La Liga

Há 50 anos, um Valencia sólido levava o título espanhol em desfecho sensacional

Treinados por Alfredo Di Stéfano, os valencianos encerraram um jejum de 23 anos em 1970/71, com uma rodada final emocionante

Único título do Valencia na liga espanhola num período de 53 anos, a conquista do campeonato na temporada 1970/71, sacramentada há exatas cinco décadas neste domingo, teve vitórias expressivas sobre os gigantes do país, mas também momentos infartantes e uma rodada final épica, com o destino do caneco decidido só nos critérios de desempate. E eternizou uma equipe renovada, que incluía um punhado de nomes históricos dos Ches e sobretudo muito forte na defesa. No comando técnico, uma lenda que sabia tudo de bola: Alfredo Di Stéfano.

Fundado em 1919, o Valencia havia vivido sua era de ouro nos anos 1940, ao levantar três títulos da liga em 1942, 1944 e 1947, além de outros dois da Copa do Rei em 1941 e 1949. Eram tempos do atacante Edmundo Suárez, “Mundo”, maior artilheiro da história do clube com 238 gols entre 1939 e 1950, além de goleador do campeonato quando dos dois primeiros títulos valencianistas. Já na década seguinte, embora contasse com astros como o meia Antonio Puchades e o atacante holandês Faas Wilkes, as conquistas começaram a rarear.

A década de 1960 foi marcada pelo domínio completo dos clubes madrilenos na liga. Após o bicampeonato do Barcelona em 1959 e 1960, o Real enfileirou um penta entre 1961 e 1965 e mais adiante um tri entre 1967 e 1969, com o Atlético entrecortando as duas grandes sequências merengues ao vencer os títulos de 1966 e 1970. Mesmo assim, o Valencia conseguiu se colocar como um clube importante e vencedor: levantou um caneco nacional, a copa em 1967, e dois europeus, faturando a Copa das Feiras em 1962 e 1963.

“La Saeta Rubia” no comando

Os Ches, no entanto, pretendiam dar um salto maior. Assim, depois de terminarem a temporada 1969/70 com um quinto lugar na liga e o vice-campeonato da copa, numa final perdida diante do Real Madrid no Camp Nou, a diretoria resolveu trocar o comando do time e apostou em trazer de volta ao futebol espanhol um velho conhecido: Alfredo Di Stéfano, que havia conquistado o título argentino com o Boca Juniors em 1969 e era recrutado para elevar o clube de patamar, algo que o ex-jogador do clube Enrique Buqué não conseguira.

A primeira providência do novo treinador foi dispensar vários veteranos do elenco, sem poupar nem mesmo alguns nomes históricos do clube. O centroavante brasileiro Waldo (ex-Fluminense), já com 36 anos, seguiu para o Hércules. Outro ídolo da década anterior, o atacante Vicente Guillot acabou negociado com o Elche. E o ponta Enrique Collar, ex-Atlético de Madrid, penduraria as chuteiras também aos 36, após uma única temporada no clube. Outros – como o goleiro José Pesudo e o atacante Fernando Ansola – ficaram, mas relegados à reserva.

Em contrapartida, chegaram alguns atletas jovens e pouco badalados, mas com muita gana. Um deles era Carlos Pellicer, atacante revelado pelo Deportivo de La Coruña e encostado no Barcelona. Outro era o ponteiro-direito Sergio Manzanera, pinçado do Levante. Havia ainda José Vicente Forment, também atacante, que retornava de empréstimo do clube filial Mestalla ao Castellón. O último a chegar seria o ponta-esquerda argentino Óscar Rubén Valdéz, trazido do Platense e inscrito como “oriundo” já com o certame em andamento.

Naturalmente uma reformulação desse tipo, ainda mais pelos nomes envolvidos, precisaria ser apoiada por bons resultados e, inicialmente, não foi o que aconteceu. Em seus cinco primeiros jogos na liga, o time venceu só um, ao golear o Las Palmas por 5 a 1 em casa na segunda rodada. E essa solitária vitória veio entre duas derrotas: na estreia, ao visitar o Real Madrid (2 a 0), e duas semanas depois, em casa diante do Sevilla (1 a 0). A sequência inicial seguiu com dois empates: 2 a 2 diante do Granada fora e 0 a 0 com a Real Sociedad em casa.

O elenco

Na sexta rodada, contra o Sporting de Gijón na tarde de 17 de outubro, Valdéz finalmente seria liberado para estrear, depois de pronta toda a sua papelada. E o time voltou a vencer com participação direta do argentino no único gol da partida, ao lançar para a área uma cobrança de falta que o zagueiro Aníbal escorou para as redes aos 41 minutos do segundo tempo. Além de iniciar uma virada de chave na campanha, essa foi a partida na qual a equipe começou a tomar forma, definindo seus titulares, o posicionamento dos jogadores e o estilo de jogo.

A equipe-base começava com o goleiro Abelardo González, asturiano que viveria ali sua melhor temporada no clube, consagrando-se como pegador de pênaltis e conquistando o Troféu Zamora. No centro da defesa, Anibal Pérez, paraguaio com nacionalidade espanhola, foi titular indiscutível na campanha. Ao seu lado, como zagueiro com mais saída, o nome mais frequente foi José Antonio García, “Tatono”, ex-Murcia, ainda que os versáteis Jesús Martínez e Francisco Vidagany também tenham passado pelo setor, pelo centro ou pelos lados.

Os dois laterais, de características ofensivas, eram parte fundamental no sistema de jogo. Pela direita, havia Juan Cruz Sol, jogador de habilidade inata e que atuava com desembaraço. Titular absoluto da Espanha, era nome de referência na posição no futebol europeu na primeira metade dos anos 70. Já pela esquerda havia Antonio Martínez, “Antón”, jogador de muita valentia e jeito de xerife, mas cuja técnica foi aos poucos lapidada por Di Stéfano. A dupla promovia um apoio muito forte pelos flancos nas jogadas de ataque.

No meio-campo outra grande dupla empurrava o Valencia adiante e se destacava como o coração da equipe. José Claramunt, meia dinâmico, muito bom na distribuição de jogo, era um norte na equipe. Ao seu lado, Francisco García, o “Paquito”, era o mais veterano da equipe aos 32 anos e também o mais experiente, tendo participado da campanha espanhola nas Eliminatórias para a Eurocopa de 1964 (a qual a Roja conquistaria). Jogador criativo, talentoso, o grande cérebro da equipe, havia sido revelado pelo Oviedo, chegando aos Ches em 1963.

No ataque, o único a atuar em todas as partidas foi o arisco ponta-direita Sergio Manzanera, que ao início da temporada tinha apenas 19 anos. Como homem de área, quem se firmou ainda na metade do primeiro turno foi José Vicente Forment, cria do clube filial Valencia Mestalla que retornava de um empréstimo ao Castellón (pelo qual se destacara na segunda divisão) para ter enfim sua chance na equipe principal dos Ches – a qual ele retribuiria marcando oito gols e se tornando o artilheiro do time na campanha do título.

Outro nome do setor ofensivo, na verdade atuando mais na ligação com o meio-campo, era Carlos Pellicer, jogador inteligente, de bom drible e boa movimentação. Por fim, a partir do jogo com o Sporting de Gijón, o argentino Óscar Valdez passava a ocupar o lado esquerdo do ataque, cumprindo função de ponta mais recuado, ajudando a encorpar o setor criativo do time. Outro nome que também foi usado muitas vezes para essa tarefa foi o versátil Enrique Claramunt, irmão mais novo do titular do meio-campo e que ficou conhecido como “Claramunt II”.

Vitórias de gente grande

Enquanto esses titulares aos poucos eram definidos, a equipe iniciou uma sequência animadora, em especial defensivamente, a partir do 0 a 0 na visita à Real Sociedad na quinta rodada. Seriam sete jogos consecutivos sem sofrer gols, sendo cinco vitórias e dois empates, catapultando o time da décima para a terceira colocação. E, no caminho, obtendo vitórias que seriam colocadas como emblemáticas da campanha. Na sequência ao importante triunfo obtido em Gijón, o Valencia bateu o Málaga em casa (1 a 0) antes de visitar o Camp Nou.

Líder invicto e empatado em pontos com o Atlético, o Barcelona vinha do melhor dos resultados: uma vitória sobre o Real Madrid (1 a 0) no Chamartín. O time dirigido pelo inglês Vic Buckingham (um dos pais do “futebol total”) chegava, portanto, embalado para o confronto com os Ches no dia 31 de outubro de 1970. Porém a empolgação azulgrana começou a murchar logo aos nove minutos, quando, após uma boa combinação, Claramunt recebeu de Forment e bateu forte de fora da área bem no canto do goleiro Sadurní para abrir o placar.

Para piorar as coisas para os donos da casa, Abelardo fazia partida sensacional no gol do Valencia. E teria a oportunidade de se consagrar aos nove minutos da etapa final, quando o árbitro José Luís Orrantía apitou pênalti de Tatono em Juan Carlos. O lance poderia marcar o início da reação barcelonista. Mas o arqueiro voou para espalmar a cobrança colocada do meia Martí Filosia. Além do baque emocional, os catalães ainda assistiam a um Valencia cada vez mais controlando o meio-campo, com Claramunt e Paquito ajudados por Pellicer e Antón.

Assim, e diante do nervosismo do adversário, o segundo gol do Valencia era questão de tempo. E veio aos 37, com Valdéz aproveitando uma indecisão na defesa azulgrana para mandar às redes e selar a vitória. Na rodada seguinte, agora em casa, seria a vez de derrubar o outro invicto, um retrancado Atlético de Madrid que foi ao Luis Casanova (nome de então do Mestalla) para não perder, mas saiu derrotado com um gol de Sergio aos 25 minutos da etapa final, após cruzamento rasteiro de Forment. E a equipe de Di Stéfano subia uma posição.

A boa sequência ainda registraria um empate sem gols na visita ao Athletic Bilbao e uma vitória por 2 a 0 sobre o Zaragoza em casa, com gols de Paquito e Forment. Mas, após oito partidas sem perder. o Valencia voltaria a cair: agora em Vigo diante do Celta (1 a 0). Menos mal que três bons triunfos na reta final do primeiro turno – 2 a 1 no Sabadell e no Espanyol com um 3 a 1 diante do Elche fora de casa entre eles – não deixaram o time sair dos trilhos e o fizeram vice-líder, após o Barcelona vencer o confronto direto com o Atlético na Catalunha.

A escalada até a liderança

O fim do primeiro turno coincidia com a virada do ano. O Valencia encerrara ambos na segunda colocação com os mesmos 21 pontos do Atlético e um atrás do então líder Barcelona. Um pouco mais afastados, com 19, vinham Real Madrid e Celta. E seriam os merengues os adversários dos Ches na abertura do returno. Com Di Stéfano pretendendo dar o troco em seu antigo clube dos tempos de jogador pela derrota na estreia, o Valencia apertou o Real Madrid já de saída, carimbou a quina da trave numa falta cobrada por Antón e abriu o placar aos 33 minutos.

O gol originou-se de outra falta batida pelo lateral-esquerdo, mas não saiu de seus pés. O rebote sobrou para Forment, que driblou dois defensores madridistas e chutou forte vencendo o goleiro Borja. Outra vez controlando o meio-campo com ó auxílio dos laterais e do recuo de Pellicer, o Valencia foi bem melhor na primeira etapa, mas os papeis se inverteram na segunda, quando os merengues cresceram no jogo e tiveram inúmeras chances de empatar, mas falharam em acertar o alvo. No fim, apesar do equilíbrio, a vitória do Valencia acabou sendo justa.

Além do grande resultado obtido no Luis Casanova, as boas notícias também chegavam do Camp Nou, onde o Barcelona havia sido surpreendido pelo Athletic Bilbao (derrota por 1 a 0 com gol de Zubiaga a quatro minutos do fim). Com isso, o Valencia assumia a liderança pela primeira vez na temporada, com os mesmos 23 pontos do Atlético de Madrid, mas superando os colchoneros no desempate pelo “goal average”. Enquanto isso, o Barça estacionava nos 22 e o Real Madrid, com a derrota, ficava ainda mais distante da briga, com apenas 19 pontos.

Porém, numa disputa tão acirrada no topo, os pontos perdidos nos empates fora de casa com Las Palmas (0 a 0) e Sevilla (2 a 2, num jogo em que os Ches estiveram duas vezes em vantagem no placar) fizeram falta, com a equipe descendo para a terceira colocação. Na 19ª rodada, porém, os outros resultados voltaram a jogar a favor: o Valencia bateu o Granada (2 a 1) graças a um gol de Forment a 13 minutos do fim. E, com as derrotas do Barcelona para o Sabadell (2 a 1) e do Atlético para o Celta (3 a 2), também recuperou a liderança.

Curiosamente, em seguida vieram três resultados idênticos aos do primeiro turno (com o mando invertido, é claro): primeiro outro 0 a 0 com a Real Sociedad e depois duas vitórias pelo placar mínimo diante de Sporting de Gijón e Málaga. Naquela altura, 22ª rodada, metade do returno, o Valencia se mantinha na liderança com 32 pontos, seguido por Atlético de Madrid (31), Athletic de Bilbao e Barcelona (29) e Real Madrid (28). E se via às portas de sua sequência mais pesada de confrontos, que poderia indicar se a equipe estava de fato pronta para o título.

A disputa afunila

O primeiro adversário seria o Barcelona no Luis Casanova. Diferentemente do duelo do primeiro turno, desta vez os catalães vinham pressionados: só haviam vencido um jogo dos últimos quatro e haviam levado o troco do Real Madrid, que faturara também por 1 a 0 o Superclássico no Camp Nou na rodada anterior. E o jogo em si também foi bem distinto: os azulgranas abriram o placar com Rexach aos 15 minutos e ainda no primeiro tempo o mesmo atacante acertou duas vezes a trave. Mas o Valencia empatou com Paquito aos 34.

Somente na etapa final é que os Ches se reencontraram no jogo e passaram a pressionar o Barça, porém sem conseguir a virada. Em seguida viria a visita ao Atlético de Madrid em Manzanares. Sem Pellicer desde antes do jogo com o Barcelona, o Valencia perdeu sua outra peça do centro do ataque, Forment. Di Stéfano resolveu então recorrer ao meia Jesús Martínez na tentativa de compactar o setor e escalou pela única vez em toda a temporada da liga o atacante José Nebot. E a equipe vinha fazendo um bom jogo até os 36 minutos.

Foi quando, após uma grande jogada de Ufarte pela ponta direita, Gárate abriu a contagem para os colchoneros. Ir para o intervalo perdendo já era um tanto injusto pelo bom futebol exibido pelos Ches na etapa inicial. Mas o cenário se agravaria quando Valdez, um dos homens de frente mais perigosos da equipe, se lesionou logo aos quatro minutos do segundo tempo e deu lugar a Claramunt II. O Atlético fez o segundo com Ufarte aos 13 e o terceiro com Luís Aragonés aos 21, sacramentando uma vitória ao final categórica.

Além de encerrar a invencibilidade de 11 jogos do Valencia, o resultado também tirou os Ches da liderança, ultrapassados pelo próprio Atlético no “goal average”. E com as vitórias do Barcelona sobre o Sevilla (5 a 2) e do Real Madrid sobre o Athletic em Bilbao (1 a 0), os quatro primeiros colocados agora estavam separados por apenas um ponto – Atlético e Valencia com 33, Real e Barça com 32. Desperdiçada a chance de colocar frente sobre os concorrentes diretos, o Valencia agora precisava juntar os cacos a seis rodadas do fim do campeonato.

A goleada para ressurgir

O Athletic Bilbao seria o adversário seguinte no Luis Casanova. Os bascos tinham chegado a colar nos ponteiros ao enfileirar cinco vitórias consecutivas na largada do returno. Mas as três derrotas nas quatro partidas seguintes afastaram os comandados do inglês Ronnie Allen da briga – o time agora era o quinto, com 29 pontos, quatro a menos que os Ches. Para o Valencia, portanto, a ordem era não permitir a recuperação do adversário. E a resposta viria com uma grande exibição de Claramunt e também do setor mais criticado da equipe: o ataque.

Empurrado pela torcida, que rapidamente esqueceu a derrota em Manzanares, o time sufocou o Athletic desde o primeiro minuto, mas só abriu o placar aos 36 num chute de Valdez que traiu o goleiro Iribar. Na etapa final o time deslanchou: aos nove, Forment recebeu de Sergio e fez grande jogada, fintando um defensor e tocando na saída do arqueiro. Aos 22, o próprio Sergio cobraria fechado um escanteio e marcaria um incrível gol olímpico. Quatro minutos depois, Claramunt recebeu e fechou o placar em 4 a 0 – e poderia ter sido mais elástico.

No mesmo dia, o empate do Atlético de Madrid diante do Sevilla na Andaluzia (1 a 1) significava que agora o Valencia era líder isolado com 35 pontos, um a mais que a trinca Atlético-Barça-Real. Olhando a tabela, entre os cinco últimos adversários estavam quatro times ocupando as últimas posições, incluindo os dois prováveis rebaixados. Não era a hora de arrefecer as turbinas. Em 21 de março, a equipe visitaria o lanterna Zaragoza. Mas não seria fácil, com os Ches sem três titulares e os donos da casa ainda sonhando em escapar da degola.

No primeiro tempo em La Romareda, os aragoneses dominaram o jogo e tiveram um gol de Violeta anulado por impedimento. Logo no primeiro minuto da etapa final, porém, Claramunt II abriria o placar para o Valencia, pegando rebote do goleiro Nieves. No fim, aos 38, Antón marcou um belo gol (seu primeiro na liga) driblando três adversários e chutando forte, embora os locais tenham reclamado impedimento de Forment no início da jogada. Uma vitória fundamental para seguir na liderança, um ponto à frente dos perseguidores.

Testes para cardíacos

Os dois jogos seguintes colocariam à prova os corações dos torcedores do Valencia. O primeiro deles, diante do Celta no Luis Casanova. Em quinto na tabela, os galegos vinham de vencer o Real Madrid em Vigo, onde também já haviam batido o próprio Valencia e o Atlético e empatado com o Barcelona. E mesmo jogando fora de casa naquela tarde de domingo, 28 de março, tratariam de complicar ao exercer forte marcação no meio-campo – em especial sobre Claramunt – e tomar conta do setor, amarrando o time de Alfredo Di Stéfano.

Ainda assim, o Valencia conseguiu sair na frente aos 30 minutos, com Claramunt II recebendo de Antón após uma cobrança de falta e tocando para as redes. Porém, pareceu ter colocado tudo a perder numa falha defensiva que resultou no gol de empate do Celta, marcado por Lezcano, aos 15 minutos da etapa final. Para piorar, o árbitro Gómez Platas ainda anularia dois gols do time da casa – o segundo deles, aos 42 minutos do segundo tempo, foi recebido com protesto dos torcedores, que atiraram as cadeiras em direção ao campo.

Até que, já nos acréscimos, aos 47 minutos, o Valencia teve mais um escanteio, o 14º a seu favor na partida. Sergio fez a cobrança e, em meio ao caos na área do Celta, Forment foi o herói com a cabeçada certeira para dar a vitória aos donos da casa e enlouquecer a torcida. Como se só um jogo dramático, angustiante, infartante fosse pouco, a partida contra o Sabadell no estádio da Nova Creu Alta na tarde de 4 de abril seguiria roteiro semelhante, com o resultado sendo definido somente na última volta do ponteiro.

A jogada começou aos 44 minutos quando o lateral-esquerdo Antón cortou no campo de defesa um ataque do Sabadell e avançou. Driblou e deixou pelo caminho o atacante Marañón, que não o acompanhou na marcação. Mais adiante, tabelou com Paquito e, ao receber de volta, disparou um petardo de perna direita de uma distância de 30 metros. Estático, o goleiro Martínez não acreditou no chute, que entrou no ângulo. Os milhares de torcedores valencianistas que viajaram até a cidade catalã novamente desataram num êxtase coletivo.

Jogo mais tranquilo seria o da penúltima rodada, no domingo de Páscoa em casa contra o Elche, cujo rebaixamento havia sido confirmado no fim de semana anterior. Mesmo com o meia Paquito poupado para a rodada decisiva (em seu lugar jogou Pellicer, recuado para o posto de armador), o Valencia não teve trabalho para vencer por 3 a 0. Tanto que todos os gols foram marcados ainda na primeira etapa. Na segunda, se resolvesse apertar mais um pouco, o time da casa até poderia chegar à goleada, mas preferiu guardar suas forças.

Valdez abriu o placar aos 24 minutos completando jogada de Sergio e Claramunt pela direita e anotou também o segundo, aos 37, ao aproveitar um recuo errado na defesa do Elche. O terceiro saiu aos 42, depois que Antón encheu o pé na cobrança de uma falta no limite da área, o goleiro Mendoza deu rebote e Claramunt II foi o último a tocar na bola antes de ela seguir para as redes. Ainda na rodada, em outro bom resultado para o Valencia, o Atlético parou no 0 a 0 na visita ao Málaga, enquanto o Barcelona venceu em casa o Las Palmas (2 a 0).

A incrível última rodada

Assim, o campeonato chegava à última rodada tendo o Valencia como líder somando 43 pontos, contra 42 do Barcelona e 41 do Atlético. O Real Madrid vinha em quarto apenas um ponto atrás, mas já sem chances matemáticas de título. Havia, porém, um detalhe: colchoneros e azulgranas se enfrentariam em Manzanares. O Valencia, que iria ao Sarriá enfrentar o Espanyol, precisava da vitória para confirmar a conquista. Caso não conseguisse, havia consideráveis chances de o título ser decidido nos intrincados critérios de desempate.

Cerca de 20 mil torcedores valencianistas compareceram ao Sarriá para empurrar o Valencia em busca de sua sexta vitória seguida na liga diante do Espanyol, 12º colocado e já sem aspirações. Mas eles sofreram: nervoso, o líder não conseguiu se impor no jogo (“Fizemos nossa pior partida da temporada”, admitiria Di Stéfano após o duelo). Enquanto isso, em Manzanares, o outro confronto começava quente, com um pênalti reclamado para cada lado. No intervalo, o empate sem gols persistia tanto na Catalunha quanto em Madri.

Os três tentos que marcaram os confrontos decisivos aconteceram quase simultaneamente. Aos 14 minutos em Manzanares, num escanteio, Martí Filosia recebeu passe de cabeça de Dueñas e escorou também numa cabeçada abrindo a contagem para o Barcelona. Mais ou menos no mesmo momento saía o gol no Sarriá. E para o Espanyol: José María levantou uma cobrança de falta para a área e Lamata, também de cabeça, arrematou. Por uns breves minutos, os azulgranas estavam com a mão na taça, graças aos Pericos. Mas o cenário logo mudaria.

Quatro minutos depois do gol do Barça, o Atlético empataria num contra-ataque. Luís Aragonés foi lançado por Salcedo e ganhou na corrida de Gallego antes de fuzilar o goleiro Reina. Logo a seguir, a notícia do gol do Espanyol chegava ao estádio colchonero através dos radinhos de pilha. O título voltava a ser do Valencia, empatado em pontos com os azulgranas, mas em vantagem no confronto direto. Porém ainda havia muito drama pela frente. O Atlético, animado, passou a pressionar o Barça, mas logo perderia Luís Aragonés, lesionado.

No Sarriá, um ansioso Di Stéfano se virava a todo momento às arquibancadas perguntando aos torcedores qual era o resultado em Madri. E a tensão só acabou mesmo com o apito final nos dois jogos. A combinação de resultados coroava o Valencia como campeão depois de 23 anos encerrava a hegemonia recente dos clubes da capital. Um título merecido para a equipe que passou quase todo o returno na ponta e registrou uma campanha com números bastante sólidos, especialmente jogando em seu estádio Luis Casanova.

Nas 30 partidas da campanha, os Ches somaram 18 vitórias, sete empates e cinco derrotas. Se o ataque pareceu econômico, anotando 41 gols, vale lembrar que foi ainda assim o quarto melhor do campeonato. Já o desempenho defensivo foi extraordinário: apenas 19 gols sofridos. A equipe passou sem ser vazada em 16 partidas, mais de um turno inteiro. O time ainda chegou perto de uma dobradinha, alcançando em seguida a final da copa. Mas desta vez o Barcelona deu o troco e venceu na prorrogação por 4 a 3 em jogo de arbitragem contestada.

Do time titular daquela campanha, cinco jogadores (Sol, Antón, Claramunt, Paquito e Valdez – este como “oriundo”) haviam defendido ou defenderiam a seleção da Espanha, além do goleiro Abelardo, que chegou a ser convocado, mas não entrou em campo. Na temporada seguinte, com o ataque reforçado, o Valencia chegou outra vez perto do título, mas ficou a dois pontos do Real Madrid na liga, perdendo também a copa para o Atlético. Na Copa dos Campeões, porém, cairia ainda nas oitavas de final diante dos húngaros do Újpest Dozsa.

A reconquista do título espanhol só viria 31 anos depois sob o comando de Rafa Benítez – e logo após o time, então dirigido pelo argentino Héctor Cúper, chegar por dois anos seguidos à final da Liga dos Campeões, perdendo para Real Madrid e Bayern de Munique. Curiosamente, naquela conquista o time também calcava seu jogo numa defesa forte, com números ofensivos menos exuberantes. Dois anos depois, o campeonato seria vencido pela sexta e última vez, somado ao caneco da Copa da Uefa, na final contra o Olympique de Marselha.

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas. Para visualizar o arquivo, clique aqui. Confira o trabalho de Emmanuel do Valle também no Flamengo Alternativo e no It’s A Goal.

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Emmanuel do Valle

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas.

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