La Liga

La Liga fecha acordo de € 2,7 bilhões para aliviar dívidas da pandemia e “acelerar transformação digital”

O acordo em princípio, fechado sem as presenças de Real Madrid e Barcelona, ainda precisa ser ratificado pela maioria dos 42 clubes das duas primeiras divisões

Diante de uma crise financeira que ameaça a sua existência, há apenas uma solução: encontrar mais dinheiro. Os maiores clubes da Europa bolaram o primeiro plano, com o elitista e malfadado projeto da Superliga Europeia. Agora é a vez de La Liga. Nesta quarta-feira, a entidade que organiza as duas primeiras divisões do futebol espanhol anunciou um princípio de acordo com o fundo de investimento CVC, com sede em Luxemburgo e escritórios em dezenas de países, para receber € 2,7 bilhões. O acordo passou por unanimidade pelo Comitê Executivo de La Liga, mas precisará ser ratificado pela maioria dos clubes (22 votos em um colégio eleitoral com 42) em assembleia na quinta-feira, 12 de agosto.

La Liga colocará todos os seus ativos em uma nova entidade, da qual o fundo CVC terá participação de 10% – o produto oferecido pela liga espanhola foi avaliado em € 24,25 bilhões de euros. Do total do valor injetado, 90% será repassado aos clubes, mas antes de começar a sonhar com Kylian Mbappé, Paul Pogba ou Harry Kane, há algumas amarras em relação a como eles podem gastá-los.

Além da grana, o Fundo CVC levará ao projeto “sua capacidade de gestão e seu conhecimento especializado no desenvolvimento de negócios esportivos”, com experiência em competições como o rúgbi (botou € 430 milhões no Six Nations em março), vôlei (€ 250 milhões na Federação Mundial de Vôlei), tênis (discute um investimento de € 500 milhões para fundir os circuitos dos homens e das mulheres), MotoGP e Fórmula 1 (foi acionista majoritária por uma década até vender sua participação para a Liberty Media em 2017).

Como todo bom fundo de investimento, a aposta do CVC é que La Liga está operando abaixo das suas capacidades e que o seu apoio financeiro e administrativo conseguirá valorizá-la para, no futuro, suas ações valerem mais do que o que foi pago neste momento. Para que isso aconteça, é primordial que os clubes não queimem € 2,7 bilhões em jogadores e pagamentos de boletos atrasados. Segundo o El País, 70% terá que ser investido em infraestrutura, 15% para refinanciar as dívidas causadas pela pandemia e, aí sim, 15% para ir atrás de um bom lateral esquerdo reserva.

De acordo com La Liga, os clubes terão que assumir o compromisso de alocar o investimento em áreas como “estratégia esportiva, infraestrutura, desenvolvimento internacional, marca e desenvolvimento de produtos, estratégia de comunicação, inovação, plano de tecnologia e dados e plano de desenvolvimento de conteúdo em plataformas digitais e redes sociais”. O sonho dourado da entidade é, no corporativês, passar do “atual modelo de produto único, baseado quase exclusivamente no jogo e na venda de direitos audiovisuais para um multiproduto/multi-experiência com relacionamento direto com os fãs, amplificado pela tecnologia e capacidades digitais e analíticas”.

“Este acordo visa liderar a transformação vivida atualmente no setor de entretenimento global e maximizar todas as oportunidades de crescimento disponíveis para os clubes desenvolverem um novo modelo de negócios – que, por consequência disso, lhes permitirá diversificar e maximizar receitas por meio de modelos de marketing que ajudarão a acelerar sua transformação digital”, afirmou La Liga, em comunicado.

O Fundo CVC não terá nenhum tipo de gerência em questões esportivas e regulamento de competições, e a venda dos direitos de televisão continuará sendo controlada pela liga. Parte pequena do dinheiro – cerca de € 100 milhões – será passada para futebol feminino, semi-profissional e amador, sob o guarda-chuva da Federação Espanhola. La Liga receberá € 100 milhões para investimentos.

A comissão executiva que aprovou o acordo em princípio por unanimidade contou, entre os clubes da primeira divisão, com representantes de Atlético de Madrid, Villarreal, Levante, Real Sociedad, Sevilla, Betis e Osasuna. Você talvez tenha notado duas ausências importantes. Nem Barcelona e nem Real Madrid estiveram envolvidos nas conversas e, embora não seja necessário que ambos votem a favor do projeto para ele ser aprovado, não seria nada mal contar com o apoio das duas maiores forças do futebol espanhol.

Então, sobre isso. Ambos naturalmente receberiam as maiores parcelas do investimento, cerca de € 250 milhões. Isso significaria aproximadamente € 40 milhões para usar em transferências ou para ter mais espaço na folha salarial – o que o Barcelona vem desesperadamente tentando fazer para conseguir inscrever o novo contrato de Lionel Messi. Segundo o Mundo Deportivo, fontes de La Liga afirmam que o montante seria suficiente para isso, embora internamente o Barça esteja mais cauteloso e continue empenhado em dispensar alguns jogadores para melhorar as suas contas.

O Real Madrid, segundo o Financial Times, é contra. Não há detalhes sobre o motivo ainda, mas vale fazer dois destaques. Javier Tebas, presidente de La Liga, foi um crítico feroz do projeto da Superliga e é inimigo mortal de Florentino Pérez. Seria um pouco desconfortável ao presidente do Real se Tebas de repente se tornasse o herói que salvou o futebol espanhol da falência – é Pérez quem quer receber esse título. Além disso, para que o investimento do Fundo CVC renda em longo prazo, é necessário que os clubes estejam completamente comprometidos com o crescimento de La Liga. Nenhum deles mais do que Real Madrid e Barcelona, e ambos seguem insistindo na história da Superliga. Como conciliar esse compromisso que seria exigido com a criação de uma liga paralela e, na prática, concorrente?

O Marca explica o negócio da seguinte maneira: o CVC coloca o dinheiro, La Liga administra e devolve uma “remuneração” ao CVC. Uma operação parecida a pagar uma agência para ajudar os clubes e a liga a fazer o negócio crescer “muito mais rapidamente”, segundo o jornal. Diz que não é um financiamento porque o CVC assume um risco pelo negócio: se for tudo bem, ganha, se for mal, perde. “Não estão cobertos por nenhuma garantia”, afirma o jornal. Mas o El País apresenta uma estrutura um pouco diferente, dentro da qual os € 2,4 bilhões destinados aos clubes seriam “empréstimos participativos com juros variáveis de 40 anos classificados como mínimos por fontes de La Liga, inferior aos dos bancos”.

Há tempos o Fundo CVC está querendo entrar no futebol e é bom notar que não há nenhuma ideologia por trás das suas decisões. Chegou a negociar com ligas nacionais como Serie A e Bundesliga, chegou a falar com a galera da Superliga Europeia, com a Fifa e com a Uefa antes de fechar o seu primeiro acordo no esporte com La Liga, com o objetivo de transformá-la na principal liga do mundo “pelo menos no mesmo patamar da Premier League”.

Reforçando: o acordo em princípio precisará ser ratificado na assembleia geral dos 42 clubes das duas primeiras divisões do futebol espanhol em 12 de agosto. Serão necessários pelo menos 22 votos para a aprovação e mais detalhes sobre este acordo devem surgir até lá – e com certeza depois caso ele realmente siga adiante.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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