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Real Madrid enfim se posiciona sobre ‘Caso Negreira’ e afirma que comparecerá ao processo como “parte prejudicada” pelo Barcelona

O Real Madrid tinha mantido sua isenção nas últimas semanas, mas resolveu se colocar contra o Barcelona, numa mudança de direção surpreendente

Durante as últimas semanas, o Real Madrid manteve sua neutralidade em relação ao chamado “Caso Negreira”. Os merengues não se manifestaram sobre as acusações de que o Barcelona fez pagamentos durante 18 anos a José María Enríquez Negreira, ex-vice-presidente da comissão de arbitragem da federação espanhola. Os representantes madridistas sequer assinaram o manifesto coletivo de La Liga, elaborado por 18 clubes da primeira divisão e 22 da segunda, na qual a única outra exceção a não participar foi o Barça. O distanciamento do Madrid era compreendido pela aliança com os blaugranas em temas como a Superliga Europeia e o acordo com a CVC pela venda de direitos televisivos na Espanha. Porém, diante da formalização do processo contra os catalães pela promotoria de Barcelona, os madrilenos marcaram uma reunião extraordinária neste domingo. E anunciaram que se posicionarão como uma parte prejudicada pela suposta corrupção do Barcelona.

“O Conselho Diretor do Real Madrid, em sua reunião realizada hoje, tomou conhecimento das graves acusações formuladas pela Procuradoria de Barcelona contra o FC Barcelona, dois de seus presidentes, Josep María Bartomeu e Sandro Rosell, e os ex-diretores Albert Soler e Óscar Grau, com base em potenciais delitos, entre outros, de corrupção no âmbito esportivo, no marco das relações estabelecidas pelo clube com quem era o vice-presidente do Comitê Técnico de Árbitros, José María Enríquez Negreira. O Real Madrid manifesta sua profunda preocupação sobre a gravidade dos fatos e reitera sua plena confiança na ação da justiça e concorda que, na defesa de seus legítimos interesses, comparecerá ao processo assim que o juiz o abrir às partes prejudicadas”, escreveu o Real Madrid, em sua nota.

A procuradoria de Barcelona afirma que o dinheiro pago pelo Barcelona a Negreira servia para “realizar atuações que tendiam a favorecer o clube na tomada de decisões dos árbitros nas partidas do Barcelona e, assim, nos resultados das competições”. É estimado que o Barcelona tenha desembolsado €7,3 milhões a duas empresas ligadas a Negreira. Os pagamentos aconteceram de 2001 até 2018, ano em que o vice-presidente da comissão de arbitragem deixou seu cargo. A pessoa jurídica do Barça responderá pelo delito de corrupção, no que pode gerar multas e perda de licenças. Já as pessoas físicas implicadas, entre eles Rosell e Bartomeu, são acusados ainda por administração desleal e falsificação de documentos. Correm o risco de serem presos por até quatro anos. Outros presidentes blaugranas implicados no caso, como Joan Laporta e Joan Gaspart, saíram ilesos porque o crime prescreveu para o período em que ainda estavam na gestão.

Diante de seu comunicado, o Real Madrid não apenas indica um rompimento da aliança recente com o Barcelona. O clube também demonstra que tal caso de corrupção pode comprometer o Campeonato Espanhol como um todo. Em seus depoimentos, Negreira chegou a afirmar que cobrava do Barcelona um “serviço de consultoria” e que os valores não eram para favorecer o clube, mas para garantir arbitragens “neutras” que não prejudicassem o time. Tal declaração, inclusive, levantou suspeitas se outros clubes não estariam sujeitos a pagar as mesmas “taxas” ao ex-vice-presidente da comissão de arbitragem, que era o responsável por promover ou rebaixar juízes nos quadros da federação espanhola. O próprio Real Madrid ficou sob suspeição, algo ao qual a diretoria tenta se distanciar.

Os detalhes do acordo do Barcelona com Negreira não estão totalmente claros. A procuradoria afirma que a finalidade do acerto era “alterar as competições a favor do clube”. No entanto, o acordo era verbal e estritamente confidencial. Quando consultados pela agência tributária do governo da Espanha, os barcelonistas informaram que não tinham a documentação requerida sobre os pagamentos, o contrato da prestação de serviços, a identificação dos profissionais e as cópias dos relatórios. Enquanto a falta de clareza aumenta as suspeitas, a defesa do Barça se concentrará exatamente na falta de evidências em relação à corrupção ativa.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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