La Liga

La Liga aprova o acordo de €2,1 bilhões com o fundo CVC, mas diversos questionamentos ainda pairam sobre o negócio

Athletic Bilbao, Barcelona, Real Madrid e Real Oviedo foram os únicos clubes que votaram contra

La Liga se reuniu em assembleia geral nesta quinta-feira e aprovou o acordo com o fundo de investimentos CVC. O negócio, chamado “La Liga Impulso”, foi motivo de queda de braço na Espanha durante a última semana, em especial diante da oposição feita por Barcelona e Real Madrid ao acerto alinhado por Javier Tebas. No fim das contas, 38 dos 42 clubes que compõem as duas primeiras divisões do Campeonato Espanhol votaram favoravelmente ao acerto. Real Madrid e Barcelona ganharam o apoio do Athletic Bilbao entre os contrários, assim como do Real Oviedo. No entanto, apesar da aprovação, uma guerra nos tribunais tentará melar o acordo.

Com o acerto, os 38 clubes que votaram favoravelmente pela assinatura receberão um montante estimado em €2,1 bilhões. O dinheiro injetado nas duas primeiras divisões precisará ser devolvido sob baixas taxas de juros durante 40 anos. Em compensação, o CVC torna-se dono de 9% do valor de La Liga durante 50 anos e auxiliará no incremento das receitas. Caso os quatro opositores mudem de ideia nas próximas três temporadas, o acordo total sobe para €2,67 bilhões e o fundo de investimentos terá posse de 11% dos direitos de La Liga.

Conforme o pacto alinhado por Javier Tebas, 70% do dinheiro precisará ser usado para melhorar infraestruturas e ampliar a inovação tecnológica dos clubes, buscando a internacionalização das marcas. De resto, 15% será usado para refinanciar dívidas e outros 15% para contratar jogadores. Com isso, La Liga projeta um crescimento durante os próximos anos, que, segundo ela, não seria possível diante do cenário de crise gerado pela pandemia. O Atlético de Madrid é o clube que receberá a maior fatia do bolo, com €181 milhões em suas contas. Barcelona e Real Madrid ganhariam na casa dos €250 milhões se votassem favoravelmente.

La Liga também encontrou seus meios para evitar uma briga judicial mais longa contra os opositores do acordo, diante da promessa do Real Madrid de entrar com diferentes ações contra o negócio. Diferentemente da previsão inicial, aqueles que não votaram favoravelmente não precisarão ceder seus direitos. Apesar das perdas de peso em relação a Athletic Bilbao, Barcelona e Real Madrid, o fundo CVC não rejeitou tal abertura para os dissidentes ficarem de fora do negócio. Em compensação, será mais difícil para os tribunais acatarem as denúncias de Florentino Pérez diante da manobra, conforme Javier Tebas.

Tal decisão de La Liga também é a maneira de se proteger das perdas que Real e Barça poderiam gerar em uma debandada, caso tirem do papel os planos de uma Superliga Europeia. Durante a Assembleia Geral, foi apresentado um estudo que estimou €1 bilhão em perdas para o futebol espanhol se os dois gigantes abandonassem o campeonato em busca da supercompetição paralela. Isso foi usado também como maneira de convencer os demais que tal união, neste momento, poderia ser mais vantajosa ao restante da liga.

Barcelona e Real Madrid questionam a falta de diálogo para amarrar o acordo, em negociações antes restritas ao comitê executivo de La Liga (do qual não fazem parte), e uma avaliação subestimada do valor total de La Liga. O principal ponto de fricção, de qualquer maneira, está na forma como os direitos de TV ficarão comprometidos no acordo e acabam nas mãos do CVC, tirando autonomia dos clubes. Tebas, em contrapartida, garante que a venda dos direitos de transmissão poderá se alavancar em 30% durante os próximos anos a partir do novo investimento. A federação espanhola, também antagonista de La Liga no período recente, se colocou ao lado dos dois gigantes. Classificou o acordo como “ilegal, péssimo e lamentável”. Ainda promete acionar a justiça se os direitos televisivos forem afetados a partir do acordo.

Por que o Athletic Bilbao votou contra

Porém, se a questão da Superliga coloca em dúvidas a legitimidade da posição de Barcelona e Real Madrid, é interessante notar a leitura que o Athletic Bilbao faz do negócio – sem as amarras da nova competição conduzindo sua discussão interna. Os bascos publicaram nesta quinta um comunicado aos associados e torcedores, com considerações sobre a operação. Elogiam a possibilidade de estudar a capitalização dos direitos, mas criticam o processo. Os Leones discordam da maneira como se desenvolveu o acordo, sem a participação devida dos interessados, e também temem os riscos possíveis a partir do modelo.

Para o Athletic, não foi certa a maneira como o acordo foi votado com pressa. A Assembleia Geral ocorreu na véspera do início da temporada e, segundo o comunicado, alterou as regras do mercado de transferências a 19 dias de seu encerramento. “Um projeto de 50 anos não deve ser prisioneiro de emergências”, escrevem. Os clubes tiveram duas semanas para estudar seus votos, sem poder fazer sugestões ou modificações no texto. E nem todas as questões estavam claras.

“Os dados fornecidos por La Liga revelam que o CVC investe €2,67 bilhões, sem risco evidente, devolvemos integralmente em 40 anos e obtemos rendimentos adicionais muito relevantes. O fundo recupera seu investimento em 10 anos e os clubes precisam de 50 temporadas. Além de hipotecar algo nosso, com enorme rigidez nas obrigações com os fundos e falta de flexibilidade para utilizá-los, renunciamos às receitas de direitos audiovisuais sobre os quais temos plena capacidade de gestão”, continua a nota.

O Athletic não deixa de reconhecer as capacidades da CVC em incrementar as receitas. Em contrapartida, indaga as dificuldades nas negociações individuais e mesmo a ausência de uma concorrência com outros investidores interessados em La Liga. Também não está claro como funcionará para os clubes que conseguirem acesso à primeira e à segunda divisão nos próximos 50 anos. Conforme a leitura do Athletic, os signatários atuais desfrutariam de uma porcentagem correspondente a outras equipes que não se beneficiaram.

“A operação apresenta riscos futuros devido a uma possível violação das regras de livre concorrência e até mesmo de integridade da competição”, complementam. “Não compartilhamos a estratégia de olhar a curto prazo. O empréstimo condicionaria economicamente a capacidade de manobra dos clubes para conselhos e juntas diretivas futuras, ao ter obrigações de reembolso por 40 anos e de divisão de nossos futuros direitos e receitas por 50 anos”.

Por fim, os bascos salientam que, por sua estrutura, seu voto na Assembleia Geral de La Liga só poderia ser positivo após uma consulta aos seus sócios, o que sequer teve tempo hábil para acontecer. “Nossa decisão é baseada em critérios de rentabilidade, oportunidade, procedimento e conveniência. O Athletic Club defende um trabalho de médio prazo, baseado em consolidar um crescimento sustentável, que proporcione estabilidade à capacidade de aumentar a receita do clube por meio da racionalização dos gastos e defendendo a todo momento uma competição de qualidade e responsável”, finaliza.

Até pela maneira como o acordo foi armado, sem ser apresentado ao público, restam muitas interrogações. As acusações de Barcelona e Real Madrid talvez fossem exageradas, considerando também os interesses paralelos de ambos os clubes em sua própria competição. Entretanto, o posicionamento do Athletic Bilbao (um dos raros clubes espanhóis a ser administrado numa estrutura associativa, sem donos, e que não vive uma situação crítica por conta da crise atual) mostra como há diversos nós a desatar e como a cartada de La Liga dá mais garantias imediatas que futuras. Até por isso, a discussão tende a se alongar bem mais, apesar da aprovação desta quinta.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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