La Liga

O agora ex-presidente Anil Murthy foi tarde do Valencia, mas sua demissão não resolve todos os problemas

Anil Murthy teve áudios vazados ao longo das últimas semanas e ficou ainda mais queimado dentro do Valencia

O Valencia terminou a temporada em meio ao caos. Nem tanto pelos resultados em campo, com uma campanha segura no meio de tabela do Campeonato Espanhol e a decisão da Copa do Rei. Muito maior era a crise nos bastidores. O presidente do clube, Anil Murthy, teve uma série de áudios vazados em que fazia diversas críticas a membros do clube e expunha a fragilidade econômica. O dono dos valencianos, Peter Lim, também era um dos alvos e não ficou satisfeito. Durante a rodada final de La Liga, a torcida dos Ches realizou protestos diante do Mestalla e pedia a saída de todo mundo. Por fim, Murthy acabou demitido nesta segunda-feira.

A gestão de Peter Lim e Anil Murthy no Valencia é completamente tumultuada. A dupla vendeu jogadores importantes, criou problemas com símbolos do clube e não realizou grandes investimentos. Como resultado, os resultados caíram bastante e as críticas da torcida são imensas. Como dono, Lim ainda resiste e não deseja vender a agremiação. Já Murthy tinha um teto de vidro como presidente e nunca foi bem visto pela maneira desaforada como respondia às vaias. O problema foi pisar no calo de Lim.

Se a temporada do Valencia parecia razoável, com um bom papel na final da Copa do Rei e a manutenção na primeira divisão sem riscos, a insatisfação com um clube estagnado também é óbvia. E os áudios vazados de Murthy colocaram gasolina no incêndio. O presidente falava das necessidades de fazer dinheiro no mercado de transferências e expunha entraves internos, da mesma maneira que tecia comentários ácidos sobre o técnico Pepe Bordalás e o presidente Peter Lim. Murthy negou a veracidade dos áudios, enquanto o Valencia se distanciou das afirmações dizendo que eram “opiniões pessoais”. Mas, depois de uma reunião ocorrida nesta semana, a esperada demissão se concretizou.

Anil Murthy chegou ao Valencia em 2016, trabalhando na comunicação e depois se tornando presidente. O diplomata de Cingapura atuou por dez anos na embaixada de seu país em Paris, quando recebeu a oferta de emprego do compatriota Peter Lim. Ao longo dos anos no Mestalla, Murthy ficou conhecido por se ambientar rapidamente aos costumes locais, mas também por bater de frente com a torcida e mandar os críticos se calarem. Virou um escudo de Peter Lim, especialmente após a demissão do técnico Marcelino García Toral, e acelerou a política de vender jogadores. Tomou também decisões autoritárias, ampliando o próprio salário e diminuindo a democracia na política do clube, enquanto tirava as torcidas organizadas de seu lugar no estádio e encerrava o programa do clube de combate ao câncer infantil. Os áudios tornaram insustentável para Lim um presidente que já era execrado pelos valencianos. “Anil, canalha, fora do Mestalla” era um grito comum.

A saída de Anil Murthy é um peso a menos para o Valencia. Porém, está longe de ser a solução dos problemas. Os Ches continuam sujeitos aos desmandos de Lim e a uma gestão de futebol pouco profissional, que fez funcionários capacitados serem demitidos por vaidade. A esperança só deve retornar ao Mestalla quando o próprio Lim sair. Os bons momentos com o proprietário ocorreram sob as ordens de Mateu Alemany e Marcelino García Toral, dispensados de maneira arbitrária e prepotente por questionarem as ordens de Lim. Enquanto o Valencia se apequena, fica difícil de imaginar novas perspectivas com esse tipo de administração. Até porque o novo presidente deve ser um homem de confiança de Peter Lim – o que, de imediato, gera desconfiança no valencianismo.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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