La Liga

O rompimento de uma era no Camp Nou se promete muito mais duro ao Barcelona do que a Messi

Lionel Messi demarca um período histórico no Barcelona e o clube deve ter ainda mais dificuldades para se recompor sem o maior ídolo

Todo clube vive um antes e um depois em relação aos maiores ídolos. São os grandes nomes do esporte que moldam o caminho das agremiações e as engrandecem, ainda que qualquer equipe necessite de um senso coletivo para colecionar taças e de uma visão para seguir em frente. O Barcelona, ao longo de seu passado, contou com jogadores determinantes aos seus rumos. Foi assim com Ladislao Kubala, com Johan Cruyff e com Ronaldinho Gaúcho. Foi assim com Lionel Messi, o gênio que melhor demarcou uma era no Camp Nou, que elevou conquistas e visibilidade a patamares inéditos. E se há um rompimento nesta linha do tempo do Barça, restam dúvidas sobre como os blaugranas liderarão a nova era sem Messi.

Messi representou muito dentro de campo para o Barcelona. Basta ver a coleção de títulos que o craque acumulou ao longo de todos esses anos, com auxílio de outros gigantes no Camp Nou. O clube que só possuía uma Champions em sua galeria de troféus se despediu do camisa 10 com mais quatro Orelhudas. Dez dos 26 títulos do Barça em La Liga tiveram o argentino em campo. E isso sem contar a valorização que independe do brilho das taças. Afinal, Messi colecionou lances que são bem mais memoráveis do que muitas finais por aí. Apreciar o artilheiro não era esperar os maiores momentos, mas sim apreciar cada pequeno momento que se tornava grande por seu talento.

Desta maneira, Lionel Messi era o cara que fazia dezenas de milhões de pessoas ao redor do mundo pararem diante da televisão a cada semana para assisti-lo. Ronaldinho conseguiu isso pouco antes, com uma dose cavalar de magia, mas não a mesma constância. Messi era a certeza do inesperado a cada rodada, e a competição particular com Cristiano Ronaldo sempre alimentou tal expectativa. Até nos movimentos mais manjados, aqueles executados à exaustão ao longo de sua carreira, o camisa 10 surpreendia. E isso manteve o Barça em uma vitrine sempre especial, que dependia do contexto, mas dependia ainda mais do gênio.

O inchaço da bolha financeira ao redor do futebol possui muitas explicações. Tem a ver com a concentração de dinheiro, com o aumento das receitas televisivas, com a globalização das marcas, com novos acordos comerciais. Porém, não dá para negar como um craque como Messi também contribuiu a tal apelo ao redor do esporte. Mais uma vez, o duelo com Cristiano Ronaldo e a trajetória dos dois titãs em busca do máximo alimentou o interesse e o fanatismo de mais gente. Era a certeza de que a história se cumpria diante dos nossos olhos, num confronto de deuses que nunca tinha ocorrido nesse nível e nessa frequência dentro dos gramados. Tanto Barcelona quanto Real Madrid surfaram nessa onda de montantes vultuosos.

Messi permitiu que o Barcelona enfatizasse sua marca. Era um produto de La Masía, era um suprassumo do futebol ofensivo, era um símbolo do apego a uma só camisa. Fazer mais gente gostar dos blaugranas e acompanhá-los se tornou mais fácil com um garoto-propaganda deste nível. Valeu até mesmo para que os dirigentes defendessem suas causas políticas e sustentassem seu próprio círculo de poder. A arrogância presente no discurso do Barça em tantos momentos acabava atenuada quando havia um camisa 10 para proliferar um encanto graças à sua arte.

Ao longo desses 21 anos, Messi viveu diferentes Barcelonas. Quando assinou aquele primeiro contrato num guardanapo, o clube fazia uma aposta em meio à sua entressafra, enquanto os galácticos do Real Madrid providenciavam o maior show da face da Terra. Com o protagonismo de Ronaldinho, Messi ajudou a mudar tal cenário, virando o herdeiro de um novo Barça que nascia. E chegaria ao ápice de sua própria classe sob as ordens de Pep Guardiola, apoiado por outros gênios como Xavi e Iniesta, elevando os limites do clube além e de maneira incontestável.

Tal série vitoriosa não se manteve da mesma maneira a partir de 2012, mas o sucesso de Messi sim. Continuava brigando pela Bola de Ouro, continuava anotando gols de maneira fora do comum. A imagem do craque e a bonança do Barcelona ainda permitiriam uma nova temporada imparável, com o trio formado ao lado de Neymar e Luis Suárez. Já nos últimos anos, o Barça entrou num ciclo vicioso de não ser mais suficiente a Messi. Não era mais um timaço por si, mas um time a serviço do craque. Contratou outros figurões que não deram certo, gastou mundos e fundos. Todavia, seguia dependendo do seu camisa 10 para ter esperanças de feitos grandes. Por mais que a intensidade do craque caísse, ele se mantinha como um dos melhores do mundo e era a principal razão para se colocar o Barcelona na primeira prateleira do futebol europeu.

O Barcelona não soube aproveitar Messi nos últimos anos. Nesse ponto, entra uma incompetência inacreditável de seus dirigentes, que dilapidaram o patrimônio do clube mais rico do mundo e afundaram os blaugranas na atual crise – agravada pelo cenário da pandemia. Mesmo com Messi ainda arrebentando, a série de humilhações na Champions League não se esgotava. Até que os 8 a 2 do Bayern de Munique ensaiaram o adeus, unidos ao enfado do argentino com as repetidas mentiras do presidente Josep Maria Bartomeu. Sem poder sair, ele renovou seus laços com o clube na temporada passada, graças à mudança no comando.

Porém, a última entrevista de Messi como jogador do Barcelona evidenciou a insatisfação com Joan Laporta. O atacante foi, no mínimo, frio com o presidente ao qual ele mesmo deu impulso eleitoral. Segundo diferentes fontes, de novo, havia um sentimento de traição. Messi se sentia satisfeito no Barça, não apenas por sua história no clube, mas também pela própria vida da família na Catalunha. Conversou com a esposa e com os três filhos antes de buscar a renovação. Laporta se apalavrou, mudou de ideia no meio do caminho e só avisou o camisa 10 quando tinha desistido do negócio. O camisa 10 precisou buscar um novo rumo por um misto de ingerência desde administrações passadas com o jogo político nos bastidores atuais. Ainda que a situação financeira permaneça delicada no Camp Nou mesmo com o alívio na folha salarial, isso não parece suficiente para justificar as promessas de repente quebradas.

Messi não vai deixar de ser Messi longe do Camp Nou. Mesmo que fracasse no PSG, o que parece meio difícil tendo em conta seu talento, sua história está consolidada. Foi seis vezes eleito o melhor do mundo e colecionou os maiores títulos possíveis por clubes. Ainda chega com sua imagem fortalecida pela conquista da Copa América e pela maneira como ficou evidente que sua saída do Barcelona não foi por qualquer intransigência sua. O craque tinha aceitado reduzir seu salário em 50% e um corte maior seria impossível pela própria legislação vigente na Espanha. O mundo vai acompanhar com atenção o que ocorrerá em Paris, ainda mais considerando os outros reforços estelares adicionados ao time de Mauricio Pochettino.

Para o Barcelona, o adeus de Messi tende a gerar impactos maiores. A instituição costuma ser maior do que qualquer jogador, mas não se preenche uma lacuna como essa de maneira tão rápida. O próprio Real Madrid está aí para dar o exemplo, pela maneira como seu nível competitivo caiu sem Cristiano Ronaldo. Que o Barça se mantenha no pelotão principal de clubes europeus, até por outros bons jogadores presentes, não será tão cotado sem Messi e ainda tende a passar por um processo de reformulação que não se mostra simples, considerando a bancarrota de suas contas. Pode até ser que garotos como Pedri e Ansu Fati decolem, mas o altar onde estava o camisa 10 ficará vazio por algum tempo.

Isso gera impactos não apenas dentro de campo, mas também comerciais. Num futebol global onde é preciso ter em conta mais seguidores do que torcedores em si, é bem possível que parte considerável dos antigos blaugranas sigam Messi rumo ao PSG. Isso tende a gerar perdas nos acordos de patrocínio, nas vendas de produtos licenciados e no público do Camp Nou. O estádio barcelonista não será o mesmo ponto de peregrinação de antes porque, afinal, o santo de outrora estará fazendo seus milagres no Parc des Princes. A folha salarial diminui, mas as receitas também. Por outro lado, o PSG já calcula que a vinda de Messi se pagará pelas portas que se abrirão do ponto de vista financeiro. A camisa 30 dos parisienses se esgotou em pouquíssimas horas.

E se o peso do Barcelona enfraquece além das fronteiras, na Catalunha o barcelonismo não tira os créditos de Messi. Basta ver pela revolta de muitos torcedores e pelo reconhecimento de como tantos erros internos no clube resultaram no adeus do ídolo. Messi, aliás, manteve sua relação de carinho com a torcida mesmo na saída. Afirmou que não gostava da forma como as coisas aconteceram também por não poder receber a última ovação no Camp Nou. “Tive muitas derrotas. Mas no dia seguinte ia treinar e havia outra partida que me dava uma revanche. Agora não”, diria. “O mais importante para mim é dizer a verdade para toda essa gente que tanto me deu. Não sei se o clube fez, mas eu tenho claro que fiz todo o possível para ficar. Estava tudo combinado. Reduzi o salário em 50%. O resto é mentira. E, depois, ninguém me pediu mais nada”. Até pela mágoa com Laporta, provavelmente a esperada homenagem no Camp Nou demorará a ocorrer.

Sem Messi, o Barcelona também perde força em seu discurso. La Masía até possui suas promessas recentes, mas passou anos relegada por uma política de contratações desastrada e de pouco apreço aos pratas da casa. A veia reveladora dos blaugranas ficou pelo caminho, com uma geração fantástica que não foi suplantada e que agora perde seu maior talento. Fica difícil, além do mais, comprar o lema “Mais que um clube”. Quando o próprio Messi vira as costas para os dirigentes, diante da maneira como agiram nos últimos anos, não é preciso pensar muito para reconhecer os inúmeros entraves no Camp Nou.

Se o Barcelona precisa de uma renovação, neste momento, ela antes de mais nada acontece em seus corredores. A politicagem foi imensamente custosa aos blaugranas, assim como a ingerência de diferentes presidentes. Perder o maior ídolo da história, da maneira como ocorreu, não contribuiu nada para a imagem – por mais que o Barça pareça varrer sua culpa para baixo do tapete. Laporta pode não ser o grande responsável pelo caos, mas se mostra perdido no atual cenário. E o que restou ao clube, melancolicamente, é se agarrar à promessa de uma Superliga para atenuar seu saldo negativo. Pior, vendo o presidente do maior rival orientando rumos do que acontece no Camp Nou.

Obviamente, não dá para descartar o renascimento de um clube como o Barcelona em breve. Há uma camisa pesada, há bons nomes no elenco, há uma liga desequilibrada que ainda favorece os blaugranas. O Barça não deixa de ser Barça sem Messi. Em compensação, põe em xeque muitas das certezas construídas ao redor do clube por conta do camisa 10. As diretorias não souberam se preparar a este momento e a dependência do craque é evidente, em diferentes aspectos, ainda mais num rompimento repentino. Uma era se encerra sem Messi no Barcelona. E se o PSG se sugere como a oportunidade de engrandecer um pouco mais a lenda do camisa 10, o Barcelona encara muito mais interrogações pela frente. O caminho sem o seu maior ídolo se promete bem mais tortuoso que o de Messi longe da velha casa.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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