O adeus a Marcos Alonso Peña, destaque do Barça e do Atleti nos anos 1980, além de pai de Marcos Alonso
Filho e pai de futebolistas, Marcos Alonso Peña foi o membro da família com mais jogos na seleção e marcou seu nome no Barcelona, campeão de La Liga e da Copa do Rei

A família Alonso representa uma das maiores dinastias do futebol espanhol. Membros de três gerações distintas passaram pela seleção da Espanha e defenderam os grandes clubes do país. O representante atual é Marcos Alonso, que começou a carreira no Real Madrid e atualmente atua pelo Barcelona. Seu avô, Marquitos, foi defensor no lendário time merengue dos anos 1950 e conquistou cinco títulos da Champions, autor de gol na primeira final da história da competição. Já o pai, mais conhecido como Marcos, passou pelo Atlético de Madrid e ergueu taças pelo Barcelona nos anos 1980. Único da família a atuar no setor ofensivo, como um ponta veloz e driblador, Marcos também é aquele que mais vezes jogou pela seleção espanhola, presente inclusive na Euro 1984. Nome importante nessa linhagem, o veterano faleceu nesta quinta-feira, aos 63 anos, vítima de um câncer.
Marcos Alonso Peña nasceu em 1959, quando seu pai vivia o auge do Real Madrid, como companheiro de Ferenc Puskás e Alfredo Di Stéfano. O garoto não teve muito tempo para ver Marquitos no Estádio Santiago Bernabéu, após sua transferência em 1962. O veterano passou por Hércules, Real Murcia e Calvo Sotelo até pendurar as chuteiras. Natural de Santander, o ex-defensor então retornaria para a cidade. Foi por lá que seu filho deu os primeiros passos no futebol, com a camisa do Racing, clube onde Marquitos tinha despontado e no qual foi descoberto pelos madridistas.
A história de Marcos como profissional também começou no Racing de Santander, após uma breve e infrutífera estadia na base do Real Madrid. O ponta tinha 17 anos quando ganhou suas primeiras chances na equipe principal dos cântabros e disputou suas primeiras partidas por La Liga em 1977/78. O garoto virou titular na temporada seguinte, com quatro gols anotados no Espanhol 1978/79. Todavia, não evitou o rebaixamento de sua equipe, na vice-lanterna do campeonato. Ao menos, o prodígio tinha mostrado talento o suficiente para arranjar uma transferência e continuar na primeira divisão. Era um ponta que conseguia jogar de ambos os lados do campo, com facilidade para bater com as duas pernas, além de exibir muita qualidade técnica e agressividade. A promessa jogaria num time de bem mais peso – só não teria o destino mais lógico para o filho de uma lenda do Real Madrid.

Em 1979, Marcos assinou com o Atlético de Madrid. Era um momento relevante dos colchoneros, que dois anos antes tinham conquistado La Liga. O novato era treinado por Luis Aragonés, enquanto tinha figuras como Luis Pereira e Dirceu entre seus companheiros de time. O cântabro logo cavou seu espaço na ponta direita e emendou partidas por La Liga 1979/80. Entretanto, numa campanha fraca dos colchoneros, que resultou na demissão de Aragonés, a equipe fechou a campanha somente cinco pontos acima da zona de rebaixamento. Já não eram os melhores tempos daquela geração.
Marcos permaneceu como um nome intocável no ataque do Atlético de Madrid, mesmo com as mudanças de treinador. A equipe subiu de bastante de produção e sonhou com o título de La Liga em 1980/81. Os rojiblancos ocuparam a liderança em parte significativa da campanha, mas perderam fôlego justamente na reta final, com a taça levada pela Real Sociedad. Ainda assim, como um dos destaques colchoneros, Marcos ganhou sua primeira chance na seleção principal durante o início de 1981 – depois de já ter disputado o Mundial de Juniores em 1979 e os Jogos Olímpicos de 1980. Seu treinador era José Santamaría, ex-companheiro de Marquitos na defesa do Real Madrid. O jovem estreou numa inédita vitória da Espanha sobre a Inglaterra em Wembley e participou de uma série de partidas, titular em algumas delas, na preparação à Copa do Mundo que aconteceria no país.
O Atlético de Madrid não conseguiu ser tão competitivo em 1981/82. A equipe fez um primeiro turno ruim e passou pela zona de rebaixamento, antes de fechar a campanha do Espanhol numa modesta oitava colocação. Os números de Marcos não sofreram uma queda tão brusca, mas o sonho de disputar o Mundial fugiu de suas mãos. O ponta deixou de constar nas escalações da Fúria durante a virada de 1981 para 1982 e viu a Copa do Mundo apenas de casa, numa campanha morna dos anfitriões até a segunda fase. Foi um momento também de redefinir os rumos de sua carreira.

Em 1982/83, Marcos mudou de ares. E se já era estranho ver o filho de Marquitos no Atlético de Madrid, a partir de agora ele vestiria a camisa do Barcelona. Foi o melhor momento da carreira do ponta, mesmo sem ser o período mais estável dos blaugranas, que no meio daquela temporada trocaram Udo Lattek por César Luis Menotti no comando. Em compensação, havia um enorme investimento em contratações. Os talentos eram notáveis num elenco que incluía Diego Maradona, Bernd Schuster, Vitor Muñoz e Quini. O sobrenome Alonso, aliás, estava em alta na Catalunha. O meio-campo também contava com Perico Alonso, trazido da Real Sociedad e conhecido atualmente por ser pai de Xabi Alonso. Já o ataque tinha a opção de Pichi Alonso, esse sem parentes famosos no mundo da bola.
Marcos terminou sua primeira temporada como vice-artilheiro do Barcelona em La Liga 1982/83, com oito gols, só atrás de Maradona – um de seus grandes amigos no clube. O Barça chegou a liderar o campeonato, mas caiu de produção na reta final e terminou apenas na quarta colocação. Como consolo, no mês de junho de 1983, os blaugranas conquistaram a Copa do Rei e a extinta Copa da Liga, ambas contra o Real Madrid. Marcos foi o herói do título na primeira delas, em vitória por 2 a 1 no Estádio de La Romareda. O gol decisivo saiu aos 45 do segundo tempo, num arrojado peixinho do ponta dentro da pequena área. Era também o primeiro troféu de sua carreira profissional.
O Barcelona ainda ficou devendo na temporada 1983/84. Os catalães emendaram uma boa sequência na reta final de La Liga, mas fecharam na terceira posição, um ponto atrás do bicampeão Athletic Bilbao. Já na Copa do Rei, o Barça amargou o vice com uma derrota na decisão contra o próprio Athletic – em ocasião mais lembrada pela enorme briga campal que acelerou a despedida de Maradona do Camp Nou. Apesar das decepções, Marcos teve individualmente seu melhor ano. O ponta foi o artilheiro do time no Campeonato Espanhol, com 12 gols. Chegou a balançar as redes do Athletic Bilbao nos 4 a 0 do primeiro turno. Já seu grande show aconteceu no dérbi catalão, com quatro tentos nos 5 a 2 para cima do Espanyol.
O bom início no Barcelona auxiliou Marcos a voltar para a seleção da Espanha. O técnico depois da Copa do Mundo era outro conhecido da família, Miguel Muñoz, que atuou ao lado de Marquitos e depois também foi seu treinador no Real Madrid. Neste novo ciclo, o atacante despontou como titular e disputou praticamente todas as partidas das eliminatórias para a Eurocopa. A Fúria se classificou, mas Marcos perdeu a posição no início de 1984. Pelo menos isso não custou sua presença na Euro, reserva nas cinco partidas da campanha que terminou com o vice-campeonato espanhol, na decisão perdida contra uma imparável França.

Marcos finalmente chegou ao topo de La Liga na temporada 1984/85. Foi um ano de mudanças no Barcelona, que se despediu de Maradona e Menotti, com a chegada dos britânicos Terry Venables para o comando e Steve Archibald para o ataque. Marcos teve problemas físicos e perdeu espaço na equipe titular, sobretudo no primeiro turno do Campeonato Espanhol. Porém, o ponta deu seu empurrão para o título, com 18 aparições e quatro gols. Enfim, botava a mão na taça que seu pai conquistara cinco vezes pelo Real Madrid. Era o fim de um jejum que durou 11 anos ao Barça, antes de uma seca de mais seis anos depois disso.
Marcos já tinha disputado a Recopa Europeia e a Supercopa Europeia pelo Barcelona. A temporada de 1985/86, então, permitiu que o ponta também seguisse os passos de seu pai e aparecesse na Champions. Seria uma campanha bastante lembrada dos blaugranas, mas não com final feliz. A equipe passou por Sparta Praga, Porto, Juventus e IFK Göteborg no caminho até a decisão, inclusive com gol importante do atacante na classificação contra os lusitanos pelas oitavas. Já na finalíssima em Sevilla, aconteceu o duelo contra o Steaua Bucareste. Após o empate por 0 a 0 com bola rolando, os romenos foram campeões nos pênaltis, com a vitória por 2 a 0. O goleiro Helmuth Duckadam pegou as quatro cobranças dos catalães, inclusive a de Marcos, a última do time.
O Barcelona fechou La Liga 1985/86 na segunda colocação, mas longe de alcançar o Real Madrid conhecido pela Quinta del Buitre, com os garotos liderados por Emilio Butragueño. Os blaugranas também perderam a final da Copa do Rei para o Zaragoza. O único consolo aconteceu na Copa da Liga, com a final vencida diante do Betis. A visibilidade de Marcos também diminuía. O atacante disputou sua última partida pela seleção em setembro de 1985 e não participou da Copa do Mundo de 1986. Despediu-se da Fúria com 22 aparições – bem mais que as duas do pai Marquitos e também que as nove do filho Marcos Alonso.

Já sem o mesmo espaço como titular no clube, Marcos disputou sua última temporada pelo Barcelona em 1986/87. Gary Lineker e Mark Hughes representavam novas possibilidades ao ataque, o que levou o espanhol a servir mais como uma opção a partir do banco de reservas. De novo o time amargou o vice em La Liga para o Real Madrid, desta vez só um ponto atrás. Marcos encerrou sua passagem pelo Camp Nou com 182 partidas disputadas e 39 gols anotados. O ponta, às portas de completar 28 anos, alinhou seu retorno ao Atlético de Madrid.
A primeira temporada de Marcos de volta ao Vicente Calderón foi a única que ainda garantiu alguma sequência ao atacante. Dirigido novamente por Menotti, o reforço não era titular absoluto, mas contabilizou 30 aparições pelos colchoneros em 1987/88. Não mais produzia seu melhor, com dois gols pelo time que acabou na terceira colocação de La Liga. Já as duas temporadas seguintes de Marcos pelo Atleti tiveram míseras três partidas, com uma grave contusão no joelho que atravancou sua contribuição. Foi o fim de sua história no clube, com 143 jogos e 15 gols. O veterano encerrou o Campeonato Espanhol 1989/90 no Logroñés, com oito partidas, num honroso desempenho de meio de tabela.
Marcos decidiu encerrar sua carreira no Racing de Santander, então na terceira divisão do Campeonato Espanhol. Era um momento especial para o jogador, às vésperas de ganhar um filho – Marcos Alonso, que nasceu em dezembro de 1990. O garoto deu sorte: os cântabros celebraram o acesso de volta à segundona. Marcos disputou apenas 12 partidas na campanha, com três gols marcados. Apesar disso, o veterano foi uma liderança importante nos playoffs de acesso, titular em cinco das seis partidas do quadrangular que botou os verdiblancos na segunda divisão. Era hora de buscar novos rumos para sua vida profissional.

Depois de pendurar as chuteiras, Marcos teve uma carreira relativamente relevante como técnico. Influenciado por Menotti, aplicava um estilo de jogo ofensivo. Dirigiu clubes tradicionais em La Liga como o Racing de Santander, o Rayo Vallecano e o Zaragoza. No entanto, ficou mais célebre por seus trabalhos na segunda divisão. Foi o responsável por conquistar o acesso com o Sevilla em 1998/99 e também comandou o Atlético de Madrid no segundo nível em 2000/01, mas sem alcançar a promoção. Nomes como José Antonio Reyes e Carlos Marchena fizeram suas estreias em La Liga graças ao comandante. Quando as oportunidades como treinador minguaram, Marcos conseguiu acompanhar mais de perto a ascensão de seu filho, assessorando-o, enquanto também iniciava a carreira de comentarista esportivo na Rádio Nacional da Espanha e no Marca.
Marcos Alonso seguiu rumos distintos do pai. O garoto aproveitou de início a herança do avô Marquitos, ao começar na base do Real Madrid, embora não tenha recebido grandes chances no time profissional. Fez sucesso mesmo em outros cantos, sobretudo na Fiorentina e no Chelsea, antes de realizar o sonho do pai. Ver Marcos Alonso com a camisa do Barcelona, onde vivera seu auge, certamente teve um gosto especial a Marcos. A experiência durou poucos meses, diante da luta do veterano contra o câncer. Ainda assim, valeu como uma bela homenagem ao final de sua vida.




