Griezmann anuncia fim de parceria com Huawei após denúncia de reconhecimento facial contra uigures
Em uma decisão rara na indústria do futebol, Antoine Griezmann resolveu romper sua parceria com a Huawei, que o patrocinava há anos. O motivo do rompimento, como explicou o próprio jogador, foram as suspeitas de que a empresa estaria envolvida no desenvolvimento de um software de reconhecimento facial que, ao identificar pessoas da etnia uigur, minoria perseguida na China, ativaria uma espécie de alarme para a polícia chinesa.
“Após fortes suspeitas de que a Huawei teria contribuído para o desenvolvimento de um ‘alerta uigur’ graças a um software de reconhecimento facial, anuncio que estou encerrando imediatamente minha parceria com a empresa”, escreveu Griezmann, em publicação no Instagram.
“Aproveito esta oportunidade para convidar a Huawei não apenas a negar estas acusações, mas a tomar medidas concretas o mais rápido possível para condenar esta repressão em massa e usar sua influência para contribuir para o respeito dos direitos dos homens e das mulheres dentro da empresa”, cobrou o jogador.
A revelação sobre o desenvolvimento do software controverso foi feita por uma reportagem do Gizmodo Brasil, um documento público encontrado no site da própria empresa detalhava um projeto em parceria com a startup chinesa de reconhecimento facial Megvii para testar um sistema de câmeras com inteligência artificial. Por meio da tecnologia, seria possível identificar idade, sexo e etnia de um indivíduo em uma multidão. Ao detectar alguém da minoria uigur, o sistema supostamente ativaria um alarme para a polícia.
Os uigures, que têm uma população de 11 milhões de pessoas e são uma minoria étnica na China, são em sua maioria muçulmanos e, segundo relatos de anos, sofrem perseguição do governo chinês. Segundo reportagens, até 2018, o Partido Comunista Chinês teria prendido de 800 mil a 2 milhões de uigures e os enviado ao que chama de “centros de reeducação”. Denúncias apontam que esses centros são acusados de práticas como tortura e abuso sexual.
Em dezembro de 2019, outro jogador a se posicionar contra o governo chinês em relação a seu tratamento aos uigures foi Mesut Özil. À época, o meia escreveu: “Eles queimam seus Alcorões, fecham suas mesquitas, proíbem suas escolas, matam seus homens de fé. Homens são forçados a entrar em campos de concentração, e suas famílias são forçadas a viver com homens chineses. As mulheres são forçadas a se casar com homens chineses. Mas os muçulmanos estão calados, não fazem um barulho sequer. Eles os abandonaram. Eles não sabem que consentir à perseguição é uma perseguição em si?”.
O tratamento do qual Özil fala foi denunciado por um painel da ONU sobre direitos humanos em 2018, com a organização alegando ter recebido diversos relatórios críveis de que haveria mais de um milhão de muçulmanos da minoria uigur (e de outros grupos muçulmanos) sendo detidos, cercados por arames farpados e torres de vigilância, sob o pretexto de um processo de “erradicação do extremismo religioso” e “treinamento vocacional”.
Na mesma época da publicação de Özil, o Colônia suspendeu uma parceria que tinha com o governo chinês para a construção de uma academia de futebol no país devido às mesmas denúncias.
A atitude de Griezmann, anunciada nesta quinta-feira (10), abre um precedente importante e necessário ao mundo do futebol, uma lição de que clubes e jogadores não podem fechar os olhos a denúncias graves feitas a nações e/ou empresas com que mantêm parcerias.



