La Liga

Diakhaby: “A punição precisa acontecer para dar um exemplo à sociedade, é preciso ser duro com o racismo”

Zagueiro comentou episódio de racismo durante jogo do Campeonato Espanhol, em que acusa Cala, do Cádiz, de chamá-lo de 'negro de merda'

Neste domingo, Mouctar Diakhaby estava de volta a campo. O zagueiro participou do empate por 2 a 2 entre Valencia e Real Sociedad, uma semana depois de deixar o gramado no duelo contra o Cádiz. O francês acusou Cala, zagueiro adversário, de chamá-lo de “negro de merda” durante uma disputa na área. A saída de Diakhaby do jogo foi apoiada e acompanhada pelos colegas do Valencia, que precisaram voltar à partida sob a ameaça de perda de pontos. Uma semana depois, o episódio permanece nas manchetes e é investigado por La Liga para avaliar possíveis punições.

Enquanto Cala voltou a campo naquele domingo e logo após deu uma coletiva para negar as acusações, Diakhaby preferiu ver o restante do jogo nas arquibancadas e manteve o silêncio a princípio. O jogador do Valencia se pronunciou pela primeira vez através de um vídeo e, nesta segunda, deu uma longa entrevista ao jornal AS sobre o ocorrido. O francês traz detalhes da acusação, reitera sua denúncia e também aponta como o futebol precisa tratar de maneira mais séria o racismo. Segundo ele, esta será sua última entrevista até que La Liga divulgue o resultado de suas investigações.

Abaixo, traduzimos os principais trechos e reunimos as respostas, conforme os temas em comum. Confira:

Como Diakhaby tem se sentido

“Estou bem. A semana passada foi difícil para mim. O tema foi complicado, mas agora estou bem. Durante a semana eu treinei normal, tratando de me esquecer de tudo. Na partida também. Sou profissional. Mas agora quero contar o que vivi e não falarei mais até depois da investigação”.

O que aconteceu em campo

“Ele me disse ‘negro de merda’ quando estávamos na área, quando eu protejo a bola para meu goleiro. Quando Jaume tem a bola, ele me insulta. Ele me insulta e se vira. E o do ‘me deixa em paz que não te escuto’ aconteceu porque ele logo se foi de costas. Eu gritei ao árbitro. Minha reação foi pouco comum. Era a primeira vez que isso acontecia comigo e eu me esqueci de tudo o que acontecia em campo. Só tinha as palavras na minha cabeça. Ele me diz quando se levanta. Acho que ele se machuca, não sei, mas ele se levanta e então me diz. Você pode ver na imagem que ele se vira um pouco para mim e a última palavra que sai é ‘merda’. Mas quando ele diz isso está mais perto do chão que de pé”.

Pedido de desculpas

“Sim, ele fez um gesto de pedir perdão. Ele queria se desculpar, mas eu não queria saber nada de ninguém e nem escutar o que ele queria me dizer. Eu estava com muita raiva. Fali, do Cádiz, tentava me acalmar. Tentava que eu o escutasse. Ele me falava de coisas sobre o escudo, mas eu não queria saber nada. Ele me dizia para eu ‘ficar tranquilo, pensar no meu escudo’. Eu disse que é um tema que não é para pensar no futebol nem no dinheiro. Era uma coisa de racismo. Claro que minha reação não foi habitual. O que aconteceu não é normal. Muitas coisas acontecem no campo, muitas palavras, muitos insultos… Isso é futebol. É assim. No futebol há insultos, mas há coisas que não podem ser ditas. Existem temas sobre os quais não se pode falar assim e é a questão racial”.

O apoio dos companheiros

“Disse a Gabriel Paulista. Meus companheiros não escutaram Cala. Thierry e Jaume eram os mais próximos, mas estavam concentrados na jogada e ele disse baixinho. Era difícil para eles. Nenhum companheiro escutou, caso contrário teriam dito, claro. Gabriel viu minha reação, sabia que eu não estava no jogo. Ele sabia, porque me conhece, não reajo assim à toa. Gabi e eu conversamos, então tomamos a decisão de deixar o campo. Meus companheiros sabem como sou. Nunca fico bravo e, se faço isso, algo aconteceu. Eles sabem que não é mentira, me conhecem”.

A volta do Valencia ao jogo

“Disse que eles voltassem a jogar, é verdade. Os árbitros explicaram que se não saíssemos ao campo, perdíamos os pontos. A regra podia nos prejudicar. Não queria que minha equipe pagasse por isso, não queria que minha equipe pagasse por uma pessoa que comete erros e que não é de nosso time. Não é justo. Por isso disse aos meus companheiros que voltassem a campo. Minha cabeça não entendia isso. É preciso mudar. Creio que, se acontece em outro país, ninguém perde pontos. Meus companheiros não queriam seguir. Eles estavam comigo. Se eu dissesse para ficarmos no vestiário, eles ficariam. Mas não sou egoísta, não queríamos que perdêssemos pontos por uma coisa que não era nossa”.

Diakhaby conversa com o árbitro após a acusação de racismo (Foto: Imago / One Football)

A decisão de ficar nas arquibancadas

“Decidi sair do vestiário porque não tinha nada do que me esconder. Queria que as pessoas vissem que havia uma suspeita de racismo, que o suspeito estava em campo e a vítima nas arquibancadas. Não queria me esconder. Eu não tinha nada que esconder. Não era culpado de nada, era a vítima. Pensei em muitas coisas naquele momento em que o jogo voltou. É algo que não entendo. É preciso ser dito e é a verdade, a regra em outro país creio que seria diferente”.

A mudança da regra

“O Valencia está brigando para mudar a regra. Quero agradecer o apoio do presidente, que está me ajudando em tudo e quer mudar as coisas. O time que toma a decisão de sair por racismo não deve ter a ameaça de perder os pontos. Essa equipe é vítima. Você não pode perder três pontos por uma denúncia de racismo. Eu era a vítima e, além disso, meu time pode perder três pontos”.

A postura de Javier Tebas, presidente de La Liga

“Depois do insulto, o que doeu mais foi a declaração do senhor Tebas. Eu li e ri. Não sei como explicar. Se ele tivesse dito que não existem provas de que Cala me insultou, tudo bem, mas ele disse que eu havia entendido errado. É bastante estranho que ele diga isso. Logicamente que podem não existir provas. Não posso dizer tudo o que existe, porque está na investigação. Mas eles sabem e não podem falar assim”

Falta de imagens

“Tampouco entendo que não existam imagens ou registro. No futebol de agora sai tudo. As conversas entre os jogadores, as pessoas que fazem leitura labial… Não entendi que não existam mais provas, a verdade. Mas, bem, o que posso fazer eu? Nada, só dizer a verdade, que é o que estou fazendo. Não entendo que todas as imagens sejam de longe, que não há nada de perto”.

O reencontro com Cala nos tribunais

“Não tenho medo de me reencontrar com Cala na frente do juiz. Reitero o que entendi, porque entendi muito bem. Estou na Espanha há quase três anos e entendo quase tudo. E esse tipo de palavra, mais. Não são palavras difíceis de entender. Entendo que Cala tem a presunção de inocência. Se não surgem provas, são duas versões boca a boca. Se não surgem provas, acredito que não seja sancionado, isso é lógico. Mas vamos ver. Espero que surjam evidências e que tudo o possível seja feito para encontrá-las”.

O racismo no futebol

“Nunca tinha passado por isso. É a primeira vez comigo e também um time meu. Não estou acostumado. Outros companheiros já enfrentaram isso. E não tinha vivido cara a cara. Não foi uma coisa de torcida, foi no campo. Todos em campo queremos ganhar e às vezes você fica com raiva. Cada um tem sua reação. Em campo há insultos e, o que acontece em campo, fica em campo. Mas não tudo. As pessoas podem me insultar, mas não serem racistas. Não se pode atacar pela cor da sua pele. Isso não pode entrar na cabeça de ninguém. Futebol é um jogo, mas com a questão racial não dá para mexer, porque há uma história social por trás. Ouvi que são coisas de homens, que fica no campo… mas não tudo. Um homem precisa respeitar a cor do outro. Não podemos ignorar”.

As ações necessárias

“O que denuncio pode ser racismo e também falta de consciência social, as duas coisas, mas não se pode tolerar. Há racismo na sociedade e em todos os países. Não é um caso da Espanha. Isso ocorre na Espanha, na Inglaterra, na França, em todos os lados. Por isso é algo que precisamos erradicar. As pessoas têm que pensar melhor quando dizem algo, todos somos humanos e iguais. Também tenho amigos de todas as cores. Não conheço Cala, não posso dizer que ele é racista, mas ele disse uma palavra racista e por isso tem que pagar, porque se deixarmos essas coisas passarem… não vamos erradicar mais o racismo da sociedade. Insisto, não conheço Cala e não posso dizer que ele é racista. Mas disse uma palavra e precisa pagar, como eu deveria pagar se cometesse um erro como esse”.

A espera pela justiça

“Espero uma sanção para Cala, claro. Ela precisa acontecer para dar um exemplo à sociedade. Se não há sanção é como apontar que podemos falar o que quisermos e, assim, não vamos lutar para erradicar o racismo. Fala-se muito de ‘parar o racismo’, mas se buscam poucas soluções. É preciso ser duro com essas palavras e erros. As pessoas têm que saber que não se pode dizer tudo sem consequências. Não é um tema do futebol ou de clubes. É muito mais importante que isso, é uma questão racial. Não podemos diferenciar as pessoas pela cor da pele. Espero que as pessoas que investigam vão até o final. Reitero minhas palavras sobre o que escutei”.

Mostrar mais

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo