La Liga

Sergio Ramos: “Nunca quis sair do Real Madrid, mas, quando aceitei a renovação, a oferta expirou e é preciso aceitar isso”

Em entrevista coletiva, Sergio Ramos revelou que até aceitou a proposta do Real Madrid, mas o contrato não estava mais sobre a mesa

Sob lágrimas, Sergio Ramos se despediu do Real Madrid nesta quinta-feira. Não se esperava nada diferente de um emotivo adeus, considerando a ligação carnal do zagueiro com o clube e o que ele também representa ao madridismo. O que surpreende é a forma como o rompimento acontece, a contragosto do capitão. Em entrevista coletiva realizada no clube, Sergio Ramos revelou que desejava permanecer no Estádio Santiago Bernabéu e aceitou a proposta de renovação oferecida por Florentino Pérez, de apenas uma temporada – um ano a menos do que pediu de início. Todavia, existia um prazo para a oferta expirar, e isso aconteceu em março, sem que o veterano fosse avisado. Sem mais a proposta sobre a mesa, os merengues optaram por abrir mão de seu ídolo.

Mesmo sem cumprir sua vontade de seguir no Real Madrid, Sergio Ramos não demonstrou qualquer tipo de rancor, embora indicasse um claro pesar. O capitão manteve a cordialidade e o carinho com o presidente Florentino Pérez. Pareceu entender as circunstâncias e a opção do clube, apesar de discordar. “Há coisas na vida que não podem ser mudadas. É preciso aceitar. Tenho orgulho da etapa que vivi aqui”, declararia durante a entrevista coletiva desta quinta, na qual chorou em diferentes momentos, diante de jornalistas e familiares.

A história de Sergio Ramos, afinal, não se apaga com este rompimento abrupto, por mais que fosse especulado. O zagueiro é um dos maiores jogadores da história do clube e um dos melhores de sua posição no futebol europeu durante as últimas décadas. Está marcado. Os 22 títulos e as 671 partidas falam por si, ainda que as lembranças dos grandes momentos sejam muito mais vivas na memória dos torcedores. Como resumiu: “Eu vou com pureza,. Sempre que botei a camisa e entrei em campo, deixei a alma e a vida pelo Real Madrid. Assim quero que se lembrem de mim: com minhas virtudes, com meus defeitos, mas sempre uma pessoa íntegra”.

É uma pena que a despedida de Sergio Ramos aconteça com os portões fechados, sem torcida, como bem merecia. Sua carreira ainda não acaba, aos 35 anos. Mas não é de se duvidar que um último ato antes de pendurar as chuteiras ainda ocorra no Bernabéu no futuro, celebrando a caminhada gloriosa que experimentou com a camisa blanca: “Gostaria de me sentir abraçado pela torcida, mas agradeço ao clube por toda essa despedida. Eu me sinto um privilegiado pelo carinho que me deram”. Um carinho que, afinal, nunca cessará.

Abaixo, destacamos alguns trechos da coletiva de Sergio Ramos nesta quinta:

Não queria sair

“Aconteceram muitas coisas, circunstâncias que passam na vida. Nunca quis sair do Real Madrid, esse foi meu propósito. Eu remonto à Liga do confinamento, que ganhamos. No início o clube me ofereceu a renovação, mas ficou de lado por causa da COVID-19. Depois, o clube me fez uma oferta de um ano e pediu para baixar o salário. Eu só pedi dois anos. O tema não foi o dinheiro. Chegados a esse ponto, aceitei a oferta de um ano com o salário menor e o clube me diz que não há oferta. Eles me avisam que a oferta possuía uma data de caducidade e eu não havia me inteirado. Avisaram meu empresário sobre essa data na última semana e isso nos surpreendeu”.

“Nunca me deram um ultimato. Não quero rancor, não quero confrontos. Fico com um até logo. Ninguém me notificou sobre essa data. Entendi que tudo formava parte da negociação, que havia um trato amigável. É super respeitável, mas me surpreendeu. Gostaria de ter a tranquilidade no contrato que outros tiveram. Eu queria a continuidade para mim e para a minha família. Era o único que pedi”.

A relação com Florentino Pérez

“Não me arrependo em nada da minha relação com o presidente. Quando alguém compra a marca Sergio Ramos é assim. Nossa relação foi extraordinária. Não foi uma relação de amor e ódio como outros podem dizer, mas de pai e filho no nível esportivo. Sempre estarei agradecido. Nunca farei uma declaração contra ele. Manterei o amor, como no último abraço que me deu. Ele me fez viver momentos incríveis. Não quero enfrentamentos com ninguém”.

O futuro

“Não pensamos em nada. Em janeiro entrei no mercado, logicamente houve algum flerte, mas não tinha em mente sair do Real Madrid. A partir de agora buscaremos uma outra opção para mim. Temos que aceitar o presente e tentar adicionar mais títulos. O Sevilla é o outro clube do meu coração, mas não penso nisso, assim como o Sevilla não pensa. O Barcelona seria um não tão redondo quanto o Bernabéu”.

O planejamento do clube e sua trajetória

“Nenhum jogador está acima de qualquer planejamento, mas a minha negociação era independente. Eu disse que eles planejavam sem mim, mas eu pensava que minha parte ia por outro lado. Gostaria de ficar mais anos. Tive que passar por este momento, mas se você olhar para trás… Eu assinaria para viver tudo isso. Foram 16 anos, muitos maravilhosos e os últimos meses piores. Hoje é um até logo, mas voltarei, que ninguém tenha mais dúvidas”.

A relação com Ancelotti e Zidane

“Tenho uma grande relação com Ancelotti e sempre tivemos uma amizade. Eu o chamei para dar os parabéns quando voltou e nada mais. Não aconteceu mais nada. Se ficaria com Zidane? Zizou conquistou títulos para ser um dos melhores treinadores da história e da minha carreira. Tenho um carinho enorme e estará sempre no meu coração, como se fosse da minha família”.

O discurso de despedida

“Cheguei pelas mãos de meus pais e meus irmãos, com 19 anos, quando era só um menino. Agora que vou, dou graças a Deus que tenho uma família maravilhosa, com minha mulher e meus quatro filhos aqui. Quero agradecer à minha família, que sempre esteve comigo. Obrigado por me apoiarem. Quero agradecer ao clube, ao presidente por todo o carinho, aos meus companheiros, a todos os funcionários… Eu os vejo e é impossível não me emocionar”.

“Quero agradecer também a torcida. Vocês sempre me carregaram nos braços. Gostaria de me despedir com o estádio cheio. Vou com 22 títulos, com muito esforço e dedicação, que é o que o Real Madrid requer. Agora se abre uma nova etapa e também uma expectativa. Mas isso não é um adeus, é um até logo, porque cedo ou tarde eu voltarei”.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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