La Liga

Mourinho vence o madridismo e o Barcelona

Desde que chegou ao Real Madrid, no início da temporada passada, José Mourinho enfrenta a mesma cobrança toda vez que vai enfrentar o Barcelona: de que tem que vencer impondo o jogo clássico dos merengues. Personalidades ligadas ao clube, levando na memória a eliminação do Barcelona pela Inter de Mourinho em 2010, berravam em todos os meios de comunicação possíveis que o Madrid não poderia se apequenar. Guti na Turquia, Michel Salgado na Inglaterra, até mesmo o lendário Di Stéfano.

Foram eles que Mourinho ouviu todas as vezes que perdeu o clássico, no Bernabéu ou Camp Nou, por 3 a 2 ou 5 a 0. Mesmo quando conquistou a Copa do Rei sobre o rival, o treinador português sofreu duras críticas por ter utilizado Pepe como volante. Logo, não é coincidência que, na primeira vitória de Mourinho sobre o Barcelona, ele não tenha dado ouvidos a ninguém.

Com força máxima à sua disposição, José escalou o Real Madrid na tradicional formação da temporada, o 4-2-3-1. Todos titulares da equipe que perdeu para o Bayern, pela Liga dos Campeões, foram mantidos. Coentrão e Di María no time, os brasileiros Marcelo e Kaká no banco.

Do outro lado, o time que precisava vencer para acirrar a disputa pelo título Espanhol não tinha a mesma pressão. Guardiola sempre teve e continua tendo liberdade pra fazer o que bem entender. E talvez ele tenha abusado dela. Apenas com a ausência de Abidal, Pep fez duas mudanças em relação ao time que perdeu para o Chelsea, na Champions League. Cesc Fàbregas e Alexis Sánchez deram lugar a Thiago e Cristian Tello. Piqué e Pedro continuam no banco. O esquema foi um 3-4-3, com Adriano como stopper pela esquerda e Dani Alves como ponteiro direito.

A estratégia de Mourinho foi marcar a saída de bola do Barcelona com ferocidade. Pelo meio, Özil e Benzema pressionavam, com Cristiano Ronaldo e Di María auxiliando pelos lados. Khedira e Xabi Alonso sempre próximos de Iniesta e Xavi. Foi assim durante praticamente todo o jogo. Esses encaixes foram quase individuais, não fosse uma modificação especial na postura que falaremos a seguir. A imagem abaixo mostra nitidamente o empenho merengue em dificultar a saída blaugrana.

Real Madrid nunca marcou tanto

A determinação dos jogadores do Madrid foi cativante. Özil, em especial, mostrou uma capacidade de entrega incomum não só a ele, mas como a maioria dos camisas 10. Para escapar dessa pressão, o Barcelona tinha que trazer quase todos os jogadores para seu campo e aí, mantendo o estilo de aproximação, movimentação e passes curtos, conseguir sair pro campo de ataque.

Quando o Barça cruzava a linha do meio, tinha início a segunda parte da estratégia de José: parar Messi de qualquer maneira. O argentino era pressionado e cercado pelo maior número de jogadores possíveis. Abdicando da bola, o objetivo da defesa era não permitir a jogada individual do melhor do mundo e obstruir toda e qualquer infiltração na área.

O sucesso da ideia deu-se em boa parte pelos erros de escolha de Guardiola. Desde que Messi passou a atuar na função de ‘falso 9’, recuando para receber a bola nas costas dos volantes, ele teve a companhia de jogadores rápidos que penetravam na defesa adversária em diagonal, dando opção de passe. Foi assim com Villa, Pedro, Alexis, Iniesta e até Fàbregas. No entanto, Tello, por inexperiência, e Dani Alves, por não ser da função, deixaram Messi sozinho. Apenas Iniesta e, raramente, Xavi, apareciam como opção na área.

A melhor chance do Barça foi assim. Mesmo cercado por cinco adversários, Messi encontrou Xavi na área e a bola só não entrou porque Casillas defendeu.

Neste momento do jogo, o Madrid já vencia por 1 a 0. Um escanteio cobrado por Özil encontrou Pepe que, marcado pelo baixo Adriano, cabeceou para baixo. Valdés falhou, Puyol hesitou em afastar e Khedira empurrou pra dentro, aos 16 minutos. Os contra-ataques eram a única arma ofensiva do Real Madrid, com Cristiano Ronaldo e Benzema. O escanteio do gol foi consequência de uma falta lateral sofrida por CR7 em um contra-ataque.

O primeiro tempo acabou assim, com ampla posse de bola (74%) do Barcelona, mas infrutífera por méritos da defesa do Madrid e pela má atuação dos pontas Tello e Dani Alves.

Segundo tempo trepidante

A segunda etapa começou parecida, com o Madrid tentando segurar mais a bola, apesar de ser um time muito melhor adaptado à transição rápida e ao contra-ataque. Logo Guardiola percebeu que precisava mudar e chamou Alexis Sánchez. Após quase dez minutos decidindo quem sacar para a entrada do chileno, sobrou para Xavi. Provavelmente Pep já havia utilizado o intervalo para orientar a equipe porque uma vez que Alexis entrou, a formação foi automaticamente modificada.

O time passou para um 4-2-3-1 muito similar ao utilizado na final do Mundial, contra o Santos. Busquets passou a ser zagueiro sem a bola, mas quando em posse avançava para o meio, alterando a figura para um exótico 3-3-4. Thiago e Iniesta passaram a organizar o time, com Alexis como atacante agudo e Messi livre.

A principal mudança no jogo foi que, com Alexis entre os zagueiros, a pressão a Messi diminuiu. Além disso, o argentino ganhou mais uma opção para passe e tabela. Um minuto após Pep plantar a semente, brotou o fruto. Messi passou por cinco marcadores e foi derrubado. A bola sobrou para Iniesta que, com toque genial de letra, serviu Tello. Casillas defendeu, mas Adriano pegou rebote. A bola desviou na zaga e se apresentou para Alexis que, na segunda tentativa, após milagre de Iker, marcou.

Melhor contra-ataque do mundo

A torcida se inflamou pelo empate e logo imaginou que, pela enésima vez, o Barça ganharia o clássico de virada. Mas o Madrid não esmoreceu. Dois minutos depois, ficou provado porque o contra-ataque merengue é o melhor de todos.

Di María recuou ao campo de defesa para receber a bola, trazendo consigo a marcação de Adriano. Özil percebeu o espaço e logo abriu na direita, arrastando Busquets. O alemão recebeu o passe e levantou a cabeça. O que viu foi o cenário perfeito.

Cristiano Ronaldo arrancou entre Puyol e Mascherano, na posição ideal ara receber o passe fatal. O português passou por Valdés, marcou o gol, e pediu calma pra torcida. Um gol para ser reproduzido em palestras de times que querem usar o contra-ataque. Lindo demais.

Logo após o gol, ambos treinadores resolveram mudar. Mourinho trouxe Granero na vaga de Di María, deslocando Özil para a direita. Além de ser um bom retentor de bola, Granero renovou a combatividade do meio-campo. Guardiola finalmente corrigiu o problema dos pontas e colocou Pedro na vaga de Adriano. Dani Alves voltou pra sua original lateral direita, Puyol passou para a esquerda.

Muito mais agressivo, mas sem o brilhantismo de outros dias, o Barcelona sucumbiu e nem a entrada de Cesc nos dez minutos finais (no lugar de Tello) mudou o panorama.

Mourinho foi Mourinho. Contra um time que considera superior ao seu, ele decidiu primeiro tentar brecar as qualidades do adversário, para depois explorar as próprias virtudes. O Real Madrid abriu sete pontos na liderança do Campeonato Espanhol e recuperou a autoestima de seu torcedor na rivalidade nacional.

O português aprendeu a lição: quando Di Stéfano concorda com Guti e Salgado, alguma coisa está errada.

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Equipe Trivela

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