La Liga

Numa década de altos e baixos, o Racing de Santander sobe à segundona espanhola na esperança de se restabelecer

O Racing encarou sérios problemas administrativos e, nos últimos anos, sequer ganha sequência na segunda divisão

O Racing de Santander paga em campo pelos problemas administrativos vividos na virada da década passada. Os cântabros estão entre os clubes mais tradicionais do Campeonato Espanhol, com 44 participações na elite nacional e um vice em 1930/31. No entanto, desde o descenso em 2011/12, com a agremiação afundada em dívidas na época, é que os verdiblancos não saem do limbo. Uma esperança de reconstrução veio nesse final de semana, com o retorno à segunda divisão da liga. Depois de duas temporadas consecutivas na terceirona, os racinguistas conseguiram uma reviravolta na tabela para cima do Deportivo de La Coruña e festejaram a promoção por antecipação.

Um dos clubes fundadores de La Liga em 1929, o Racing de Santander teve estabilidade na primeira divisão a partir dos anos 1990. De 1993/94 a 2011/12, os cântabros sofreram apenas um rebaixamento, e para o retorno imediato em 2001/02. Foi uma equipe costumeiramente da metade inferior da tabela, com raras campanhas de destaque, mas que seguia firme na elite do futebol local. Todavia, a queda escancarava problemas mais profundos. Comprados pelo indiano Ahsan Ali Syed, os verdiblancos enfrentaram crises institucionais e financeiras. Os salários começaram a atrasar e os débitos aumentaram vultuosamente. Em 2012/13, um novo rebaixamento ocorreu, com a volta à terceira divisão após 23 anos.

Desde então, o Racing passou mais tempo na terceirona do que da segundona. Os breves acessos, em 2014/15 e 2019/20, seriam precedidos por quedas imediatas ao terceiro nível. O clube trocou de mãos repetidas vezes e precisou ser resgatado inclusive por grupos locais, incluindo torcedores e ex-jogadores que se tornaram acionistas. Desde 2018, a presidência está nas mãos de Alfredo Pérez, empresário local que chegou ao poder através do conselho de administração e conseguiu contornar as dívidas. Entretanto, ainda não foi possível aos verdiblancos restabelecerem um sucesso esportivo tão duradouro.

Com o rebaixamento para a terceirona em 2020/21, o Racing de Santander ainda não conseguiu brigar pelo acesso naquele ano, em edição marcada pela reformulação das divisões nacionais. Já em 2021/22, a equipe se impôs em seu grupo regional, com a liderança que vale o acesso direto. Ao longo do primeiro turno, os racinguistas permaneceram atrás do Deportivo de La Coruña. A mudança na situação aconteceu na virada para o segundo turno. Os verdiblancos emendaram uma sequência invicta que dura há 19 partidas, incluindo a vitória no confronto direto com os galegos. Assim, se desgarraram do Depor (que também entrou em queda livre) e abriram vantagem na primeira colocação.

O acesso do Racing foi consumado neste final de semana, com quatro rodadas de antecedência, após o empate por 2 a 2 com o Celta B no Estádio El Sardinero. São 76 pontos para o time da Cantábria em 34 rodadas, com 23 vitórias e apenas quatro derrotas. Os verdiblancos possuem o melhor ataque, com 57 gols anotados, e também a segunda melhor defesa, com 26 sofridos. Chama atenção o fato de não terem perdido um duelo sequer dentro de seus domínios pela terceirona.

O técnico Guillermo Fernández Romo é uma aposta do Racing. O comandante de 43 anos trabalhou apenas em clubes modestos das divisões de acesso, além de ter sido coordenador da própria base racinguista. Já dentro de campo, os verdiblancos contam com um elenco essencialmente jovem. Um dos protagonistas da campanha foi o meia Pablo Torre, camisa 10 de 19 anos que se apresenta como grande revelação das divisões de acesso na Espanha. Com 10 gols e oito assistências, o meia já está negociado com o Barcelona, por €5 milhões – em corrida que também envolveu o interesse do Real Madrid. Na frente, o ponta camaronês Patrick Soko e o centroavante nigeriano Cedric Omoigui foram importantes no rendimento ofensivo. É um elenco que se valeu de nomes pouco conhecidos e de muitos canteranos para prevalecer.

A questão para o Racing de Santander é saber se tal guinada poderá ser um pouco mais longa. O clube consegue contornar os rombos deixados em suas contas e trabalha com os pés no chão atualmente. Apesar disso, nem mesmo emendar uma sequência na segunda divisão tem sido simples. A esperança é que esse novo recomeço finalmente permita um salto competitivo e a luta pelo acesso à primeira divisão. Independentemente do destino, o apoio da torcida no Estádio El Sardinero será importante. Os racinguistas chegaram a levar 21,6 mil torcedores para as arquibancadas no jogo de acesso e o público nessa reabertura de portões tem passado de cinco dígitos com certa frequência. É um apoio também importante nesse restabelecimento.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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