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‘A morte não me afetaria, só a minha família’: Jogador faz revelação após vencer 2º câncer

Kirian Rodríguez superou novamente linfoma de Hodgkin e sonha em retorno aos gramados pelo Las Palmas

Kirian Rodríguez Concepción tem uma história de vida daquelas. O meio-campista de 29 anos, no Las Palmas desde adolescente, soube em agosto de 2022 que estava com linfoma de Hodgkin, um câncer no sistema linfático. Ele pausou a carreira, se tratou e voltou aos gramados no fim de abril de 2023.

Em fevereiro deste ano, no entanto, teve uma recaída e precisou se ausentar das partidas novamente para tratar da doença. Pela segunda vez, superou a condição, conforme anúncio há duas semanas, e já está treinando no clube da ilha de Gran Canaria — mas ainda não voltou a atuar.

Em entrevista ao jornal “Marca”, Rodríguez assumiu que momento algum teve medo da morte, seu maior receio era se tudo voltaria normal após o tratamento. Ele também se preocupava com sues familiares.

— Medo, propriamente dito, não. A morte não me afetaria diretamente, mas sim minha família, minha parceira, meus amigos… Minha dúvida era: ‘Será que conseguirei recuperar minha vida 100% como era antes da doença?’. Isso era o que mais me preocupava — revelou.

De uma grande maturidade, Kirian nunca se perguntou “por que eu?”. “Sempre disse que as coisas acontecem por um motivo. Se aconteceu comigo, é o destino”, disse.

Ele disse que não se assustou com o reaparecimento do câncer há sete meses. Na verdade, a primeira vez o atormentou, pois ele não conhecia a doença.

— A primeira vez foi bem mais complicada. Eu tinha pouca informação sobre a doença e não sabia como seria o processo. Quando se ouvem as palavras ‘linfoma’ ou ‘câncer’, estamos acostumados a sentir medo. Principalmente minha família e pessoas mais velhas, que associam direto à morte… aquela incerteza. Mas você aprende que pode haver recaídas. A cada seis meses, fazemos exames com aquele medo do que pode acontecer, mas eu estava mais preparado. Acho que encarei de forma mais tranquila dessa vez.

Kirian Rodrígues aponta maior dificuldade no tratamento do câncer

O jogador de 29 anos, capitão do Las Palmas quando disponível para jogar, contou o quão duro são os efeitos da quimioterapia, vendo as transformações em seu corpo como a parte mais difícil de todo tratamento.

— Os tratamentos. O autotransplante [são as coisas mais difíceis]. Aqueles quatro ou cinco dias em que você praticamente não consegue comer, está preso à cama sem conseguir se mover, vendo sua aparência física se deteriorar a cada dia — a queda de cabelo, da musculatura, tudo… Talvez tenha sido o momento mais duro.

Apesar dos percalços, disse que não pensou em desistir. Afirmou, no entanto, que poderia repensar a carreira em campo se novamente tivesse uma recaída.

— Há momentos em que você pensa: ‘Se depois do autotransplante, o scanner ainda mostrar que tenho linfoma de novo…’. Aí você começa a repensar. Não que vá desistir, mas talvez não precise exigir tanto do corpo para jogar futebol profissional, e sim levar uma vida mais tranquila, mais sedentária — assumiu.

Kirian Rodríguez em jogo entre Las Palmas e Real Madrid
Kirian Rodríguez em jogo entre Las Palmas e Real Madrid (Foto: Imago)

O jogador sonha em voltar a atuar pelo Las Palmas, o que não acontece desde a derrota para o Girona por LaLiga 2024/25, e busca não ficar parado tanto tempo como da última vez, mas deixa seu retorno aos gramados nas mãos da comissão técnica de Luis García Fernández.

— Não quero que aconteça como da outra vez, porque agora já me sinto bem melhor. Não quero que passem 300 e tantos dias para voltar, quero estar em campo o quanto antes. Desde o dia que saí do hospital, voltei a treinar e a trabalhar na mobilidade para tentar voltar logo. Não tenho um prazo fixo — disse.

— A comissão técnica é muito competente, e serão eles que vão avaliar como estou nos treinos, se meus dados físicos estão no nível dos meus companheiros, como me sinto em campo… Quando eles virem que estou 100% para competir, aí sim poderei voltar. Eles serão os primeiros a ficar felizes com meu retorno — finalizou.

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Outras respostas do capitão do Las Palmas

Você pediu para que não te tratassem com pena, foi assim?

— De forma alguma me trataram com pena. Uma das coisas que mais agradeço foi ter dado aquela entrevista coletiva [de anúncio da doença]. Me coloco no meu lugar hoje e não sei se teria forças para repetir o que disse. Mas foi o melhor que poderia ter feito por mim. Não só por me ver forte ao falar, mas também porque quem quisesse me mandar uma mensagem, não o faria com pena, mas com ânimo e convicção de que eu sairia dessa.

O que fazia levantar da cama?

— A rotina de me obrigar. Se tinha marcado com o Andrés [preparador físico do Las Palmas] às 9h30 ou 10h, eu ia cedo para a cama, para dormir 8 horas. Com o câncer, meu corpo ficou mais lento na digestão, então eu tentava manter os horários das refeições. E como eu me comprometia com o Andrés, se eu não me levantasse, ele estaria sozinho no centro de treinos. Acho que isso me ajudou muito.

Como se manteve ocupado?

— Decidimos que no futuro vamos morar em Gran Canaria e que eu não vou voltar para Tenerife. Comecei a procurar uma casa, um lar onde talvez possa formar uma família. Já faz 12 anos que pago aluguel aqui e acho que chegou a hora de buscar estabilidade. Também tentei acompanhar o futebol. O Luis Helguera me falava sobre jogadores que o clube pensava em contratar, e eu dava minha opinião. Cheguei até a trocar mensagens com alguns deles pelo WhatsApp…

A doença te ajudou a ver quem é importante?

— Nem precisa pensar. Você vê no dia a dia. Estão sempre presentes quando você precisa ou tem uma consulta médica. ‘O que a hematologista te disse?’. Às vezes você fica semanas sem falar com alguém, mas essa pessoa lembra da data do exame. Inconscientemente, você percebe pelo que vive.

Mudou a visão de vida?

— Muito pouco. Talvez na parte emocional, como não levar o trabalho para casa. De resto, sou a mesma pessoa. Sempre fui tranquilo fora do centro de treinos. Agora consigo deixar para trás a raiva de um treino ruim ou um jogo ruim. E dou mais valor a estar com a família, dedicar tempo a eles sem distrações.

Plano após a aposentadoria

— Parei a faculdade de Engenharia porque não conseguia ir às aulas. Depois tentei voltar, mas me disseram que precisava ter frequentado as tutorias. Era um curso que eu gostava, mas queria dedicar mais tempo do que podia. Agora falei com o clube, que tem um convênio com a Universidade Fernando Pessoa, para tentar entrar no curso de Ciências da Atividade Física e Esporte e concluir um curso de graduação. Está mais alinhado com o que quero fazer depois de me aposentar.

Foto de Carlos Vinicius Amorim

Carlos Vinicius AmorimRedator

Nascido e criado em São Paulo, é jornalista pela Universidade Paulista (UNIP). Já passou por Yahoo!, Premier League Brasil e The Clutch, além de assessorias de imprensa. Escreve sobre futebol nacional e internacional na Trivela desde 2023.

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