Há 20 anos, uma Real Sociedad encantadora ficava no quase em La Liga, mas marcava a história do clube
A Real Sociedad flertou com o rebaixamento em várias temporadas na virada do século, mas ameaçou desbancar o galáctico Real Madrid ao liderar na maior parte de La Liga 2002/03

Durante a virada do século, La Liga teve uma série de campeões que fugia do duopólio estabelecido entre Real Madrid e Barcelona. O Atlético de Madrid levou a dobradinha nacional com uma formação histórica. O Deportivo de La Coruña penou por um tempo, mas também chegou à taça com seu super time. Já o Valencia conseguiria alcançar o topo duas vezes num intervalo de três anos. Também existiram aqueles que tentaram e ficaram bem próximos do sucesso, mas por um triz deixaram o caneco escapar. A Real Sociedad de 2002/03 é um grande exemplo. Formou um de seus times mais marcantes há 20 anos, numa campanha que rendeu o sonho até a última rodada, e mesmo o vice seria comemorado pela torcida. Raynald Denoueix treinava uma equipe de futebol agressivo e veloz, que elencava destaques do nível de Xabi Alonso, Nihat Kahveci, Darko Kovacevic, Valeriy Karpin e Javier de Pedro. Os txuri-urdin ocuparam a liderança em boa parte do Campeonato Espanhol e amedrontaram um galáctico Real Madrid recém-reforçado por Ronaldo. Aquele seria um ponto fora da curva para os bascos em anos duros, que ainda alimenta saudades.
O período glorioso da Real Sociedad já tinha ficado para trás faz tempo na virada do século. Os Pericos viveram seu auge com o bicampeonato espanhol no início dos anos 1980, enquanto o final daquela década ainda rendeu um vice da Liga e um título da Copa do Rei. Os anos 1990, contudo, viram os bascos se tornarem coadjuvantes, quase sempre no meio de tabela em La Liga. A terceira colocação de 1997/98 acabou se tornando uma grande exceção, sem que o time realmente competisse pelo troféu com o Barcelona. Ainda ficou abaixo do rival Athletic Bilbao e, em tempos de vagas na Champions League limitadas, também de fora do torneio continental.
Aquela boa campanha sequer teria reflexos nas temporadas seguintes. A Real Sociedad despencou para a décima colocação na campanha de 1998/99. Já a partir de 1999/00, se iniciou um ciclo que é considerado um dos piores da história dos txuri-urdin: foram três campeonatos seguidos no 13° lugar, com temores reais de rebaixamento. Na primeira dessas campanhas caóticas, nem mesmo a aposta em Javier Clemente, técnico da Espanha em duas Copas do Mundo, deu certo. O comandante vitorioso no Athletic Bilbao não conseguiu causar o mesmo impacto em San Sebastián e a Real frequentou o Z-3 até meados do segundo turno. Até conseguiu uma sequência mais consistente na reta final de campanha, mas só ficou cinco pontos acima do rebaixamento ao final de La Liga 1999/00.
Na temporada seguinte, a bagunça da Real Sociedad teve três comandantes diferentes. Javier Clemente não durou mais do que seis rodadas, engolindo um 6 a 0 do Barcelona, mas também goleadas de Celta de Vigo e Rayo Vallecano. A solução esteve em buscar Periko Alonso, lenda do clube, bicampeão espanhol nos anos 1980. Estreou com outra saraivada, agora num 4 a 1 do Real Madrid, e não conseguiu botar o time nos trilhos. A solução viria com John Toshack, comandante de passagem marcante pela própria Real no fim dos anos 1980 e que também teve seus sucessos no Real Madrid. Os txuri-urdin estavam na penúltima posição a dez rodadas do fim, mas de novo se alavancaram na reta final e fecharam La Liga 2000/01 dois pontos acima do Z-3. As consequências daquela campanha seriam mais profundas na estrutura do clube, com a convocação de eleições extraordinárias que botaram José Luis Astiazarán na presidência.

Existiam perspectivas de novos tempos na Real Sociedad para a temporada 2001/02. Os bascos mantinham John Toshack no cargo e traziam reforços interessantes para tentar ascender na tabela. O novo goleiro era o holandês Sander Westerveld, reserva de Edwin van der Sar na seleção e que chegou a colecionar três títulos de copas com o Liverpool em 2000/01, mas perdeu a posição logo depois sem transmitir confiança. A defesa ganhava Bjorn Tore Kvarme, mais um ex-Liverpool, que estava no Saint-Étienne e vinha ao lado de Luiz Alberto, antiga revelação do Flamengo. Já no ataque, as principais expectativas ficavam pelo retorno de Darko Kovacevic, centroavante que liderou os txuri-urdin na campanha pelo terceiro lugar em 1997/98, mas não teve a mesma efetividade ao passar pela Juventus e pela Lazio. A aposta no setor se concentrava em Nihat Kahveci, reserva da seleção turca que tinha sido lançado pelo próprio Toshack no Besiktas.
Aquela reforçada Real Sociedad, porém, ainda não deu certo. O roteiro foi muito parecido com o das temporadas anteriores. Os txuri-urdin não conquistaram uma vitória sequer nas primeiras oito rodadas, o que deixou o time na lanterna de La Liga. Toshack ainda manteve a confiança da nova diretoria e teve uma breve recuperação no meio do primeiro turno, o que não durou. Os bascos não conseguiam se distanciar da zona de rebaixamento e ocupavam a penúltima colocação com nove rodadas pela frente. Foi neste momento que Toshack perdeu o seu emprego. Já sem ter muito para onde fugir, o clube resolveu confiar o comando a Roberto Olabe, antigo goleiro reserva da equipe nos anos 1990, que agora treinava os juvenis. Seria ele o responsável pelo milagre, com cinco vitórias nesta reta final e um respiro de sete pontos acima do Z-3 ao término de La Liga 2001/02.
Ficava claro como a Real Sociedad necessitava de um projeto mais consistente, que não olhasse apenas para o passado. Roberto Olabe, porém, não continuou como treinador. O ex-goleiro seria realocado como diretor esportivo dos txuri-urdin. E fez uma escolha muito interessante para o comando técnico, ao buscar Raynald Denoueix na França. Era um treinador discreto, distante dos perfis de seus antecessores, mas referendado pelos bons resultados com o Nantes e pela fama na revelação de talentos. Curiosamente, a recomendação tinha vindo de José María Amorrortu, antigo diretor da base do Athletic Bilbao. Uma dica valiosa que fortaleceu os rivais.
Denoueix teria na Real Sociedad sua primeira experiência fora de La Beaujoire, após uma vida inteira dedicada ao Nantes. Nos tempos de defensor, conquistou o Campeonato Francês duas vezes e fez parte de grandes formações dos Canários na década de 1970. Após pendurar as chuteiras, em 1982, o prata da casa se encarregou de trabalhar com as fortíssimas categorias de base dos auriverdes. Seriam 15 anos nesse processo formativo, auxiliando na eclosão de talentos como Didier Deschamps, Marcel Desailly, Claude Makélélé e Christian Karembeu. Já em 1997, seria promovido a técnico do time principal, substituindo o lendário Jean-Claude Suaudeau – de quem herdara a base. Conquistou o bicampeonato da Copa da França em 1998/99 e em 1999/00, bem como o troféu da Ligue 1 em 2000/01.

O Nantes não percebia, mas aqueles eram tempos de enfraquecimento do clube depois de uma década de 1990 ainda significativa. Raynald Denoueix conquistou seus títulos com um elenco que não deu tantos frutos posteriores. E diante dos resultados ruins em 2001/02, a lenda auriverde acabou demitida após mais de 30 anos de casa. Parecia difícil recomeçar em qualquer outro lugar, e Denoueix ainda permaneceu reticente quando recebeu os primeiros contatos da Real Sociedad. Entretanto, logo o francês percebeu que uma estrutura muito parecida com a dos Canários reinava no País Basco. Era uma equipe de contatos mais próximos e um ambiente um tanto quanto familiar. Além disso, as fortes categorias de base também motivavam o novo comandante. Ele teria um projeto maior a guiar e, por isso, assumiu a direção dos txuri-urdin.
O bom trabalho de base da Real Sociedad se refletia no elenco principal rumo à temporada 2002/03. Nada menos que cinco jogadores da formação titular vinham das canteras bascas. Àquela altura, o principal nome era o meia Javier de Pedro. O armador tinha ascendido como uma referência da Real ainda em meados dos anos 1990 e era considerado um dos jogadores mais técnicos de La Liga, dono de uma excelente canhota. Não à toa, mesmo a penúria dos bascos na competição não impedia o jogador de frequentar a seleção da Espanha. Seria um dos únicos três jogadores dos txuri-urdin que disputaram a Copa do Mundo de 2002. Outros pratas da casa mais antigos na equipe titular eram os laterais. Aitor López Rekarte e Agustín Aranzábal também ascenderam à equipe durante os anos 1990. Eram dois jogadores de ótimo nível no apoio, ambos convocados à seleção da Espanha. Capitão dos txuri-urdin, Aranzábal teve mais sucesso com a Fúria, reserva na Copa de 1998 e titular na Euro 2000.
Enquanto isso, o meio-campo da Real Sociedad via a ascensão de dois talentos mais jovens. Mikel Aranburu se transformaria numa bandeira dos txuri-urdin. O volante nunca defendeu outro clube na carreira e pendurou as chuteiras entre os dez futebolistas que mais vestiram a camisa dos bascos. O craque, porém, estava ao seu lado. Xabi Alonso carregava enorme expectativas já por seu sobrenome. O garoto era filho de Periko Alonso e visto como um herdeiro da antiga lenda da Real. Tinha o DNA do clube, mesmo que tenha passado parte de sua formação no Antiguoko. Curiosamente, Xabi estava emprestado ao Eibar quando seu pai, Periko, passou pelo comando da primeira equipe em 2000/01. Na volta ao clube, o garoto seria colocado sob as asas de John Toshack, que deu a braçadeira de capitão mesmo aos 20 anos e criou uma rotina específica de treinos para aprimorá-lo. Todo mundo tinha certeza que, dali, sairia um craque.
Raynald Denoueix não realizaria mudanças drásticas nesta espinha dorsal da Real Sociedad. Pelo contrário, tentaria potencializar as características dos jogadores que já estavam no clube. Outras contratações recentes permaneciam com moral. Kovacevic recobrou sua fome de gols ainda na reta final da temporada 2001/02, com um papel central para garantir os pontos que permitiram a fuga do rebaixamento. Nihat ainda teve uma temporada de estreia tímida, mas voltava da Copa do Mundo com o moral inflado após ser reserva na histórica campanha da Turquia até as semifinais do Mundial. Já Westerveld retomava os prumos da carreira e crescia como um goleiro decisivo, também evoluindo com o time na permanência na elite. Podia cometer seus deslizes, mas também sabia colecionar seus milagres.

O mercado de transferências da Real Sociedad para a temporada 2002/03, desta maneira, serviria apenas para garantir acréscimos pontuais ao time. O miolo de zaga era visto como um ponto fraco dos txuri-urdin. A principal adição nesse sentido era de Gabriel Schürrer, jogador com passagem pela seleção da Argentina. O beque tinha rodagem por diferentes clubes de La Liga, titular em parte da campanha do Super Depor campeão em 1999/00, embora viesse de duas temporadas no Las Palmas. Outro a se juntar por ali era o jovem Sergio Boris, zagueiro vindo do Oviedo. Neste caso, a promessa chamava atenção por ser o primeiro espanhol nascido fora do País Basco a ser contratado pela Real Sociedad em 35 anos. Ambos se uniam no setor a Bjorn Tore Kvarme e também a Igor Jauregi – que, se não era um prata da casa, tinha rodado pelo clube desde cedo e assumiria o posto de titular. Virou imprescindível no centro da zaga, ainda mais com a saída de Luiz Alberto.
O grande reforço da Real Sociedad, de qualquer maneira, estava no meio-campo. Valeriy Karpin era considerado um dos grandes maestros do Campeonato Espanhol desde a década de 1990. Trazido do Spartak Moscou depois da Copa de 1994, o meia seria destaque dos txuri-urdin em suas duas primeiras temporadas em La Liga. Exibiu doses cavalares de talento, a ponto de passar depois pelo Valencia. Se não deu certo no Mestalla, sua mudança para o Celta de Vigo seria lendária. O russo é considerado um dos maiores jogadores celestes da história, liderando grandes campanhas não só na Espanha, mas também na Copa da Uefa. Entretanto, o armador saiu em litígio com a diretoria galega sobre o seu tempo de contrato. A Real Sociedad o fisgou de volta, com um vínculo mais longo ao veterano, sob a ideia de que ele se aposentaria no País Basco. Ainda houve certa resistência de antigos companheiros, incluindo De Pedro, por conta de declarações desaforadas de Karpin sobre a organização dos txuri-urdin na época em que saiu para o Valencia. Nada que não pudesse ficar para trás rapidamente.
Vale mencionar ainda que a Real Sociedad contou com outros reservas de valor no meio-campo para a temporada 2002/03, mesmo aqueles mais antigos no clube. Entre os promovidos para o time principal estava o meia Mikel Alonso, um ano mais velho que o irmão Xabi e mais ofensivo, mas sem a mesma qualidade técnica. Igor Gabilondo era outra cria da casa que tinha grande serventia na rotação, muito embora tenha criado uma identificação maior posteriormente no Athletic Bilbao. José Javier Bakero, por sua vez, estava de volta ao clube de seus primórdios após defender Toulouse e Eibar. Mais dois estrangeiros auxiliavam não apenas a dar profundidade ao elenco, como faziam companhia aos compatriotas mais notáveis. Dmitriy Khokhlov podia não ter a cátedra de Karpin, mas disputou a Copa de 2002 com a Rússia. Comprado junto ao PSV em 1999/00, após ser campeão da Eredivisie, o volante tinha sido titular da Real nas três temporadas anteriores e perdeu espaço com a ascensão dos garotos da base. Já Tayfun Korkut chegou como ídolo do Fenerbahçe e era titular da Turquia na Euro 2000, mas perdeu minutos gradativamente com os bascos.
Raynald Denoueix não era um treinador tão inventivo na hora de armar o time. Sua ideia era a de um futebol prático e competitivo, que gerasse vitórias, não necessariamente entretenimento ao público. Mesmo assim, o estilo direto praticado pela Real Sociedad enchia os olhos. Os txuri-urdin se baseavam primeiro numa marcação forte e compacta, de espaços bem ocupados no 4-4-2 sem grandes floreios do francês. Já no ataque, o comandante priorizava a velocidade para que seus jogadores se desmarcassem e criassem espaços. Davam amplitude e profundidade à equipe, com mecanismos muito bem azeitados. A palavra de ordem era “passar e correr”, num time que jogava a 300 km/h. O controle de espaços se dava a partir da mobilidade.

Uma das forças daquela Real Sociedad era seu apoio nas laterais. López Rekarte na direita e principalmente Aranzábal na esquerda tinham muita liberdade para se mandar à linha de fundo. Seus cruzamentos eram armas constantes. Como a defesa geralmente composta por Schürrer e Jauregi não era das mais confiáveis, Aranburi e Xabi Alonso atuavam de maneira mais fixa no centro do meio-campo – o que, no fim das contas, também se tornava uma virtude dos txuri-urdin. Desde cedo, o filho de Periko Alonso demonstrava sua precisão nos lançamentos e na construção de jogo. Era quem mandava prender e soltar naquela equipe, além de também se arriscar nos chutes de fora da área. Denoueix o definiu, anos depois, como o “perfeito exemplo do que é futebol: a bola nos pés e o jogo na mente”.
Melhor ainda, Xabi Alonso tinha outros jogadores talentosos para se associar. Como os dois laterais avançavam bastante, a tendência era a de que os dois meias abertos buscassem o centro do campo. Com isso, De Pedro e Karpin também eram termômetros na organização, assim como jogadores capazes de criar situações de gol. A missão de balançar as redes, de qualquer maneira, se concentrava nos atacantes. Kovacevic e Nihat providenciavam a combinação perfeita do que se imaginava de uma dupla de ataque. O sérvio era o centroavante com presença de área, força no jogo aéreo e enorme capacidade de finalização. O turco era bem mais veloz e arisco, garantindo movimentação ao setor, mas ainda contando com uma patada de perna direita.
De início, a Real Sociedad nem era vista como candidata a grandes feitos em La Liga. Pelo contrário, a imprensa espanhola apontava que a permanência sem tantos riscos já seria vista como uma grande vitória. “Empenhada de forma sensata em sua reconstrução, a Real não fala de outro objetivo que não seja evitar a todo custo os postos de descenso. Ao menos, nesta ocasião, a coerência, a modéstia e a prudência acompanham os movimentos de um clube que quer romper definitivamente com as convulsões que começavam a torná-lo irreconhecível”, pontuava o jornal El País, naquele momento. O periódico ainda enfatizava como a diretoria fazia um bom trabalho ao conseguir reduzir a folha salarial em 24%, sobretudo com a saída de um treinador caro como Toshack.
Em tempos bem mais abastados de La Liga, os favoritos ao título eram outros. A começar pelo Real Madrid, dirigido por Vicente del Bosque e que vinha de três troféus na Champions League em cinco anos. O projeto galáctico de Florentino Pérez estava a todo vapor com Zinedine Zidane, Luis Figo, Roberto Carlos, Claude Makélélé, Fernando Hierro, Iker Casillas e Raúl González. A cereja do bolo ficava por conta de Ronaldo, trazido da Internazionale após arrebentar na Copa do Mundo e prestes a levar mais uma Bola de Ouro. O Barcelona atravessava um período bem mais instável, mesmo com a volta de Louis van Gaal – depois substituído por Radomir Antic. No papel, ainda assim, era um time respeitável. A legião holandesa reunia Frank de Boer, Michael Reiziger, Patrick Kluivert e Marc Overmars. Havia ainda uma ala argentina, com Javier Saviola e Roberto Bonano, além dos recém-chegados Juan Román Riquelme e Juan Pablo Sorín. Isso sem esquecer os espanhóis, com Luis Enrique e Gaizka Mendieta puxando a fila para garotos como Xavi e Carles Puyol. Ainda aparecia um grupo brasileiro de jovens, como Geovanni, Fábio Rochemback e Thiago Motta.

Bem mais cotado estava o Valencia. O time de Rafa Benítez, afinal, era o campeão da temporada anterior e jogava o fino. Era uma escalação fortíssima com Pablo Aimar, Santiago Cañizares, Roberto Ayala, Rubén Baraja, David Albelda, Vicente, Francisco Rufete e John Carew. O brasileiro Fábio Aurélio também era um trunfo na lateral esquerda. Respeitava-se muito também o Deportivo de La Coruña, campeão três anos antes e que vinha de um título bastante simbólico na Copa do Rei de 2001/02. Javier Irureta seguia à frente do timaço que possuía Roy Makaay e Diego Tristán em grande fase no ataque, além de Fran e Noureddine Naybet como outros pilares. Acontecia, porém, também uma passagem de bastão. Mauro Silva era o único brasileiro como titular absoluto, enquanto Donato perdia espaço e Djalminha era cedido ao Áustria Viena.
O pelotão intermediário de La Liga ainda reunia outros bons times. Miguel Ángel Lotina treinava o Celta de sangue sul-americano. Argentinos como Pablo Cavallero, Fernando Cáceres, Eduardo Berizzo e Gustavo López se misturavam com os brasileiros Sylvinho, Edu Schmidt e Catanha. Aleksandr Mostovoi tinha perdido a companhia de Karpin, mas seguia por lá. O Athletic Bilbao dirigido por Jupp Heynckes ainda tinha grandes nomes do clube, como Ismael Urzaiz, Joseba Etxeberria e Francisco Yeste. O Betis possuía sua colônia brasileira com Denílson e Marcos Assunção, acompanhando o promissor Joaquín. Já o Mallorca apresentava recursos com uma linha de frente na qual ascendiam Samuel Eto’o, Walter Pandiani e Ariel Ibagaza. O Sevilla de Joaquín Caparrós, enquanto se reconstruía após uma passagem recente pela segundona, trazia símbolos como José Antonio Reyes e Javi Navarro.
Na metade inferior da tabela, o time que mais chamava atenção era o Atlético de Madrid, recém-promovido da segundona. Os colchoneros ainda levariam um tempo para se readaptar à elite, mas tinham o xodó Fernando Torres em franca ascensão, assim como bons nomes como José Mari, Luis García, Demetrio Albertini, Germán Burgos e Fabricio Coloccini – além de Luis Aragonés no comando. Outro time que preparava terreno para grandes passos era o Villarreal. Passou uma temporada instável, mas já reunia Pepe Reina, Belletti, Rodolfo Arruabarrena, Marcos Senna e Martín Palermo. O Espanyol era mais um melhor no papel do que em campo, com Moreno Torricelli, Maxi Rodríguez, Iván de la Peña, Savo Milosevic e Raúl Tamudo. Isso sem contar outros talentos que perambulavam em equipes mais modestas: John Aloisi (Osasuna), Darío Silva (Málaga), Julio César Dely Valdés (Málaga), Yossi Benayoun (Racing de Santander), Jordi Cruyff (Alavés) e Viktor Onopko (Rayo Vallecano).
A estreia da Real Sociedad em La Liga 2002/03 logo ofereceu o clássico contra o Athletic Bilbao. Seria um dia de festa em Anoeta, com a contundente vitória por 4 a 2 dos txuri-urdin. Tudo bem que a defesa dos Leones facilitou pelos muitos erros, sobretudo o goleiro Iñaki Lafuente, o que não apagava a contundência inicial da Real. Karpin abriu o placar no primeiro tempo e, mesmo que Carlos Gurpegui tenha descontado de imediato, Nihat recuperou a vantagem na sequência. Nihat anotaria mais um no segundo tempo, assim como Gurpegui. Entretanto, Kovacevic apareceu para dar números finais ao dérbi – agora com assistência de Nihat.
A empolgação teria um freio na estreia da Copa do Rei: mesmo com o time principal, a Real Sociedad seria eliminada logo de cara pelo Zaragoza. Os Maños atuaram com um a menos desde o primeiro tempo e ainda assim anotaram 3 a 1 em La Romareda. Ao menos, aquele baque não impactou a excelente largada dos txuri-urdin por La Liga. A equipe venceu fora de casa na segunda rodada, com os 3 a 1 sobre o Espanyol comandados por dois gols de Kovacevic. A sequência positiva teria um animado 3 a 3 contra o Betis em Anoeta, mais dois de Kovacevic para a conta, antes dos 3 a 2 sobre o Osasuna em El Sadar. O triunfo veio graças a um gol de Khokhlov, saindo do banco, aos 38 do segundo tempo. Àquela altura, a Real já fazia seu melhor início em La Liga em duas décadas, desde os títulos no início dos anos 1980. Com dez pontos, a equipe dividia a liderança com Celta e Valencia.
O bom início da Real Sociedad alavancou até mesmo o número de sócios, entre os muitos desiludidos que tinham se afastado do clube nas temporadas anteriores. Surpreendia a maneira como o time, praticamente o mesmo que correra sérios riscos na temporada anterior, conseguia tamanha transformação na maneira de se portar. A dupla formada por Nihat e Kovacevic desde já era exaltada. E Raynald Denoueix deixava mais claros os seus processos. Era elogiado pela melhora na preparação física e também na liberdade que garantia em campo. “O esquema é só uma referência, sobreposto pela inteligência dos jogadores”, definia o comandante. Se a defesa não se mostrava muito confiável pelos muitos gols sofridos, o ataque compensava.
A tabela auxiliou a Real Sociedad naquele início. A equipe escapou dos confrontos mais duros nas primeiras rodadas de La Liga. Preponderava a força dos txuri-urdin em Anoeta. A equipe venceu o Valladolid por 2 a 1 em casa, antes de voltar com o empate por 2 a 2 na visita ao Alavés. Depois, ganhou do Racing de Santander numa virada mais suada que o pensado, em 2 a 1 garantido de virada por De Pedro no apagar das luzes em San Sebastián. Já no Madrigal, o triunfo por 1 a 0 bastou contra o Villarreal. Passadas oito rodadas, a Real já ocupava a liderança isolada e sustentava uma vantagem de dois pontos sobre o vice-líder Valencia. Foi quando o nível dos desafios começou a aumentar.
Primeiro, a Real Sociedad mediria forças em Anoeta com o Deportivo de La Coruña, que não tinha começado a campanha tão bem. O empate por 1 a 1 era um resultado razoável. Depois, ocorreu a visita ao Real Madrid no Estádio Santiago Bernabéu. Seria uma partida cheia de alternativas e chances de gol para os dois lados, mas o empate por 0 a 0 também não era de se descartar. Mais custoso seria o 0 a 0 com o Rayo Vallecano na capital. A sequência de tropeços deixou a Real com só um ponto de vantagem na liderança, ameaçada por um surpreendente Mallorca, enquanto o Valencia aparecia ainda dois pontos atrás. A resposta precisaria vir em Anoeta, durante a visita do Barcelona.
A reação da Real Sociedad na tabela se confirmou com a vitória por 2 a 1, mas num jogo duro em San Sebastián. Sob forte chuva, os txuri-urdin bombardeavam a meta do Barça. Não conseguiam o gol e tomaram o primeiro, num chute fraco de Kluivert que bateu na trave e depois nas costas de Westerveld antes de entrar. A reação da Real começou ainda no primeiro tempo, numa cabeçada de Kovacevic, após um lançamento absurdo de Xabi Alonso. Já na segunda etapa, num contra-ataque, Kovacevic fez mais um com um lindo toque por cobertura. O Barcelona ainda esboçou um empate, mas as chances do terceiro gol dos bascos eram bem maiores. Um alívio tremendo para o time que cresceria com aquele excelente resultado.
Neste momento, Xabi Alonso já era tratado como um dos principais jogadores de La Liga. O jovem preferia evitar o alarde e manter os pés no chão. “Líder da equipe? Não sou líder de nada. Não fiz nada. Apenas sonhava em chegar à equipe principal. Não é questão de falar de líderes. E como poderiam me comparar já com Redondo ou com Guardiola? Não fiz nada de nada. Entendo que minha posição tem destaque porque toco muito a bola, mas aí a dizer que sou o cérebro da equipe… É exagero”, comentou Xabi Alonso, ao jornal El País. “Não vou dizer nada original, mas triunfamos porque os bons resultados chegam a partir de tudo o que fazemos nos treinamentos. O êxito é a soma do rendimento de todos os que fazem que uma equipe funcione”.
A Real Sociedad, a partir daquele resultado contra o Barcelona, emendou vitórias. Karpin garantiu o 1 a 0 sobre o Sevilla no Nervión. Depois, em Anoeta, De Pedro e Aranburu fizeram os gols na virada por 2 a 1 sobre o Mallorca. Na visita a Huelva, os 3 a 1 sobre o Recreativo tiveram dois tentos de Nihat. Após 15 rodadas, a Real abria uma vantagem de cinco pontos na dianteira. O problema era quem despontava como seu perseguidor: o Real Madrid, enfim se recuperando de um início de campanha instável. A esta altura, nenhum clube das cinco grandes ligas europeias tinha um aproveitamento superior ao da Real Sociedad. Após 15 rodadas, também igualava a maior pontuação de La Liga desde que o sistema com três pontos por vitória tinha sido adotado.
A virada do ano guardou um problema sensível, com a lesão de Xabi Alonso, que ficaria seis semanas parado após se machucar com a seleção basca. A sequência de vitórias da Real Sociedad se encerrou, mas não a invencibilidade. A equipe cedeu o empate por 2 a 2 no Anoeta contra o Málaga, mas buscou os 2 a 2 contra o Valencia no Mestalla, após sofrer os dois primeiros tentos. Seria fundamental o triunfo por 1 a 0 sobre o Celta em Anoeta, no qual De Pedro marcou e Westerveld pegou um pênalti a nove minutos do fim. E o primeiro turno terminou com os 2 a 1 sobre o Atlético de Madrid dentro do Vicente Calderón, com Kovacevic selando mais um triunfo. Como não acontecia desde o título de 1981/82, a Real terminava a primeira metade do campeonato como líder. A equipe mantinha a invencibilidade, com 43 pontos, cinco a mais que o Real Madrid e oito a mais que o Valencia.
A ótima forma da Real Sociedad, obviamente, era creditada ao trabalho de Raynald Denoueix. Os próprios jogadores exaltavam a maneira como o técnico os conduzia, com um perfil mais pedagógico no campo de treinamentos e sem estrelismos. Como definiu De Pedro, em entrevista ao jornal El País: “Denoueix nos deu muita coisa, mas sobretudo confiança e liberdade. Ele trabalha, planeja, explica, organiza. Mas, em campo, quem manda é o jogador. Em outras temporadas prevaleciam muitos aspectos táticos e eu sempre acreditei que os jogos são vencidos dando liberdade ao jogador. É preciso respeitar as obrigações táticas, mas logo o jogador precisa de liberdade para interpretar as partidas, segundo vão se moldando”.
A primeira derrota da Real Sociedad aconteceu justamente na primeira rodada do returno. Uma pancada no clássico contra o Athletic Bilbao, que anotou 3 a 0 em San Mamés. Cria da base txuri-urdin, Etxeberria anotou dois gols. Pior que o resultado em si foram os efeitos da estagnação do time, com muitos desfalques naquele momento. A Real só empatou com o Espanyol por 0 a 0 em Anoeta, antes de perder para o Betis num insano 3 a 2, de quatro gols nos 15 minutos finais e duas viradas no placar. A liderança ficava em xeque e o triunfo por 2 a 0 sobre o Osasuna até aliviou um pouco, com gols de Kovacevic e Mikel Alonso em Anoeta. Entretanto, a terceira derrota em cinco rodadas pintou no José Zorrilla, onde o Valladolid ganhou por sonoros 3 a 0. O Real Madrid passava um ponto à frente. Valencia e Deportivo encostavam logo atrás dos bascos.
A Real Sociedad precisou trabalhar e não se abalar nesta sequência do campeonato. Uma boa resposta veio nos 3 a 1 sobre o Alavés em Anoeta, com gols de Kovacevic, Nihat e Karpin. Nihat e Karpin também providenciaram os 2 a 1 contra o Racing de Santander, de virada e com pênalti perdido pelos cántabros. Um deslize aconteceu em casa diante do Villarreal, com o empate por 2 a 2 cedido após dois gols dos visitantes no apagar das luzes. Já na visita ao Deportivo, a derrota por 2 a 1 no Riazor foi dolorosa mais pela virada sofrida no final, depois de um penal desperdiçado por Kovacevic. O segundo turno chegava à metade, com o Real Madrid abrindo seis pontos de vantagem sobre os txuri-urdin, igualados ao Depor na vice-liderança. O confronto direto com os merengues, logo adiante, era o que poderia reduzir a diferença.
Dentro de Anoeta, a Real Sociedad teve uma de suas atuações mais impressionantes naquele campeonato. Os galácticos terminaram engolidos pelos txuri-urdin, com a vitória por 4 a 2 sobre o Real Madrid. Kovacevic precisou de dois minutos para abrir o placar e anotou o segundo aos 20, a partir de um lindo cruzamento de De Pedro. Nihat assinalou o terceiro aos 31, pouco antes de Ronaldo descontar. No minuto seguinte, porém, Xabi Alonso tratou de fazer o quarto. O meio-campista mandou uma sapatada do meio da rua, sem chances a Casillas. O Real Madrid ainda tentou reduzir a diferença rapidamente, mas foi apenas na reta final que Javier Portillo tornou a goleada menor. Porém, os três pontos eram da Real, agora só três pontos atrás do Madrid na tabela.
“A formidável pegada da Real Sociedad desmontou a ideia de uma parada militar para o Real Madrid nesta Liga, que caminha para uma emocionante reta final. Acomodado pelos elogios excessivos que tem recebido nas jornadas anteriores, o Madrid deparou-se com a dura realidade de um campeonato que tem a Real como protagonista incontestável. Sua atuação atingiu o patamar da perfeição, pois nada faltava ou sobrava em seu jogo, que tinha as doses exatas de precisão, força, velocidade, organização e finalização. Foi uma demonstração intransponível de virtuosismo que não encontrou resposta no Real Madrid, reduzido à mínima expressão em Anoeta, palco do seu colossal fracasso”, descrevia o jornal El País, em relato que chamava a Real Sociedad de “apoteótica”.
Seria o momento para a Real Sociedad recuperar seu melhor futebol. Prova disso veio nos 5 a 0 sobre o Rayo Vallecano, com dois gols de Nihat. Uma breve pausa na boa sequência ocorreu na visita ao Camp Nou, no triunfo por 2 a 1 que o Barcelona construiu logo cedo, orquestrado por Riquelme. Todavia, as semanas seguintes reservaram quatro vitórias consecutivas da Real Sociedad. Xabi Alonso garantiu o 1 a 0 sobre o Sevilla em Anoeta. Um excelente 3 a 1 sobre o Mallorca foi arrancado em Son Moix. Nihat deixou o seu no suficiente 1 a 0 sobre o Recreativo. E os 2 a 0 sobre o Málaga em La Rosaleda tiveram tentos de Kovacevic e Gabilondo. O Real Madrid voltava a empacar. Restando mais cinco rodadas, tanto Depor quanto Real Sociedad igualaram a pontuação dos merengues. Os galegos logo perderiam forças, mas os txuri-urdin conseguiram a ultrapassagem, de volta à liderança e com um ponto à frente dos galácticos nesta reta decisiva.
A tabela da Real Sociedad era difícil em seus três compromissos finais. A começar pelo embate diante do Valencia, em Anoeta. O empate por 1 a 1 não reservava o melhor dos mundos, com um gol de Xabi Alonso logo neutralizado pelo tento contra de Jauregi. Pelo menos o cenário não era tão ruim, com o empate do Real Madrid em pleno Bernabéu diante do Celta. O problema? O Celta seria o oponente da Real Sociedad em seu penúltimo jogo, em Balaídos. A equipe galega passava longe da briga pelo título, mas vinha empolgada com a chance de garantir uma vaga na Champions através da quarta colocação. E foi o que os celestes confirmaram por antecipação, graças ao triunfo por 3 a 2. Edu Schmidt e Mostovoi anotaram os primeiros tentos, antes que Nihat descontasse no meio da segunda etapa. A esperança não durou muito, quando Mido assinalou o terceiro. Por mais que Nihat tenha voltado a reduzir a diferença, a reação basca não foi além.
No jogo paralelo, o Real Madrid goleou o Atlético de Madrid por 4 a 0 no Calderón. Os merengues reassumiam a liderança antes da rodada final, com dois pontos de vantagem sobre a Real Sociedad, e dependeriam apenas de si. Enfrentavam o Athletic Bilbao, cuja grande pretensão era ficar à frente do Barcelona para descolar uma vaga na Copa da Uefa. Já a Real Sociedad encarava em Anoeta um Atlético de Madrid desinteressado, mas precisava torcer também por um tropeço dos merengues para que a reviravolta na liderança ocorresse. O time que havia permanecido por mais tempo no topo da tabela via o caneco se distanciar.
A vitória em San Sebastián aconteceu. A Real Sociedad derrotou o Atlético de Madrid por 3 a 0, com gols anotados no segundo tempo. Kovacevic abriu o placar, De Pedro ampliou e Nihat fechou a contagem. Nada que bastasse, quando o Real Madrid já tinha construído o triunfo por 3 a 1 sobre o Athletic Bilbao no Bernabéu. Foi uma tarde brasileira, com dois gols de Ronaldo e outro de Roberto Carlos. Ainda assim, a torcida em Anoeta não deixou de comemorar: o vice-campeonato rendia a primeira aparição na Champions League em 20 anos e também a estreia no torneio com seu novo formato. Os gritos de “Champions” nas arquibancadas fizeram até o técnico Raynald Denoueix se confundir, achando que os bascos estavam celebrando o título pelo eventual tropeço paralelo do Real Madrid. Não passou de um devaneio, mas rolou invasão de campo e volta olímpica.
No dia seguinte, milhares de torcedores da Real Sociedad ainda saíram para apoiar os jogadores nas ruas de San Sebastián. Era um sinal do orgulho que não dependia necessariamente do título, mesmo que o sabor amargo do quase ficasse. A Real fechou a campanha com 76 pontos, além de 71 gols marcados e 45 sofridos. Manteve-se invicta como mandante. Makaay terminou como artilheiro de La Liga com 29 gols, mas Nihat e Kovacevic apareceram no Top 4, com 23 tentos do turco (empatado com Ronaldo) e 20 do sérvio. Como consolo, Xabi Alonso ganhou o prêmio de melhor espanhol em atividade na competição e Nihat foi eleito o melhor estrangeiro.
A Real Sociedad manteve seu time titular para a temporada 2003/04. No máximo, saíram reservas como Korkut e Khokhlov, suplantados por nomes como Lee Chun-soo e Bittor Alkiza. A equipe faria uma campanha digna na Champions League, ao avançar no grupo que também reunia Olympiacos, Galatasaray e Juventus. Sucumbiu apenas a um forte Lyon nas oitavas de final. O problema é que os bascos não conseguiram conciliar os diferentes compromissos e voltaram à mediocridade anterior em La Liga. O time vice-campeão de novo despencou na tabela e passou a ser ameaçado pelo risco de rebaixamento. Raynald Denoueix até conseguiu a recuperação, mas o 15° lugar passava longe de agradar. O treinador que transformara as perspectivas dos txuri-urdin em tão pouco tempo foi demitido. Aquele seria seu último trabalho como técnico, aos 56 anos, preferindo enveredar à carreira de comentarista esportivo.
Já o desmanche do elenco da Real Sociedad começou a partir de 2004/05. Xabi Alonso foi vendido ao Liverpool para cobrir perdas financeiras acumuladas. Javier de Pedro (Blackburn), Agustín Aranzábal (Zaragoza) e Sander Westerveld (Mallorca) foram outras despedidas significativas naquela temporada. Não demoraria para Karpin se aposentar, enquanto Nihat virou reforço do Villarreal. Sem boa parte de seus astros, a Real terminou num igualmente medíocre 14° lugar em 2004/05 e pintou no 16° lugar em 2005/06. O ensaiado rebaixamento, enfim, se consumou em 2006/07, com a antepenúltima colocação na tabela. Seria a deixa para que também Kovacevic e López Rekarte se despedissem.
A reconstrução da Real Sociedad não seria simples. Os txuri-urdin ficaram três temporadas consecutivas na segunda divisão, até que o aguardado acesso acontecesse em 2009/10. Aranburu era a liderança de outros tempos, numa equipe que reunia figuras como Claudio Bravo, Xabi Prieto e Antoine Griezmann. Foi com essa nova geração que os bascos até retornaram à Champions em 2013/14 e se restabeleceram na primeira divisão, sem novos riscos. Já mais recentemente, o trabalho de Imanol Alguacil rendeu o histórico título na Copa do Rei e boas campanhas seguidas na parte de cima da tabela, com mais uma vaga na Champions 2023/24. Porém, se por um lado a Real até conseguiu ocupar a liderança em parte das últimas edições de La Liga, nunca mais sonhou com o troféu até as rodadas finais. Lá se vão 20 anos desde a última vez que tamanha ilusão foi provocada em San Sebastián. Mesmo sendo uma exceção em anos duros para o clube, a temporada de 2002/03 ainda provoca fantasias entre os torcedores.



