Lucas Hernández: “Eu devo tudo que sou à minha mãe, meu pai fracassou em seu papel”

Lucas Hernández nasceu em Marselha, mas passou a maior parte de sua vida na Espanha. Seus passos foram determinados pela carreira de seu pai, Jean-François Hernández, também jogador de futebol. O então zagueiro atuou por anos no Toulouse, antes de defender Sochaux e Olympique de Marseille. Depois, rodou ainda por Compostela, Rayo Vallecano e Atlético de Madrid. Contudo, engana-se quem pensa que a trajetória do filho com a camisa colchonera tem influência do progenitor. Ainda na infância do garoto, Jean-François se separou da família e sequer manteve contato com os seus meninos, incluindo também Theo Hernández, um ano mais jovem que Lucas e atualmente emprestado à Real Sociedad.
Segundo o campeão do mundo com a seleção francesa, a grande responsável por fazer sua carreira deslanchar é a mãe, Py Laurence. Foi ela quem se desdobrou para sustentar a casa e auxiliar os garotos no futebol. Lucas começou no Rayo Majadahonda, até ingressar nas categorias de base do Atlético em 2007, aos 11 anos. Theo fez o mesmo caminho, embora não tenha atuado no time principal dos colchoneros, rumando ao Real Madrid depois de se destacar em empréstimo ao Alavés. Quando Jean-François abandonou a família, os meninos sequer haviam passado na peneira do Atleti.
“Eu devo tudo à minha mãe, foi ela quem levou meu irmão e eu ao futebol, quem trabalhou não sei quantas horas para nos alimentar. O que eu sou, devo a ela. Não ouço falar sobre nosso pai há 12 ou 13 anos, nem mesmo depois que ganhei a Copa do Mundo”, declarou Lucas, em entrevista ao Le Parisien. “Agora que sou pai, tenho ainda mais consciência do que ele fez, que ele fracassou em seu papel. Se encontrá-lo, conversaremos. Mas eu não posso me imaginar abrindo mão do meu filho. Nunca faria isso, mesmo se tivesse que morar sob uma ponte para garantir a felicidade dele”.
O defensor também comentou sobre sua relação com Theo e garantiu que não tenta ser uma figura paterna, mas sim um irmão que cuida do caçula: “Eu sou o mais velho e protetor. Tivemos momento difíceis, mas sempre estivemos juntos e, quando ele precisou de mim, eu estava ao seu lado. Sempre houve uma grande conexão entre nós, ele é meu irmãozinho e meu melhor amigo. Ainda hoje nossa ligação é muito forte”.
A paternidade de Lucas, aliás, aconteceu em um momento transformador ao jovem, juntamente com a conquista da Copa do Mundo: “Meu filho, Martin, mudou minha vida, minha maneira de pensar, de ver o mundo. Antes eu só pensava em mim mesmo, agora tudo o que faço é por ele. Eu não sou mais o mesmo homem. Seis meses atrás, eu nem sabia se iria à Copa do Mundo, mas agora sou campeão do mundo e pai. Em poucos anos, quando ele estiver mais velho, contarei obre esse verão incrível”.
Embora tenha nascido em Marselha, Lucas viveu apenas até os quatro anos na França. Desta maneira, sente-se como parte de ambos os países, apesar de sua escolha na seleção: “A Espanha me deu tudo, cresci ali, vivi ali, meu filho nasceu ali, minha esposa é do país. Falo espanhol melhor que o francês, inclusive. Mas amo a França, sou campeão do mundo com a França e minha família vive na França. Tenho dois países. Quando chego à França, me sinto francês. Quando estou na Espanha, me sinto espanhol”.
Parte das seleções de base da França desde o sub-16, o defensor passou um tempo sem ser convocado. Ainda assim, tinha os Bleus como seu principal objetivo: “Durante muito tempo não tive notícias da seleção, sequer sabia se alguém me conhecia na comissão técnica. Mas um dia Deschamps me ligou e disse que eu estava em seus planos. Não pensei duas vezes e imediatamente disse que sim. Nunca diria não à França, é o que queria desde pequeno”. O resultado desta confiança e desta dedicação acabaram visíveis durante a Copa do Mundo, com as atuações decisivas do lateral esquerdo, que cresceu muito ao longo da campanha. Agora, parte da história dos Bleus, já aos 22 anos.



