La Liga

‘Não é futebol’: Por que adversário do Real Madrid tem técnico mais odiado da Espanha

Comandante do Getafe desperta a ira de adversários desde 2016 em LaLiga

Xavi Hernández, Hansi Flick, Iñaki Williams: essas e muitas outras figuras do futebol espanhol se incomodaram tanto com o estilo de jogo do Getafe nos últimos anos que expuseram isso em entrevistas após as partidas. Neste domingo (19), é a vez do Real Madrid enfrentar o técnico “mais odiado” de toda LaLiga pela nona rodada.

Aos 61 anos e com mais de três décadas trabalhando à beira do campo, José Bordalás está nos Azulones desde maio de 2023, onde já tinha trabalhado antes, entre 2016 e 2021, quando levou o time à elite e por lá permaneceu por quatro anos.

Independente do clube (passou por Alavés, Valencia e outros), o treinador espanhol irrita os adversários por sua forma de ver o futebol e montar suas equipes.

A sua maneira, Bordalás torna Getafe competitivo e causa raiva na Espanha

Muito diferente do que se pensa quando se fala na cultura do futebol espanhol, Bordalás quer exatamente o aposto de posse de bola, saída curta pelo chão e paciência na construção. O comandante do Getafe é fiel ao estilo de jogo pragmático, com linhas baixas, jogo direto e quase sempre vertical. A competitividade e a fisicalidade também se destacam sob seu comando.

— No futebol, há gostos para todos os gostos. Há pessoas que vão ao teatro e gostam de uma peça ou outra. Respeito todas as opiniões — opinou o técnico em 2020.

Os técnicos José Bordalás e Diego Simeone antes de Getafe x Atlético de Madrid
Os técnicos José Bordalás e Diego Simeone antes de Getafe x Atlético de Madrid (Foto: Imago)

Entre os mais “puristas”, que buscam um futebol que define como bonito por ter a bola por muito tempo, as críticas partem pelo estilo de jogo extremamente defensivo que coloca o Geta como, quase sempre, entre os times com o menor índice de posse de bola no Campeonato Espanhol.

— O Getafe não joga para entreter o público. Me incomoda ver seus jogos — afirmou o meio-campista Frenkie de Jong em 2020, quando o time da comunidade de Madri eliminou o Ajax, ex-time do jogador, na Liga Europa.

Boa parte dos questionamentos a Bordalás e seus comandados, porém, são sobre o exagero na perda de tempo com cera e, principalmente, nas faltas cometidas.

Com Bordalás sob o comando em seis temporadas de LaLiga desde 2016, os Azules foram os líderes em infrações em cinco vezes, sendo o vice em 2025/26 com só 21 faltas a menos que o Alavés.

— Não se pode permitir que só se joguem 25 minutos em cada tempo. Isso não é futebol. Isso é outra coisa. O sangue me ferve — reclamou Quique Setién, alvo de várias polêmicas com o treinador, após ficar no 2 a 2 com o Getafe quando era técnico do Betis.

— Me parece uma vergonha que se perca tempo desse jeito. Isso não é futebol. Não faz parte do futebol. […] A impotência de ver o jogo sendo interrompido dessa forma me incomoda muito. Sei que isso vem de Bordalás. Todos na primeira divisão já o conhecemos, sabemos como joga o time dele. É legítimo, e muitos de nós não gostamos, mas é o que tem — criticou Iñaki Williams após empate do Athletic Bilbao por 2 a 2 em setembro de 2023.

— Nunca tinha vivido algo assim. É algo novo para mim e tenho que me acostumar. Não quero falar sobre isso, mas eles estiveram gritando o jogo todo. Nós só pensávamos em vencer — disse Flick em janeiro deste ano após ficar no 1 a 1 com o Geta.

— Às vezes eles não propõem nada e tentam cometer muitas faltas — reclamou Ferran Torres após vitória do Barça por 3 a 0.

— O Getafe desperdiçou 20 ou 30 minutos. É uma vergonha — protestou novamente De Jong, dessa vez após o Barcelona ficar no zero com os azuis em 2023.

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De ironia a seriedade, treinador responde críticos

José Bordalás com o prêmio de técnico do mês de LaLIga em janeiro de 2025
José Bordalás com o prêmio de técnico do mês de LaLIga em janeiro de 2025 (Foto: Imago)

O “bordalismo” se tornou tão marcante que o técnico até criou um bordão: “¡Esto es fútbol, papá!” (Isso é futebol, papai!).

Mesmo com comentários tão ácidos de adversários, o treinador, normalmente, mantém a calma quando é criticado e defende que seu estilo tem jogo, muitas vezes, tem a ver com os jogadores que tem à disposição. Ao site espanhol “Relevo” em 2023, porém, ele causou revolta na torcida do Barcelona por se comparar um dos maiores ídolos do clube catalão.

— Não sou um treinador com estilo defensivo. Meu modelo como treinador é Johan Cruyff. As pessoas se surpreendem, mas eu inspiro a intensidade de Cruyff nos meus jogadores — disse ao ser perguntado sobre a comparação com José Mourinho.

Mas ele também sabe atacar de volta os adversários e ser irônico com as críticas que recebe.

— É uma opinião muito tendenciosa porque a diferença é de 1 bilhão de euros. O Barça é um time que tem dois jogadores de altíssimo nível em cada posição, que sabem combinar e contra-atacar. É desrespeitoso fazer esse comentário — respondeu Bordalás a Ferran Torres por sua suposta “retranca”.

— Quando jogamos contra o Barça, o goleiro deles deu 69 passes. Eu não quero que meu goleiro dê 69 passes. Isso significaria que a gente estaria fazendo algo de errado. O que eu quero é criar chances de gol — disse à rádio “Marca” em resposta aos comentários de De Jong após eliminar o Ajax há cinco anos.

Feio ou não, faltoso (ou, a depender da visão, desleal) ou não, o Getafe, apesar de um orçamento muito abaixo, sempre conseguiu escapar do rebaixamento com Bordalás e até bateu um quinto lugar em 2019/20, chegando a Liga Europa no ano seguinte e só sendo eliminado nas oitavas de final pela Internazionale.

Frente ao trio de gigantes, soma apenas duas vitórias, mas às vezes arranca empates que incomodam Barcelona, Real Madrid e Atlético de Madrid.

Na temporada atual, os Azules passaram ainda mais perrengue financeiro. Sufocados pelo fair play de LaLiga, não conseguiam inscrever jogadores no início da competição e só tiveram sete jogadores na abertura do campeonato.

Bordalás e seu elenco, no entanto, ainda correspondem em campo e no momento ocupam a 11ª colocação após oito rodadas, cinco prontos a frente da zona de rebaixamento.

Foto de Carlos Vinicius Amorim

Carlos Vinicius AmorimRedator

Nascido e criado em São Paulo, é jornalista pela Universidade Paulista (UNIP). Já passou por Yahoo!, Premier League Brasil e The Clutch, além de assessorias de imprensa. Escreve sobre futebol nacional e internacional na Trivela desde 2023.

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