La Liga

Sevilla e Espanyol pressionam autoridades em relação às investigações sobre o Barcelona no ‘Caso Negreira’

Sevilla e Espanyol são os primeiros a pedir mais contundência nas ações em relação ao caso que investiga indícios de corrupção no comitê de arbitragem

Levou um tempo, mas os clubes espanhóis começaram a aumentar a pressão sobre as autoridades em relação ao chamado “Caso Negreira” – com a investigação sobre o pagamento de €1,4 milhão pelo Barcelona a uma empresa de propriedade de José María Enríquez Negreira, vice-presidente do Comitê de Arbitragem da Real Federação Espanhola de Futebol (RFEF) de 1994 a 2018. O Sevilla foi o primeiro a se manifestar publicamente, demonstrando “preocupação e indignação”. Depois, seria a vez do Espanyol cobrar responsabilidades às autoridades. Segundo o site Relevo, o Atlético de Madrid queria liderar um comunicado em conjunto das demais equipes de La Liga, o que teria sido impedido pelo Barcelona e não contou com o apoio do Real Madrid.

Nesta segunda-feira, a sede de La Liga recebeu uma reunião para a divulgação dos limites salariais atualizados das duas primeiras divisões do Campeonato Espanhol, a partir do mercado de transferências. No entanto, o evento se tornou palco para a discussão do escândalo ao redor do Barcelona. Chefe-executivo do Atlético de Madrid, Miguel Ángel Gil tentou organizar um posicionamento conjunto dos clubes em relação ao episódio. No entanto, o diretor blaugrana Mateu Alemany interferiu e lembrou que os atos coletivos necessitam de consenso dentro da Liga, o que atrapalhou uma ação mais rápida. Já o representante do departamento jurídico do Real Madrid não quis se comprometer com um posicionamento sem consultar superiores.

Presidente de La Liga, Javier Tebas afirmou que cada clube pode se posicionar como bem entender, mas garantiu que “até o Barcelona está interessado nas investigações, ao abrir um processo interno”. O dirigente, porém, não descartou até mesmo um banimento a Joan Laporta, caso o presidente do Barcelona não explique as razões do pagamento. Tebas disse que “não gostou nada” de perceber que o pagamento a Negreira aconteceu ao longo de muitos anos, inclusive entre gestões que eram adversárias na política interna do Barça. O presidente da liga prometeu, inclusive, acionar instâncias em que o caso não prescreveu, mesmo prescrito no regulamento interno.

Apesar das discussões coletivas, alguns clubes decidiram atuar de maneira individual. O Sevilla foi o primeiro a se manifestar: “Passados alguns dias desde que chegaram à opinião pública as informações do denominado ‘Caso Negreira’, o Sevilla deseja mostrar sua preocupação e indignação diante dos dados que, dia após dia, têm sido divulgados através dos meios de comunicação, deixando claro que é absolutamente necessário que se chegue ao fundo da questão para esclarecer o que ocorreu e, se for o caso, apurar as responsabilidades”.

“A gravidade dos fatos conhecidos até a presente data, que põem sob juízo ou semeiam dúvidas sobre a integridade das competições do futebol espanhol, leva o Sevilla a solicitar publicamente a La Liga e à Federação, como máximos representantes do futebol espanhol, sendo a RFEF responsável máxima pelo coletivo arbitral, a que, chegado o momento, promovam e compareçam em todos os procedimentos que deste caso podem se derivar, uma vez que se finalize a investigação. Por fim, é desejo do Sevilla afirmar que, além dos clubes e suas instituições, os torcedores de todas as equipes merecem respeito, e é responsabilidade dos dirigentes favorecer o contexto necessário para que nunca se ponha em dúvida a honestidade das competições que participamos”, concluiu a nota.

O posicionamento do Espanyol teve teor parecido: “O Espanyol está alarmado com as informações publicadas em diversos meios de comunicação em relação ao tema denominado ‘Caso Negreira’. Ainda que esteja em fase de investigação, as possíveis implicações do que se publicou, para nossa competição, os clubes que a compõem e os órgãos afetados, seriam de tal gravidade que exigimos uma atuação excepcional na hora de esclarecer o que realmente aconteceu e, se necessário, apurar as responsabilidades correspondentes no âmbito nacional e internacional”.

“No Espanyol sempre advogamos pelo escrupuloso cumprimento da lei e dos procedimentos marcados e, neste sentido, pedimos aos órgãos e instituições competentes a tratar o assunto com a celeridade que corresponde a um caso que põe em dúvida a reputação do nosso futebol a nível internacional. Recentemente, nosso clube se via afetado por uma resolução de outra índole que, a nosso parecer, punha em risco o funcionamento normal de nossa competição, além dos prejuízos causados ao nosso clube. Então, pelo respeito que exigem e merecem nossos torcedores, hoje apelamos ao resto dos clubes e órgãos que deem um passo à frente na defesa do bom funcionamento e bom nome do nosso futebol”, conclui a nota, no que se sugere uma referência à insistência do Barcelona com a Superliga Europeia.

Em nota oficial, o Barcelona confirmou que pagava pelos serviços de uma consultoria sobre arbitragem e que a prática “é comum entre clubes”. O que gera suspeita, entretanto, era o caráter oculto do acordo com a empresa de Enríquez Negreira e também a posição do ex-árbitro como membro importante do comitê de arbitragem. Outro ponto nevrálgico são as indicações de que se cobrava pela “isenção” dos árbitros. Além do mais, existe o risco de que, se o Barcelona teve ligações com Negreira por mais de décadas, a prática pode ter se espalhado por outros clubes da primeira divisão.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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