La Liga

Iraola, técnico do Rayo: “Me dá pena quando vejo estádios vazios que, com outros preços de ingresso, estariam cheios”

Um dos destaques no início de La Liga, Andoni Iraola deu uma entrevista bem interessante ao jornal ABC

Um dos grandes personagens neste início de temporada no Campeonato Espanhol é Andoni Iraola, treinador do Rayo Vallecano. O antigo lateral direito é velho conhecido de La Liga, com uma sólida carreira pelo Athletic Bilbao, somando mais de 400 jogos disputados pelos Leones na competição. Porém, o técnico de 39 anos é uma novidade na casamata – e uma grata surpresa. Depois de levar o Mirandés à semifinal da Copa do Rei em 2019/20, assumiu o Rayo na temporada passada e logo conquistou o acesso de volta à primeira divisão nos playoffs. Já a primeira experiência na elite começa de forma brilhante, botando os franjirrojos na zona de classificação às copas europeias com um futebol destemido e vitórias sobre adversários de peso.

Neste final de semana, o Rayo Vallecano tentará aprontar mais uma vez. Depois de derrotar o Barcelona, no jogo que culminou na demissão de Ronald Koeman, o clube de Vallecas vai desafiar o Real Madrid. E a ocasião promoveu uma entrevista bastante interessante de Iraola ao jornal ABC. Falou sobre seu início em La Liga e também sobre a trajetória como treinador, mas não só isso. Deu para filosofar sobre diversos temas, da importância da torcida ao dinheiro que os jogadores recebem. Abaixo, traduzimos alguns trechos:

A postura do Rayo em campo

“Somos uma equipe trabalhadora e somos conscientes de que isso não se escolhe, é que não temos outra opção. Não é o mesmo o papel do Rayo da segunda divisão, dominante em quase todas as partidas, e do Rayo na primeira, que muitas vezes será dominado. Temos que ser muito solidários”.

A presença de Falcao García no elenco

“Falcao nos fez ver que é um a mais e não quer tratamento preferencial. Isso torna tudo mais fácil para a comissão técnica. Ele dá um extra aos nossos jogadores, para que acreditem que não estamos tão distantes dos primeiros colocados”.

A identidade política do Rayo Vallecano

“O Rayo tem uma identidade própria, diferenciada dos demais, e no futebol o mais difícil é se diferenciar. Há muitos clubes que são quase iguais e o Rayo tem uma personalidade clara, que é positiva para o clube”.

A aposentadoria do futebol

“Sinto mais falta do jogo. Não há nada mais divertido que jogar. Minha aposentadoria no New York City FC foi uma decisão acertada. Eu vi que ia deixar de ser importante no Athletic e surgiu a chance de ir para lá, com todas as vantagens que isso tem. Aproveitar uma cidade assim e estar numa equipe com jogadores como Villa, Pirlo ou Lampard, e com jovens que agora estão triunfando, como Angeliño ou Jack Harrison. Tudo ótimo”.

O desejo de ser treinador

“Eu não tinha claro que queria ser treinador e não sabia se ia gostar. Tudo o que eu queria era experimentar. Eu me coloquei à prova nesse cenário de pressão e responsabilidade e, por sorte, as coisas estão indo bem até agora”.

O papel do VAR

“O VAR aumentou muito a justiça no futebol, mas foi vendido para nós como uma ferramenta que entraria em erros muito flagrantes, e a realidade é que decide todas as partidas, porque vai avaliar quase todas as jogadas polêmicas. O VAR está sendo mais intervencionista do que foi inicialmente vendido para nós e, sim, há bem menos erros, mas os erros que existem são mais difíceis de aceitar.”

Ingressos mais baratos

“Todos que fazemos parte da indústria do futebol jogamos e trabalhamos para o torcedor. Me dá pena quando vejo estádios vazios que, com outros preços de ingresso, estariam cheios. É necessária uma maior aproximação com o torcedor. Esse produto seria mais atrativo com preços mais sensatos, como acontece na Bundesliga. É a liga que melhor entendeu suas torcidas, é o modelo a se imitar”.

Jogadores vivendo em uma bolha

“É um mecanismo de defesa que os jogadores vivam em uma bolha. Quando você está constantemente exposto publicamente, todo o mundo fala de ti e as críticas negativas causam muitos danos. É uma forma que o jogador tem de se proteger de tudo isso. Eu vejo como uma reação natural”.

A relação dos jogadores com a sociedade

“Pode ser que uma porcentagem dos jogadores vivam de costas para a sociedade, mas falamos da elite. A grande maioria dos jogadores da primeira divisão, se você se aproxima deles, te responde com proximidade. Não se encaixam nesse perfil. O dinheiro é importante em todos os trabalhos, é por isso que a maioria das pessoas vai trabalhar. No futebol há uma quantidade de dinheiro que te dá a tranquilidade de viver sem preocupações, mas chega um momento, sobretudo se falamos de futebolistas que ganham milhões, que não creio que o dinheiro seja fundamental ou dê felicidade. É preciso diferenciar”.

O calendário sobrecarregado

“Todos vemos o que está se passando por causa do calendário. Em todas as partidas há jogadores lesionados, algumas lesões se emendam em outras, precisam jogar com as seleções antes de ter se recuperado e jogar com o clube… Não há um só momento durante a temporada para descansar, e o futebol não é como outros esportes que você pode jogar em dias seguidos. É um esporte que, muscularmente, é muito agressivo. E não falo das pancadas. Jogamos a cada três dias e isso já é um risco muito grande. Não se pode aumentar mais o número de partidas. Estamos no talo e talvez o que deveria se fazer é jogar partidas de maior importância”.

Diminuir salários para diminuir o calendário?

“A nível médico, é claro que estamos no limite. Isso não tem discussão. Se falarmos sobre o que os jogadores de futebol ganham, eles podem ser comparados com jogadores da NBA ou da NFL, e são esportes que ficam vários meses sem competir. É muito complicado dizer quanto vale uma partida e ganhar menos se jogar menos, porque alguns jogos não valem o mesmo que outros. Não é o mesmo o que vale uma partida de uma equipe que de outra, ou uma partida da primeira rodada da Copa que uma de Champions, ou um amistoso de seleções que uma Copa do Mundo. É um debate muito complexo”.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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