais próximos e menos. E se for uma liderança múltipla, podem conviver entre eles muito melhor”.

Diego Simeone, técnico do Atlético, é celebrado pelos seus jogadores (Imago / OneFootball)

A relação com o Atlético

“Conto meu tempo no Atlético desde que cheguei como jogador. Vinha de bons momentos com o Sevilla. E aqui, do nada, as pessoas começaram a me amar sem que eu houvesse dado nada. Minha primeira temporada foi irregular, como a da equipe ou do clube, que vinha de um momento de dificuldade. O Atlético se salvou do descenso em Sevilha. A partir da segunda temporada formamos um grande grupo e conseguimos aquela dobradinha, com liga e copa. Depois joguei na Inter, na Lazio e, cada vez que voltava à Espanha, escutava pessoas que diziam que ‘lá vai o Cholo, o do Atlético’. As pessoas me associavam ao Atlético”.

Quando pensou em deixar o Atlético

“Um dos momentos difíceis foi depois da final da Champions em Milão. A segunda derrota, uma nos acréscimos e outra nos pênaltis. Em dez minutos você tem que se apresentar diante de um monte de jornalistas que estão esperando para sentir o cheiro de sangue e você precisa falar. Chegava de um golpe duro e o primeiro que me ocorreu é que precisava pensar. Tinha que pensar se podia voltar a transmitir aos jogadores tudo o que havia transmitido até aquele momento. Isso foi mal compreendido”.

O tempo no cargo

“Penso que minha permanência no Atlético, se comparada com as muitas mudanças de técnico no Real Madrid e no Barcelona, é normal. Lá não te esperam. O Atlético fez um caminho em busca de um crescimento econômico e esportivo, que tem agora. Os outros clubes atuaram em consequência do que aconteceu com eles. Nós tivemos um êxito contínuo, buscando nossos objetivos. Foram oito títulos e duas finais de Champions perdidas”.

A chance de igualar o recorde de longevidade em La Liga

“Tomara que venha o recorde. Se eu pensar nisso, entro em vertigem. Pensamos no agora. E a melhor maneira de seguir é seguir poder dando o melhor, é assim. Todas as manhãs fico contente por colocar a roupa de técnico do Atlético, gosto disso. Perder é parte do futebol”.

O peso das saídas de Messi e Cristiano

“Com as saídas de Messi e Cristiano perdemos todos, mas foram muitíssimos anos em que os dois deram o máximo na nossa liga. Por não estarem lá, La Liga terá que voltar a crescer e retomar. Acho que o ritmo do futebol espanhol se reduziu”

Diego Simeone, técnico do Atlético de Madrid (Getty Images)

A ideia de que todos os times precisam adotar um estilo propositivo

“A melhor Espanha e o melhor Barça alimentaram o ego dos treinadores para sonhar que todos tinham Piqué, Busquets, Xavi, Iniesta… e não tinham. Abriu a cabeça para começar o jogo a partir de uma determinada situação que não é absolutamente segura. Se tenho jogadores que não têm essas características, não saio jogando. Desculpem-me, senhores, lançamos a bola ao meio do campo e nos encontraremos no mesmo lugar que se chega quando se começa jogando de trás. Mas voando”.

O jogo defensivo e o jogo ofensivo

“Não há verdades absolutas. O treinador pode influenciar nas duas facetas. Sou contra os que desprestigiam a parte defensiva. Defender também é uma arte. Eu digo que se saio jogando do meu campo e atraio o rival, é uma forma de gerar espaços. É defensivo sair jogando do campo de defesa ou é ofensivo? Depende de como você deseja ler. Vou te atrair para encontrar espaços atrás de você, para atacar. Você não precisa sair jogando porque sim. Saio jogando porque busco causar danos e posso fazer de distinta maneira. Porque é futebol e se ganha uma Copa assim, como ganhou a Espanha ou a França. O futebol é maravilhoso porque todos temos razão. Nada mais que se ganho por 3 a 0 se joga lindo e se ganho por 1 a 0 está mal”.

A ideia de virar treinador

“Comecei a pensar em ser treinador a partir dos 25/26 anos. Tive ótimos treinadores. Sempre digo que você não escolhe o pai, ele surge. Quando comecei tinha Bilardo e sou um agradecido porque ele me abriu a mente, de sua maneira, mas me abriu a possibilidade de chegar na Itália e jogar de maneira diferente que na Argentina, com tudo mais mecanizado e posicional”.

As influências

“Não sou bilardista. Tive influência de Basile, Bielsa, Eriksson – que era um grande gestor de elencos com estrelas. Tenho a cabeça muito aberta. Bilardo foi meu primeiro conhecimento. Tenho muito dele, mas não me fecho a nada. Não gosto de ser rotulado. No Atlético, no primeiro ano fomos campeões com uma equipe de contragolpes, na temporada passada com um 3-5-2”.

A família boleira

“O ambiente em casa é super boleiro. Meu pai tem 77 anos, mas jogou até os 73-74, já mais lento. Depois virou treinador dos seus amigos e hoje é meu maior crítico. Nossas conversas são 95% sobre futebol. Isso nos cerca. Meus filhos têm personalidades distintas. Os três são meninos fantásticos. São muito bonzinhos. Aqueles que já trabalharam com eles, a primeira coisa que me falam é sobre eles como pessoa, e isso me enche de orgulho. Trato de dizer que não façam o que não gostariam que fizessem com eles e vivam a vida transparentemente. Que sejam eles”.

A gratidão pela bola

“Sou um agradecido à bola. Meu pai e eu, durante anos, no Natal, colocamos a bola na árvore, para agradecer tudo o que nos permitiu realizar e pedir que possamos seguir vivendo disso. Eu gosto do que faço. Sou apaixonado por poder me encontrar em dificuldades. A vida é assim e o futebol é reflexo de onde posso conviver e transitar. Gosto de me comunicar e, quando vejo dificuldades, me sinto melhor”.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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